Itu celebra os 200 anos do Patrocínio

  • Um dos marcos religiosos e arquitetônicos mais importantes de Itu chega ao seu bicentenário como referência em assistência socioeducativa para 260 crianças

Construída entre 1815 e 1819 pelo padre Jesuíno do Monte Carmelo, a Igreja de Nossa Senhora do Patrocínio foi inaugurada na festa de sua padroeira, em 13 de novembro de 1820, quando o seu construtor, o padre Jesuíno já havia falecido. Quarenta anos depois de sua morte, chegou a Itu, Madre Maria Theodora Voiron para abrir o colégio que funcionou junto à igreja e que foi referência na formação de mulheres em São Paulo. Foi a primeira escola Normal e primeira faculdade de Itu e região.

Fachada do Patrocínio, imagem datada do século passada

“A Igreja do Patrocínio foi construída por um gênio da arte, padre Jesuíno, que, em Itu, foi uma das grandes lideranças de seu tempo. Se em um primeiro momento serviu de espaço para o desenvolvimento espiritual de um conjunto de padres e para caridade com o povo mais pobre, depois se transformou em um ponto de apoio à educação. Hoje é lugar de referência para assistência socioeducativa para mais de 250 crianças e ponto de apoio e visitas ao túmulo de Madre Maria Theodora Voiron”, conta o historiador e curador do Museu da Música de Itu, Luís Roberto de Francisco.

Em 1858, a igreja foi cedida pelo bispo de São Paulo, Dom Antonio Joaquim de Melo, para a Congregação das Irmãs de São José, originária da França. Como essas irmãs tinham como vocação promover a educação de meninas, logo iniciou-se a construção de um colégio junto ao templo católico.  Foi o primeiro colégio de freiras destinado a meninas e moças no Estado de São Paulo, que funcionou até 1970. Depois disso, passou a abrigar o Centro Madre Theodora, para reforço escolar para crianças da rede pública da cidade, que funciona até os dias atuais.

“Mantemos o Centro Promocional Madre Maria Theodora totalmente gratuito para 260 crianças que frequentam o projeto no contra turno da escola pública. Mantemos também esse tipo de atividade em São Paulo e outras cidades do Interior do Estado. Em Itu, nossa casa também está aberta para encontro de jovens, casais, orações e formação e projetos especiais. Durante a pandemia, muitas atividades foram suspensas por questões de segurança, mas as famílias das crianças dos centros promocionais continuaram sendo atendidas em suas necessidades básicas, enquanto elas permanecem em suas casas”, afirma a coordenadora da comunidade Nossa Senhora do Patrocínio, Irmã Luíza Rodrigues.

Apesar de ter traços de barroco e neoclássico, a Igreja do Patrocínio não pode ser classificada em nenhum desses estilos, e é considerada uma das mais originais do Brasil. Além de uma bela construção, que foi remodelada em 1896 – Madre Theodora fez alterações na fachada e interior da igreja, representando um francesismo – guarda dois conjuntos de telas a óleo do tempo dos fundadores do templo, que estão guardados nos corredores laterais, obras estas tombadas como patrimônio nacional pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Um dos seus principais destaques fica dentro de suas dependências, uma secular e gigantesca mangueira, que é o centro de um pátio francês que serviu de recreio ao internato, outro espaço notável da construção.

Padre Jesuíno e Madre Maria Theodora, dois símbolos de Itu

Padre Jesuíno (1764-1819) era natural de Santos e atuou em Itu toda a vida adulta. Depois de viúvo, ele se tornou padre e esteve à frente de uma comunidade religiosa para a qual construiu a Igreja de Nossa Senhora do Patrocínio. Era um artista extremamente versátil: pintor, escultor, arquiteto, entalhador, dourador, mestre em torêutica (trabalhos de cinzelamento e entalhe em metais e madeira), poeta e também compositor. Com ascendência africana, era filho e neto de escravizadas, tinha também parentesco com o padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, conhecido como o “Padre Voador”.

No final do século XVIII, Jesuíno já havia participado do embelezamento do Convento do Carmo, em Santos, quando então mudou-se para Itu, onde passou a decorar as igrejas do local. Após ficar viúvo, ordenou-se sacerdote carmelita, e adotou o nome de Jesuíno do Monte Carmelo.

A belíssima fachada com suas torres que tornaram-se marco da arquitetura regional

De acordo com os registros históricos do convento, por volta de 1815, padre Jesuíno passou a ter a ajuda de seus filhos, os também padres Simão Stock do Monte Carmelo e padre Elias do Monte Carmelo, na construção da Igreja de Nossa Senhora do Patrocínio. Eles foram ao mesmo tempo arquitetos e operários. A construção da igreja não obedeceu a nenhum estilo até então conhecido. Foi toda idealizada por padre Jesuíno. Seu filho caçula, Eliseu do Monte Carmelo, esculpiu em madeira a imagem de Nossa Senhora do Patrocínio e todos os anjos do altar-mor e do púlpito do templo.

Maria Theodora Voiron nasceu em Chambery, na França, e iniciou sua vida religiosa na comunidade das Irmãs de São José. Foi uma das primeiras religiosas a serem enviadas para o Brasil, com apenas 23 anos, e tinha como missão educar meninas e jovens de Itu. Querendo quebrar as barreiras da época e não entendendo a escravidão no país, abriu uma escola gratuita, no próprio Patrocínio, para as meninas negras e também cuidou da formação religiosa das escravas adultas.

Durante 62 anos, esteve à frente das obras das Irmãs de São José no Brasil e abraçou numerosas obras de caridade como orfanatos, asilos, hospitais, leprosários e escolas para meninas pobres. Aos 85 anos, teve o fêmur fraturado em consequência de uma queda que a colocou em uma cadeira de rodas, mas, mesmo assim, não deixou de participar dos atos religiosos de seu cotidiano. Faleceu em 17 de julho de 1925 com 90 anos e atualmente encontra-se em processo de beatificação. Seus restos mortais encontram-se sepultados no interior da Igreja do Patrocínio, onde é visitado por milhares de pessoas anualmente.

(reportagem de Aline Queiroz)

 

fotos: Coleção das Irmãs de São José da Igreja do Patrocínio – Itu