Érika Januza em entrevista exclusiva

Érika Januza é mineira, tem 36 anos de idade, e tudo que conquistou até os dias de hoje foi com muito suor e sacrifício. Após completar uma década de carreira, ela comemora, e sabe a importância e o valor que o seu trabalho tem, mas não só para ela. Mulher preta, batalhadora, cheia de sonhos, seu trabalho tem significado importante para a classe artística, que se vê representada por ela, inspirando e abrindo novos caminhos e oportunidades para atores negros. No streaming, Érika está envolvida em dois projetos: “Verdades Secretas II”, que estreou no segundo semestre de 2021; e na segunda temporada de “Arcanjo Renegado”, a partir de junho; ambas na Globoplay. Nesta entrevista exclusiva, a atriz fala sobre meritocracia, feminismo branco, desigualdades sociais e, claro, Carnaval, já que ela é a rainha de bateria da Viradouro, atual campeã carioca.

REVISTA REGIONAL: Érika, são quase dez anos de carreira e muito trabalho, muito suor, para se manter na profissão. Ao longo desses anos, quem foram as pessoas mais importantes na sua vida e qual o impacto que elas tiveram na sua decisão de seguir com a carreira artística?

ÉRIKA JANUZA: Verdade. Esse ano eu completo dez anos de carreira. São muitos altos e baixos, mas um desejo muito forte de fazer a minha carreira se solidificar. Você pode receber uma oportunidade, mas precisa estar preparada. Eu sigo estudando muito e me dedicando, independentemente de todas as conquistas que eu já tive. Eu tenho os pés no chão. Muitas pessoas importantes passaram nesse período e me ensinaram demais. Eu acredito que até aquelas pessoas que geraram experiências negativas me ensinaram. Elas me deram gás para não me submeter a qualquer coisa e não desistir. Eu tive que ressurgir das cinzas algumas vezes por dentro e estar sorrindo constantemente por fora.

As mulheres lutam lado a lado em busca de igualdade, entretanto, o feminismo branco começou com mulheres elitistas, ou seja, privilegiadas. No livro “Contra o Feminismo Branco”, de Rafia Zakaria, ela diz: “A sugestão de que o privilégio racional pode ter desempenhado algum papel em sua ascensão, que homens brancos estão mais dispostos a ceder o poder para mulheres brancas, é uma ameaça intolerável para essa mitologia da supermulher que constrói com esforço próprio”. Qual a sua visão crítica sobre este assunto?

Tudo o que as mulheres conquistaram foi através de muita luta. Nada nos foi dado por uma benevolência dos homens. Foi preciso enfrentar, exigir algo que é nosso por direito. Mas essa é uma questão muito complexa. Nossa sociedade é machista, patriarcal, como tantas outras pelo mundo. As mulheres foram colocadas num lugar de subserviência na história da humanidade, como se ela estivesse ali para servir aqueles homens. Tudo isso fruto de uma estrutura para nos reprimir e controlar. Nós temos avanços hoje significativos, e muito importantes, no entanto, ainda encontramos homens que falam que é ‘mimimi’ ou reforçam seus ensinamentos machistas. Eu tenho consciência de que não vamos mudar um jogo que existe há séculos e mais séculos com as conquistas que conseguimos nas últimas décadas. Mas somos resistência, estamos mais seguras de que somos apoio umas para outras, e vamos seguir em frente.

Durante a pandemia, as desigualdades sociais ficaram em evidência e um grande percentual corresponde a pessoas negras e indígenas. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), são mais de 19 milhões de pessoas com fome e 14 milhões de desempregados. De que maneira você avalia o poder público nestas questões sociais e qual a importância da militância de artistas no combate a essa crescente desigualdade?

Eu acho que as respostas estão nos próprios dados que você citou. Infelizmente, vivemos um período como eu jamais pensei em viver. O poder público não olha para a nação de forma igualitária. Enquanto alguns voltaram para a miséria extrema, outros enriqueceram ainda mais. Quando você tem um espaço para potencializar a sua voz, você tem uma responsabilidade maior, porque a sua mensagem tem um alcance. Eu não posso falar em nome de todos os meus colegas, mas posso falar por mim. Se eu posso ajudar de alguma forma, se eu posso transformar a vida de uma pessoa que seja, eu vou fazer. Eu acho muito bonito quando as pessoas se unem para ajudar as outras, para diminuir a dor e as perdas dos nossos semelhantes. É aquilo: se quem deveria fazer não está fazendo, alguém tem que fazer. Eu acredito na união das forças mesmo.

Vamos falar um pouco sobre meritocracia. Você sabe o quanto é importante correr atrás e batalhar para conquistar seus objetivos, mas existe uma parcela da população que acredita na meritocracia. Qual a sua visão crítica sobre esse conceito?

Vamos lá: você estudou numa escola particular bilíngue? Você conheceu os grandes museus do mundo em viagens com sua família na sua infância e adolescência? Sempre estudou em escola particular? Eu, Érika, nunca tive nada disso. Sempre estudei em escola pública, com os poucos recursos que existiam na minha mão, assim como a grande maioria dos brasileiros. É como se as pessoas estivessem para iniciar uma corrida, mas a maioria não está na linha de partida, está lá atrás. Enquanto outros estão à frente da linha de partida. Quem ganhar ganhou por mérito? Vou deixar a reflexão com vocês.

Em “Verdades Secretas II”, você interpreta a modelo Laila que sofre com distúrbios alimentares. De que maneira você construiu essa personagem e o que de fato te desafiou neste trabalho?

As possibilidades da Laila me conquistaram desde a primeira leitura. Ela é uma personagem muito interessante e complexa. Eu sabia que seria um grande desafio e também um presente a oportunidade de fazer algo tão diferente. Vejo como privilégio essa confiança que o Walcyr (Carrasco, autor) e a Amora (Mautner, diretora) tiveram em mim. Eu estudei e me preparei bastante para fazê-la. Apesar de ser uma obra de ficção, com todas as suas ‘licenças’, é uma história forte e que, infelizmente, acomete muitas pessoas. Eu quis trazer toda essa verdade para dentro de cena. Busquei a orientação de psiquiatras e neurologistas, além de ter conversado com pessoas que já fizeram uso de medicamentos para emagrecer. A TV, além de entreter, é um canal de informação, pois ela coloca no holofote temas que precisam ser mostrados e debatidos. O Walcyr faz isso muito bem nas suas obras. Eu estou muito feliz com o sucesso do trabalho.

Você já atuou tanto em novelas como em séries. Alguns atores comentam que séries permitem que o ator se aprofunde mais na personagem porque normalmente as histórias têm começo, meio e fim. Em sua opinião, é mais fácil dar vida e interpretar a personagem com a trama já definida?

Não necessariamente. Na novela, ele também terá um fim, mas nós, atores, geralmente não sabemos. Às vezes, nem os autores. Novela é uma obra aberta, que tem o seu fio condutor, mas a manifestação popular pode alterar os caminhos daquela trama. Eu acho isso muito interessante. No caso de séries e filmes, a trama está pré-definida. Mas eu sinto que, ao fazer isso, como atriz, posso também encontrar outros caminhos ao longo das gravações.

Eu gostaria que você falasse um pouco sobre as gravações da segunda temporada de “Arcanjo Renegado”, uma série muito importante que trata de temas delicados como corrupção e honestidade. Diante deste trabalho, o que foi possível aprender com esses temas e com a sua personagem? A história te levou para algum lugar de reflexão sobre os problemas sociais?

‘Arcanjo’ é um trabalho muito importante pra mim, onde também aprendi muito e novamente tive a oportunidade de fazer uma personagem diferente. Na primeira temporada, vivi o drama de perder o marido policial em serviço. Uma triste realidade que me fez refletir muito. É também a minha primeira personagem que é mãe. E na segunda temporada, é a mesma personagem, mas agora como policial, enfrentando o crime de frente. É muito interessante acompanhar essas evoluções numa personagem. Eu aprendi mais coisas, amadureci mais um pouco como atriz e como pessoa. O universo de ‘Arcanjo’ é muito rico e nos faz refletir. Não quer dizer ao telespectador quem está certo ou errado, mas que ele tenha a possibilidade de ver de vários ângulos diferentes e tirar suas próprias conclusões.

Recentemente você foi coroada rainha de bateria da Unidos do Viradouro. Como está a sua expectativa em relação a essa nomeação tão importante, não só para a escola, mas para a comunidade carioca?

Ser rainha sempre foi um sonho guardado no meu coração. Na minha vida, sempre entendi que Deus tem a hora certa para todas as coisas. E hoje o meu encontro com a Viradouro, pra mim, só reforça isso. Era pra esperar. Para estar no lugar certo. Eu amo aquele lugar e estar ali. A cada ensaio é um prazer inexplicável. A minha gratidão ao Marcelinho (presidente) e ao Calil (presidente de honra da Viradouro) é sem fim. A comunidade, os ritmistas, a diretoria, todos me acolheram de uma forma que eu nem imaginava. Sou muito grata! Estamos em um momento muito difícil da humanidade, com tempos incertos. Fico triste porque, mais do que a festa em si, o Carnaval é fonte de renda para inúmeras famílias. Ele movimenta a economia do nosso país, empregando pessoas que precisam do seu ganha-pão. Eu torço para que esse cenário melhore, que a gente possa ter mais segurança e tranquilidade. Eu torço pelo Carnaval e pela saúde de todos nós.

E já que estamos falando de Carnaval, qual a sua história com essa grande festa popular que reúne todo tipo de pessoa, sem preconceito, sem julgamentos?

Eu sou apaixonada pelo Carnaval desde que me entendo por gente. Não sei explicar de onde veio. É algo bem meu. Mineira que devorava com os olhos cada desfile, ano após ano, na TV. Quando cheguei ao Rio, impossível não tornar minha paixão, realidade. O meu olhar sempre ia além do que se apresenta na avenida. É preciso tanta coisa, tanta gente disposta e talentosa, reunida para tudo acontecer. A importância de quem está por trás de tudo isso. Sou uma grande admiradora da festa, dos temas, das pesquisas feitas para se contar histórias diferentes ano após ano na avenida. Os mais diversos temas. Infinitas possibilidades. Eu amo demais.

Pra fechar, quais são os projetos que você pretende desenvolver neste ano de 2022 e suas expectativas em relação às novas oportunidades de trabalho, inclusive nas plataformas de streaming que vem crescendo?  

Como atriz, eu vejo a maravilha que é esse crescimento. Nós temos mais possibilidades e oportunidades de trabalho. Dentro e fora das telas. O Brasil é um país de muitos talentos. Que bom que temos mais espaços para conhecê-los, além de mais conteúdo para o público que ama assistir um bom produto. Como atriz e telespectadora, eu quero transitar por todas as possibilidades que existem.

texto: Ester Jacopetti

fotos: Giselle Dias