Preparar o mundo para quem é diferente

Carol na campanha da marca Petit Filó

Fazer do mundo um lugar melhor para receber a filha diagnosticada com síndrome de down fez com que Priscila Pinha pensasse em uma campanha ativa para disseminar informações sobre a trissomia

 

Priscila Pinha é formada em engenharia química e seguiu carreira executiva de marketing. Mãe do Cauê, de 11 anos e da Carolina, de 5 – diagnosticada com síndrome de down assim que nasceu -, viu a vida se transformar em nome da trissomia. Assim como tantas crianças que nascem com a síndrome, Carolina é cardiopata e passou por uma cirurgia aos seis meses de idade e, três anos depois, veio um novo diagnóstico sugestivo para outra cirurgia. “Estava com tudo pronto para realizar meu sonho de carreira profissional quando o médico nos contou sobre a segunda cirurgia. Na hora larguei tudo e fiquei com ela, pois era a maior prioridade da minha vida no momento”, conta.

 

O quadro clínico da filha estabilizou e, por fim, Carol não precisou da cirurgia, mas Priscila decidiu fazer um ano sabático e ficar com ela em casa, monitorando sua saúde de perto. Foi quando resolveu divulgar, por meio das redes sociais, fotos da filha em momentos descontraídos e felizes, sempre ressaltando como a vida de um portador de síndrome de down pode ser leve e igual como a de qualquer outra criança. O perfil @carolinda_t21 é um sucesso, conta com 12,4 mil seguidores e abriu a Carol as portas de um mundo de oportunidades ainda na infância, como, por exemplo, fotografar para algumas marcas infantis de roupas.

 

Quando chegava ao fim o ano sabático de Priscila, iniciava a pandemia do novo coronavírus e a volta ao trabalho foi descartada. Como a maioria das mães com filhos portadores da síndrome, Priscila sempre esteve envolvida com a causa, mas com o tempo entendeu que a parte dela, de preparar a filha para o mundo, já estava feita, mas a de preparar o mundo para receber a filha não. “Quando fiz o congresso online sobre a trissomia e ouvi que a gente dedica tanto tempo para preparar o nosso filho para o mundo, mas esquece de preparar o mundo para recebê-lo, caiu a minha ficha. Dentro de casa, fechadas durante a pandemia, ela estava sendo cuidada e preparada, desenvolvendo a fala, a parte pedagógica e tantas outras dificuldades que todo portador de síndrome de down tem, mas como a sociedade vai recebê-la quando chegar a hora?”, indaga.

 

Foi então que o lado profissional de marketing encontrou o lado mãe e Priscila intensificou a imagem da filha no Instagram, passou a procurar mulheres influentes da região para que passassem a falar sobre a síndrome e ajudassem-na a manter o assunto sempre ativo nas redes sociais.

 

“Quem sempre fala de síndrome de down são pais e família, mas precisava fazer com que o assunto ganhasse força na nossa região. Apesar de a Carol fazer algumas campanhas publicitárias para importantes marcas, é preciso que a informação chegue ao local em que moramos, porque é aqui que ela vai crescer, se desenvolver. Assim como todo adolescente ela vai querer sair, ir para a balada e esperar chegar esta fase para ver se ela será aceita ou não na sociedade é desnecessário, uma vez que podemos orientar as pessoas desde já”, esclarece Priscila.

 

O objetivo central de Priscila e todas as campanhas idealizadas por ela, em parceira com as influencers e empresárias regionais, é exatamente preparar as mães da escola, as

vizinhas, as futuras mães das aulas extracurriculares para explicarem aos seus filhos que a Carol é diferente, mas pode fazer tudo o que as demais crianças fazem, só que no tempo e forma dela, mas que apesar de tudo isso é normal.

 

“Às vezes as pessoas falam que o outro tem preconceito e eu saio em defesa dele. Não preconceito, mas falta de informação. Eu não tinha informação e só fui ter depois do diagnóstico da minha filha. E eu precisava contar essa história para outras mães de uma forma leve, espontânea, positiva e até mesmo lúdica”, ressalta.

 

Priscila com os filhos Carol e Cauê (ao fundo)

Embaixadoras

 

Sem conhecer as pessoas, Priscila começou a contatar as mulheres que poderiam levar a mensagem que precisava. Como tinha apenas uma semana para criar e colocar em prática a ação, contou com três influenciadoras locais que a ajudaram a chegar em outras tantas. Juntas produziram uma série de vídeos que tinha o objetivo de fazer as pessoas pensarem o que há por trás da aparência e do que a gente vê.

 

Os vídeos viralizaram e ganharam uma abrangência maior do que Priscila imaginava. “Nossa mensagem foi afirmar que todos somos feitos de sonhos, estudamos, trabalhamos, nos dedicamos para ver nossos sonhos se transforarem em realidade. E assim como a gente, as pessoas com síndrome de down também querem e têm o direito de realizar seus sonhos, mas muitas vezes esbarram em barreiras como preconceito, rótulos e falta de informação”, conta.

 

Aos poucos, a hashtag #euincluo passou a ser viralizada por 20 influencers regionais e está chegando às famílias que tanto Priscila idealizou. A segunda ação pensada por ela envolveu o mesmo grupo de mulheres, que, em função do Dia Mundial de Conscientização do Autismo, encabeçou a campanha que afirmou que “normal é ser diferente” e, de forma lúdica, levou mães e filhos a vestirem meias com cores e estampas diferentes para que as crianças pudessem visualizar que a diferença faz parte de todos nós.

 

Priscila está desenvolvendo ainda um projeto de empreendedorismo social que tem o objetivo de empregar portadores de síndrome de down em empresas locais. “Sabemos que há limitações, mas sabemos que eles podem contribuir e, ao mesmo tempo, estarem produtivos em algumas funções. Tudo é muito novo e precisa ser pensado com muita calma e carinho, mas podemos e devemos empoderar nossos portadores de síndrome de down e deficiências”, finaliza.

 

reportagem: Aline Queiroz