Covid: Médico analisa altos números em Indaiatuba, teme por aumento e pede mais conscientização

Dr. Adriano analisa a pandemia em Indaiatuba

Indaiatuba passou de 2 mil infectados e tem 79 mortes; Médico da linha frente teme que ocorra novo aumento de casos em julho, após recorde registrado em junho; Cidades da região tiveram mais mortes no final de semana

A cidade de Indaiatuba passou oficialmente dos 2 mil casos confirmados de covid-19 e tem 79 mortes. O número é o mais alto da microrregião de cobertura da Revista Regional e o segundo da Região Metropolitana de Campinas, atrás de Campinas e ao lado de Limeira. Junho foi até agora o pior mês da pandemia na cidade, com 37 óbitos e 1.353 novos infectados.

A Prefeitura de Indaiatuba afirma que os números aumentaram porque está testando mais a população. Realmente é a cidade que mais testa, quando comparada com outras da região, como Itu e Salto. Mas para o médico emergencista Adriano Vendimiatti, que atua na linha de frente em Indaiatuba e Campinas, houve um aumento “artificial” nessa estatística. “Temos que tomar cuidado com um detalhe: o número de testes aumentou mais que o número de casos, portanto tivemos uma expansão artificial nesse último mês, e é natural que tenhamos também uma desaceleração artificial. Explico: do dia 15 de maio ao dia 15 de junho tivemos um aumento de 112 casos para 538, ou seja, quase 400%. Mas os testes no mesmo período pularam de 591 para 4.321, um aumento de mais de 600%. Portanto, muito desse salto no número de casos foi porque estávamos testando mais. Não quer dizer que não subiu, mas que na verdade já tínhamos muito mais que 100 casos em maio”, explica o médico.

“Em contrapartida, do dia 15 de junho ao dia 29 de junho fomos de 538 para 1.500, um aumento de 200% apenas. E os testes passaram de 4.300 para 9.100, quase 112%. Ou seja, não caímos de 600 para 200, mas agora o crescimento do número de testes está acompanhando o de casos”, compara. Dr. Adriano afirma que ainda não é possível afirmar se Indaiatuba está no pico da pandemia ou desacelerando o número de infectados. “Não dá para dizer se estamos desacelerando ou não justamente por conta disso. Eu gosto de comparar a curva da covid com uma montanha russa: o pico é quando o carrinho pára de subir no topo. Portanto, estaremos no pico quando parar de aumentar o número de casos. Mas não o número de casos totais, porque esse sempre vai aumentar, e sim o número de casos novos por dia. Desde março esse dado nunca parou de aumentar”, ressalta. Para ele, o atual mês de julho será o mais importante da pandemia na cidade. “Porque agora estamos vendo as coisas quase como elas são de verdade. Temos agora uma média de 6 testes para cada positivo. A OMS (Organização Mundial da Saúde) preconiza 7 para um bom controle dos casos novos. Nesse aspecto, estamos bem. Campinas, por exemplo, tem apenas 2,5”, afirma.

O médico teme, porém, um aumento nos casos como reflexo da flexibilização ocorrida em junho, com a reabertura do comércio e shopping centers. “A epidemia segue um ciclo em torno de 15 dias, devido ao longo período de incubação e a lenta evolução dos casos. Quem morreu de covid hoje geralmente pegou a doença há um mês. Cada atitude que você toma só mostra seus reflexos depois de duas semanas e, geralmente, leva um mês para atingir o seu potencial. Isso vale tanto para aquilo que aumenta o número de casos quanto o que diminui. É como se fosse um barco na água: ele continua andando mesmo depois de desligado os motores. Por isso, o que vemos em junho é o reflexo do relaxamento da quarentena não oficial durante o mês de maio, com as pessoas saindo mais e indo jogar bola no parque. Mas nessas últimas semanas já deu para sentir o que nos espera em julho, e acho que vai ser um golpe duro”, adverte.

No meio da pandemia, em maio, Dr. Adriano alertou a população indaiatubana, através de um post nas redes sociais, para um crescimento de 600% nos casos de covid e foi criticado na ocasião. O médico, a pedido da Revista Regional, fez uma análise do motivo pelo qual Indaiatuba foi tão impactada pela covid-19: “Indaiatuba é uma cidade extremamente urbanizada, com uma alta densidade demográfica (793 habitantes/km2, enquanto Porto Feliz é de 95, para comparar), com dezenas de indústrias que empregam milhares de pessoas de fora e um setor de comércio e serviços extremamente requisitado. Nossa população quase dobra nos dias de semana. Associado a isso temos um aeroporto gigante (Viracopos, o terceiro mais movimentado do Estado), centenas de moradores que viajam diariamente para São Paulo (o antigo epicentro da pandemia), além de ter uma população envelhecida: somos muitos mais idosos que os nossos vizinhos. Por isso tudo, a covid atingiu aqui mais forte que em outros lugares. E por isso mesmo não podemos relaxar. Nada disso mudou. Com ou sem abertura do comércio e serviços ainda somos a vítima ideal para a pandemia”.

Antes do novo fechamento do comércio na cidade, por ordem estadual, Dr. Adriano já falava sobre a necessidade de um isolamento mais rígido. “São Paulo tinha no seu pior momento 300 internações de covid por dia e hoje registra menos de 30. Está fechando um hospital de campanha. Já em Campinas e Indaiatuba as UTIs só não chegam a 100% (de ocupação) porque não pararam de abrir vagas. Mas uma hora as vagas acabam. Somos o novo epicentro da doença, o Interior do Estado. Na minha opinião, deveríamos estar passando de quarentena para lockdown”, alerta. “Em contrapartida, o STF (Supremo Tribunal Federal) deu aos governadores o poder de decidir abrir ou fechar as cidades, mas não as ferramentas para tal. Sem o apoio do governo federal, sem dinheiro para as pessoas ficarem em casa, como na Argentina ou na Alemanha, nenhuma quarentena pode dar certo por muito tempo. Mais importante do que dizer que é necessário ficar em casa é pensar em estratégias para tornar isso possível para quem está passando dificuldades”, pondera.

Em sua análise, Dr. Adriano chama a atenção da população pela correria sem necessidade às lojas após a reabertura e pede mais conscientização dos cidadãos: “Por mais que isso possa me trazer críticas, para o bem da verdade eu preciso dizer: o povo também é responsável por esse aumento. Você não vê apenas pessoas saindo para ganhar seu sustento. Você não vê todo mundo que poderia respeitar a quarentena o fazendo. Depois da abertura do comércio, as pessoas correram para fazer compras como se fosse Natal! Pessoas em bares, churrascos, jogos de futebol, festas. Cada um que acha que sua vida voltou ao normal porque flexibilizamos ou já pegou covid e se esquece de que está sendo mais uma das engrenagens dessa máquina de moer gente. E se as pessoas estão assustadas com essas mortes é porque não entenderam mesmo a doença. Mesmo com tratamento precoce, mesmo com os melhores remédios à disposição, mesmo com vaga de UTI sobrando: a covid mata 1% de quem pega. Foi assim na Alemanha, na Coreia, na Índia, etc. São as mortes inevitáveis. Se apenas 1/4 da cidade pegar covid, estamos falando de 600 mortes, no mínimo. Se metade pegar? 1.200. 79 mortes é um número terrível (número atual de óbitos), é uma tristeza sem fim para 79 famílias, mas é só o começo. Com ou sem remédio, com ou sem UTI. Por isso espero que as pessoas saibam que a única maneira de salvar essas vidas é se todos fizerem sua parte”, conclui.

NÚMEROS DA REGIÃO

As Prefeituras de Itu, Salto e Indaiatuba divulgaram, no final da tarde desta segunda-feira, 6 de julho, os novos boletins epidemiológicos da pandemia. Itu registrou mais 3 mortes por covid: 2 mulheres, com 55 e 76 anos, e 1 homem, com 69 anos; todos com histórico de doenças crônicas. A cidade contabiliza 42 mortes por covid e mais 2 suspeitas sendo investigadas. Há 765 casos registrados (70 novos) e 544 recuperados, além de 117 que ainda esperam resultado de exame. Itu tem 15 pacientes internados por covid em leito clínico e 7 em UTI. A UTI do Hospital Municipal está ocupada 87,5% e a do Hospital de Campinas, 16,6%.

Salto está com 300 registros de covid (21 novos infectados), com 11 óbitos e 228 recuperados. Há 11 pacientes internados (sendo 7 em UTI) e 50 em isolamento domiciliar. A cidade possui 25 pacientes testados esperando resultado. Destes, 23 estão em isolamento domiciliar, 2 em internação clínica (sendo 1 em UTI). A Prefeitura de Salto, ao contrário de Indaiatuba e Itu, não divulga a taxa de ocupação de seus hospitais.

Indaiatuba, nesta segunda-feira, 6 de julho, registrou mais 1 morte por covid, totalizando 79. A cidade também retirou 1 registro de óbito da listagem por se tratar de paciente residente em outra localidade, por isso o total se manteve em 79. O óbito ocorreu no Haoc (Hospital Augusto de Oliveira Camargo): uma paciente de 35 anos que estava internada desde o dia 21 de junho, tinha antecedentes de hipertensão e lúpus. Também foram acrescentados outros 30 casos positivos de covid-19, aumentando para 2.086 confirmados, sendo que 1.972 são considerados curados ou estão em recuperação domiciliar (a Prefeitura não divulga número exato de recuperados) e 35 estão internados. Ainda há outros 54 suspeitos testados aguardando resultado. Atualmente há 51 pessoas internadas em leito clínico e 28 em UTI. A taxa de ocupação das UTIs está em 75% no Haoc e 100% no Hospital Santa Ignês.

Foto: BIRF