Cleusa da Sodiê: a verdadeira dona do pedaço

  • A marca, que surgiu em Salto, é hoje um dos maiores exemplos de franchising do Brasil, com 340 lojas, inclusive no exterior;
  • Nesta entrevista exclusiva à Regional, Cleusa Maria da Silva fala da sua vitoriosa trajetória de ex-boia-fria à “rainha dos bolos”

A Sodiê Doces está completando 25 anos. Essa história de sucesso teve início em Salto, onde a empresária Cleusa Maria da Silva começou, de forma tímida, a fazer bolos sob encomenda, nos horários de folga da fábrica onde trabalhava. Sua trajetória de sucesso motiva qualquer empreendedor. Ex-boia-fria e doméstica, Cleusa hoje é dona de um dos maiores cases de franchising do Brasil, com 340 lojas, incluindo duas em Orlando, nos EUA.

 

Da infância pobre, Cleusa se lembra do trabalho como boia-fria para ajudar a mãe a sustentar os nove irmãos, na cidade paranaense de Bandeirantes. Em São Paulo, foi empregada doméstica até se mudar para Salto, onde trabalhava numa fábrica durante o dia e fazia bolos sob encomenda à noite. Com o tempo e com o dinheiro de uma rescisão trabalhista, fundou sua primeira loja, a Sensação Doces, em 1997, com investimento de R$ 6 mil e 20 metros quadrados. A primeira funcionária só foi contratada depois de um ano. A lojinha cresceu e virou a Sodiê Doces, hoje uma rede de franquias com 340 unidades. “Meu maior acerto foi ter acreditado em um produto e persistido nele mesmo quando todos diziam que era loucura”, revela a empresária.

 

As primeiras franquias demoraram dez anos para acontecer. Seu sucesso atravessou fronteiras e chegou à Flórida, nos EUA, onde possui duas lojas. Tendo como inspiração o saudoso empresário do Grupo Votorantim, Antônio Ermírio de Moraes, Cleusa acredita que o grande segredo do empreendedor é foco e trabalho: “Ser empreendedor é, acima de tudo, descobrir que nada se consegue de verdade sem trabalho, sem foco, sem determinação. Você pode levar décadas para alcançar o sucesso. Se você espera que aconteça da noite para o dia, está fadado ao fracasso. Você tem que ter características básicas para empreender: ser uma pessoa determinada, com foco e vontade de trabalhar. Não foi fácil para mim. Levei 20 anos de trabalho para ter sucesso”, conta.

 

Há cinco anos, Cleusa abriu uma fábrica só de salgados, com sede em Boituva. A primeira franquia Sodiê Salgados Café foi inaugurada recentemente no Tatuapé, na capital paulista. O objetivo é chegar a 50 pontos de venda até o final deste ano. Para dar suporte às novas lojas, a marca vai ampliar a fábrica de 1,3 mil metros quadrados para 4,4 mil, investindo cerca de R$ 7 milhões. Confira a seguir a entrevista que Cleusa Maria concedeu à Revista Regional.

 

  

REVISTA REGIONAL: A senhora é tida como um exemplo de empreendedorismo e de superação, tendo enfrentado vários desafios no começo, quando fazia bolos em sua própria casa, em Salto. É impossível entrevistá-la sem pedir para que nos conte novamente todo o seu início como boleira e o surgimento da Sodiê Bolos. 

CLEUSA MARIA DA SILVA: A Sodiê Doces começou em um imóvel de 20 m² em Salto, mas a história dos bolos teve início em 1997, quando era funcionária de uma empresa de alto-falantes. A mulher do meu patrão fazia bolos para fora e, quando teve um problema de saúde, pediu para ajudá-la, até que ela acabou por parar com a venda de bolos e deixou que eu continuasse o negócio. E foi fazendo bolos, que levava aos clientes a pé, e aprimorando a receita, com a ajuda da minha mãe, que consegui abrir o pequeno espaço em Salto. Ali, logo colocamos à venda, também, as balas de coco cuja receita aprendi em um programa de TV. Juntou o sucesso das balas com o dos bolos, que foram ficando cada vez mais aprimorados e o negócio foi crescendo. Quatro anos depois, mudamos o empreendimento para um espaço de 80 m², quatro vezes maior do que o primeiro. Com irmãos e ex-funcionários como sócios, abrimos outras lojas em cidades próximas, como Sorocaba, Itu e Indaiatuba. Dez anos e muito trabalho depois, a Sodiê Doces virou franquia, em 2007, termo que eu nem sabia o que era quando um cliente me questionou sobre o assunto. Mas fui atrás para saber do que se tratava, fiz cursos e pesquisas durante cinco anos e abri a primeira, em São Paulo, pelas mãos justamente desse cliente.

 

Cleusa Maria, de ex-boia-fria à rainha dos bolos

Durante a pandemia, vimos muitas mulheres terem de se reinventar, e boa parte seguiu esse caminho da culinária e da confeitaria. Sabemos que o sucesso não vem fácil! Quais conselhos a senhora pode dar a elas?

O sucesso de quem vive da gastronomia vem da qualidade dos produtos utilizados e da experimentação. É preciso testar as receitas e os sabores, saber da preferência dos clientes. 

 

A senhora começou numa época em que nada se falava sobre empoderamento feminino, porém é um exemplo para todas as mulheres. Dentro dessa trajetória de tantos anos de empresa, quais os principais desafios e obstáculos que a senhora enfrentou justamente por ser mulher?

Os obstáculos sempre estarão presentes seja qual for a área de trabalho. Desistir nunca foi uma possibilidade. É preciso se adequar ao cenário, se aprimorar e oferecer um produto de qualidade. 

 

Nesses anos à frente da Sodiê, o que mudou em sua atuação? Até pouco tempo, a senhora gostava de visitar as unidades franqueadas até como forma de ver se as receitas continuavam sendo minuciosamente seguidas. Mas e hoje, com lojas até fora do Brasil, certamente é impossível essa rotina. Como é atualmente sua gestão?

Hoje, com certeza, tenho uma equipe que me ajuda a alinhar tudo com os franqueados, afinal, são 340 unidades pelo país e as duas em Orlando, mas, continuo à frente de tudo, avaliando, observando e validando o que a Sodiê oferece. 

 

A senhora pensa em se aposentar?

Um dia… (risos) mas, não agora.

 

Quem gosta de cozinha, sabe que a memória afetiva é pra vida toda. Em algum momento, a senhora sente saudades do tempo em que se dedicava aos bolos caseiros? Tem sobrado tempo para rever as receitas e fazer bolos para a família ou amigos?

Sempre que posso estou na cozinha. Sempre fiz meus bolos por prazer, esse é um diferencial. Cozinhar para a família é sinônimo de amor e adoro reunir todos ao redor da mesa com comidas que marcam a memória.

 

Das suas criações, qual o bolo que mais gosta, aquela receita que fez tanto sucesso que é motivo de orgulho?

Tudo o que a Sodiê oferece é motivo de orgulho, mas o Bolo Aerado é, sem dúvidas, um clássico, massa de chocolate, recheado com mousse de chocolate e creme de chocolate branco aerado. Geralmente, é uma combinação que agrada a todos. Uma explosão de sabor. 

 

Falando em receitas, a senhora ainda palpita nas criações? Costuma fazer ou ao menos degustar antes os novos sabores?

Com certeza! Preciso saber o que está sendo comercializado, o que tenho nas lojas, o sabor e a qualidade dos meus produtos. 

 

Hoje a Sodiê é considerada a maior franquia de bolos artesanais do Brasil. Qual o número de unidades que a rede possui, quantas fora do Brasil, e como é administrada toda essa cadeia de lojas? Alguém da família quis seguir seus passos na empresa?

 Temos 340 lojas espalhadas pelo país e duas em Orlando, nos EUA. As lojas são administradas por seus franqueados, mas, todos são orientados pelo Marketing da Sodiê, padronizando os produtos, o lançamento de itens, a forma de atendimento, mantendo a qualidade em todas as unidades. Meu filho (Diego Rabaneda), que hoje administra a Sodiê Salgados, sempre está ao meu lado administrando e gerenciando a marca. 

 

Depois de conquistar até o estrangeiro, quais os próximos passos da senhora e de seus bolos? O que podemos esperar para 2022?

Acredito na capacidade da Sodiê expandir a cada dia. No Brasil já somos 340 franqueados. Temos ampliado nossos serviços, como o delivery e, agora, o rodízio. Estamos sempre inovando e nos adaptando às necessidades do cliente. Hoje, além das variedades de bolos, com mais de cem sabores, oferecemos uma gama de salgados e tortas. Temos um primoroso kit festa e estamos presentes na casa das pessoas, além das lojas físicas. 

 

entrevista e texto: Renato Lima

fotos: Divulgação