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Entrevista de capa: Chay Suede e a desconstrução do herói

Protagonista da novela “Quem Ama Cuida”, Chay amadurece em cena e desafia os clichês do mocinho tradicional

A trajetória de Chay Suede diante dos olhos do público é um exercício de evolução constante. Quando surgiu nacionalmente em 2010 como um dos finalistas do reality musical “Ídolos” e, logo em seguida, arrastar multidões na versão brasileira do fenômeno “Rebelde”, poucos conseguiriam prever a densidade que o jovem traria à teledramaturgia anos mais tarde. Deixando o estigma de fenômeno teen para trás com uma estreia arrebatadora na TV Globo na pele do jovem José Alfredo na primeira fase de “Império” (2014), Chay pavimentou uma carreira sólida e madura. Papéis marcantes como o sensível Ícaro em “Segundo Sol” (2018), o complexo Danilo/Domênico em “Amor de Mãe” (2019) e o ambivalente Ari em “Travessia” (2022) provaram sua impressionante capacidade de se reinventar.

Agora, ele enfrenta um dos arquétipos mais difíceis da televisão: o herói romântico. Na pele de Pedro, o protagonista de “Quem Ama Cuida”, novela das nove da Globo assinada por Walcyr Carrasco e Claudia Souto e dirigida por Amora Mautner, Chay assume a missão de entregar um mocinho que foge da obviedade e da monotonia. Advogado nascido na elite paulistana e guiado por um forte senso ético, Pedro se vê em um doloroso embate moral ao descobrir as práticas pouco ortodoxas de seu pai, seu grande herói e única referência familiar.

“Eu sempre achei o mocinho o tipo de personagem mais difícil de fazer. Acho complexo construir mocinhos que sejam realmente interessantes na televisão”, confessa o ator. Para Chay, o segredo de Pedro está no material humano real, livre de maniqueísmos. “O meu foco na preparação foi encontrar nuances inesperadas dentro da trajetória dele. A ideia é fazer com que ele tome atitudes corretas, mas que o telespectador entenda de onde, psicologicamente, essas ações vêm.”

Para alcançar esse lugar menos estático e mais voltado para dentro, o ator buscou referências em seu próprio círculo de convivência, observando desde o comportamento de conhecidos da alta sociedade paulista até a psicologia particular de filhos únicos. Chay Suede entrega em “Quem Ama Cuida” um trabalho que reflete o seu próprio momento de vida: mais maduro, consciente e focado em desafiar as expectativas do público. Ao humanizar o herói e abraçar suas imperfeições, o ator mostra que o verdadeiro frescor da TV está na coragem de olhar para dentro. Revista Regional esteve presente na entrevista coletiva concedida pelo ator no lançamento da novela da Globo. Confira a seguir.

Evento de lançamento da novela ‘Quem Ama Cuida’. Chay Suede

Chay, interpretar o mocinho em novelas sempre traz uma grande responsabilidade. Quais estão sendo os seus principais desafios na pele do Pedro, em “Quem Ama Cuida”, e como foi a sua preparação para construir esse papel?

Eu sempre achei o mocinho o tipo de personagem mais difícil de fazer. Não apenas os meus, mas, salvo raras exceções, acho complexo construir mocinhos que sejam realmente interessantes na televisão. Para mim, o maior desafio com o Pedro é entregá-lo como alguém crível, que não seja monotemático ou previsível. Quando o público já assiste a uma cena sabendo que todas as motivações daquele personagem são puramente boas, fica difícil surpreender. Por isso, o meu foco na preparação foi encontrar nuances inesperadas dentro da trajetória dele. A ideia é fazer com que ele tome atitudes corretas, mas que o telespectador entenda de onde, psicologicamente, essas ações vêm. Tentei encontrar um lugar para o Pedro que não fosse fixo ou estático. Esse é o grande desafio de dar vida a um herói romântico hoje, e é exatamente o que estou tentando encarar neste trabalho.

O que mais te motivou a aceitar o convite para este projeto?

Olha, o que mais me motivou foi a oportunidade de trabalhar com a Letícia Colin de novo, ser dirigido pela Amora Mautner e fazer a minha primeira novela do Walcyr Carrasco, com quem eu nunca tinha trabalhado antes. Eu tinha uma curiosidade enorme de experimentar a direção da Amora e uma vontade antiga de repetir a parceria com a Lelê. Nós não contracenávamos desde 2018, e eu já estava literalmente contando os anos para que esse reencontro acontecesse em cena.

E em relação à preparação para o Pedro, você buscou referências externas para construir a personalidade dele?

Muitas, principalmente no meu círculo de convivência. O Pedro é paulista e cresceu em um ambiente de alto poder aquisitivo, então fui atrás de referências em primos, amigos e conhecidos que pudessem acrescentar algo a esse universo. Também observei muito os filhos únicos que conheço, porque essa condição muda bastante a psicologia e o perfil de uma pessoa. Minha busca foi por um material humano real e que eu tinha à disposição, justamente para dar profundidade e camadas ao personagem, indo além do que o público já espera de um mocinho tradicional.

Vocês começaram a rodar a novela em São Paulo, gravando aquelas cenas intensas sob a chuva. Teve alguma curiosidade ou bastidor marcante daqueles primeiros dias no set?

Olha, os meus primeiros dias de gravação foram literalmente debaixo de chuva cenográfica, gravando as cenas da enchente. Logo ali já começou a se desenhar uma dinâmica muito interessante entre o Pedro e o sócio dele, o Cleber (Breno Ferreira). Também gravei sequências importantes com a Letícia Colin, que pegam bem aquele momento em que os personagens ainda estão tentando entender o que estão sentindo um pelo outro. Outro destaque foi uma cena de virada bem forte com o pai dele, no hospital, quando o Pedro descobre que foi enganado. Foi um começo excelente porque já deu para sacar como será a temperatura da relação entre esse pai e filho ao longo da história, e o mais curioso é que começamos a filmar justamente pelo momento de maior união deles.

O Pedro traz algum frescor ou algo muito diferente em relação aos seus personagens anteriores?

Ele é muito diferente de tudo o que já fiz. Primeiro porque as questões que ele enfrenta são mais maduras, mais adultas. O Pedro é um mocinho diferente até mesmo como arquétipo. Ele é um personagem mais ensimesmado, mais voltado para dentro, e os seus defeitos acabam nascendo justamente dessa característica. A própria dinâmica romântica dele não segue o caminho óbvio; ela surge de uma conexão profunda que acontece antes mesmo de o romance engatar. Eu, que sou um grande noveleiro, consigo enxergar nele o perfil de um herói romântico muito interessante e fora do comum para os padrões tradicionais. O Pedro é filho de um advogado muito importante, que é o grande herói da vida dele. Inclusive, não se sabe nada sobre a mãe; o pai é a única e principal referência de família que ele tem, tanto que ele decidiu seguir a mesma carreira por causa dessa admiração. No entanto, ao começar a trabalhar lado a lado com o pai, o Pedro passa a perceber que os métodos dele são pouco ortodoxos. E aí o conflito se estabelece, porque o Pedro tem a honestidade como meta de vida. Como ele vem de uma família rica, pode se dar ao luxo de focar em ajudar as pessoas, o que acaba gerando um embate moral e um conflito enorme dentro dele em relação aos negócios do próprio pai.

Como você mesmo disse, essa é sua primeira novela com texto do Walcyr Carrasco e direção da Amora Mautner. Como tem sido essa experiência no set?

Está sendo maravilhosa. Eu me dei muito bem com a Amora desde o primeiro segundo. Logo no início, começamos a trocar referências sobre os personagens e nos encontramos em um lugar criativo muito sintonizado. Com a Letícia Colin no processo, que é outra artista intensa e apaixonada como nós, essa energia se potencializou ainda mais. O clima nos bastidores está excelente e o texto do Walcyr é extremamente instigante.

Qual é a dinâmica da relação entre o Pedro e o Arthur Brandão (Antônio Fagundes), personagem assassinado nos primeiros capítulos da trama?

O Arthur é padrinho do Pedro, e os dois tinham uma ligação de muito afeto. Como o Arthur vivia cercado por pessoas interesseiras, ele valorizava muito a amizade com o pai do Pedro, que foi seu advogado por longos anos e o convidou para o batismo. Entre o Pedro e o padrinho existia um espaço de profunda franqueza, cumplicidade e respeito mútuo, uma relação genuína entre duas pessoas que se entendiam de verdade.

O Pedro vem de uma elite paulistana muito protegida, enquanto a Adriana (Letícia Colin) vive uma realidade de perda extrema na comunidade. Como esse abismo social e financeiro ditou o primeiro contato deles e de que forma essa diferença mexeu com as convicções dele?

Quando ele conhece a Adriana, surgem tanto um conflito de classes quanto um embate interno sobre quem ele realmente é e para onde quer ir. Ela representa uma possibilidade de vida muito mais real; o Pedro enxerga nela um portal de saída do circuito social em que ele sempre viveu. Isso tira o tapete dele, e o mais interessante é que ele adora que isso aconteça. Não é um romance convencional, eles não se apaixonam à primeira vista. Quando se encontram, ela está passando pelo maior sofrimento da vida dela: perdeu tudo, inclusive o marido, e está em um abrigo cuidando de outras pessoas. A Adriana é o oposto dele. Essa força mexe com o Pedro em um lugar muito profundo e que, inicialmente, não é romântico. Com o tempo, eles se tornam amigos e grandes parceiros. Quando o romance finalmente acontece, os dois já passaram por muita coisa juntos.

texto: Ester Jacopetti

fotos: Manoella Mello/TV Globo

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