100 anos de Anselmo Duarte: Regional recorda entrevista de 2003

Duarte com a Palma de Ouro, em Canne

Para celebrar o centenário de nascimento do cineasta Anselmo Duarte, Regional reedita a entrevista que ele concedeu ao editor Renato Lima, em abril de 2003, na segunda edição da revista. Na ocasião, Anselmo recebeu o jornalista em seu apartamento, no Edifício da Barra, onde vivia, em Salto. Confira a seguir na íntegra, como publicado na revista da época.

 

Dizem que os representantes do Festival de Cannes costumam falar que os críticos brasileiros são os únicos do mundo que não valorizam os filmes de seu próprio país. Talvez por isso, o diretor e ator Anselmo Duarte não tenha ainda hoje aqui no Brasil o mesmo reconhecimento dado a ele na França, onde já apareceu, inclusive, ao lado do presidente Jacques Chirac. A foto, uma reprodução de um jornal parisiense, está num quadro na entrada do apartamento de Duarte. Na mesma sala, ele guarda um dos frutos de sua maior conquista: a foto histórica de Cannes, com os maiores profissionais da história do cinema, numa homenagem recebida em 1997. Perto de completar 83 anos (seu aniversário é no próximo dia 21 de abril), Duarte, sem dúvida um dos mais ilustres cidadãos saltenses, quer viver uma nova fase. Afastado do cinema desde uma atuação nos anos 80, atualmente, além de palestras para estudantes universitários, ele pensa num convite de trabalho, embora informal, feito por um dos diretores da Rede Globo. Depois de morar em várias capitais brasileiras e na Europa, o diretor, que conta estar passando por um tratamento de saúde, continua num apartamento no centro de Salto, embora pense em se mudar por conta de possíveis trabalhos. Nesta entrevista ao editor Renato Lima, ele fala sobre o atual cinema nacional, profetiza a carreira de Walter Salles e recorda as críticas feitas pela imprensa quando ganhou a Palma de Ouro, em 1962, com “O Pagador de Promessas”.

Revista Regional: O senhor pretende voltar a trabalhar?

Anselmo Duarte: Olha, quando eu ganhei US$ 3 milhões eu chamei as minhas ex-mulheres e os meus filhos e dei uma casa para cada um. O que restou, eu fiz um cálculo que daria para eu viver sem trabalhar 40 anos, mas os 40 anos passaram depressa. Eu preciso, já que eu não morri e não morro, continuar vivendo. Estou com muita saúde, podendo fazer muita coisa ainda. Eu preciso voltar a trabalhar porque o meu dinheiro acabou.

RR: Mas há convites?

Duarte: Pois então, sempre falam que na Globo tem um departamento dos ‘pensadores’ (de Criação) e sempre sonhei em trabalhar neste departamento. Eu disse isso ao Daniel (Filho, diretor contratado da Globo) e ele chamou um dos filhos do Roberto Marinho (durante um jantar no Rio de Janeiro, onde acontecia uma homenagem a Duarte). Ele (o filho de Marinho) disse: ‘Anselmo, um homem como você, que hasteou a bandeira do Brasil em vários países por conta e risco próprio, não é homem para chegar e pedir emprego a quem quer que seja, você é um homem para entrar em qualquer televisora do Brasil e chamar os diretores e dizer: vocês vão fazer isso, isso e isso… O meu pai é seu fã e eu também’. Foi uma brincadeira, mas ele falou no ar. Lógico que eu não fui lá (na Globo) dar ordens a ninguém, mas eu tenho certeza de que se eu for morar no Rio e procura-lo, eu fico por lá.

RR: O senhor então tem vontade de morar no Rio, sair de Salto?

Duarte: Eu tenho vontade, sim, porque o meu diálogo é de cinema e o pessoal que está aqui não viajou, não está tão por dentro desses assuntos. Então, eu não tenho diálogos, eu conto casos. Às vezes, eu tenho reuniões com os amigos e fico só contando casos.

RR: O senhor diz que quer voltar a trabalhar e também diz que alguns diretores e produtores, inclusive do exterior, sempre lhe convidam. Por que o senhor nunca aceita?

Duarte: Eu não quero porque é para receber ordens e eu chego lá, não estou de acordo e brigo.

RR: Os convites são sempre para atuar?

Duarte: Eu não vou trabalhar dirigido por ninguém. Eu só dirijo ou produzo.

RR: O que, por exemplo? O que o senhor gostaria de dirigir hoje?

Duarte: Podem ser especiais. Novelas, não. Novelas têm que ser depressa. E eu não gosto de fazer nada depressa. Gosto de fazer bem feito.

RR: Uma minissérie, por exemplo?

Duarte: Isso, uma minissérie especial, grandiosa. Hoje, a Globo também está fazendo filmes e o responsável é o Daniel (Filho, seu amigo).

RR: E já surgiu algum convite dele, do Daniel Filho?

Duarte: Para fazer filme, não. Mas se eu falar… É que ele acha que eu não quero fazer nada. Ele já me convidou para dirigir “Carga Pesada” e outras coisas, mas na época eu não quis…

RR: O senhor me disse que só faria algo diferente.

Duarte: Tem que fazer diferente. Tem que inovar.

RR: Mas o que, por exemplo, Anselmo?

Duarte: Mas se fosse fácil de falar aqui… (risos) …qualquer um faria. Você tem que fazer pesquisas, estudos…

RR: Qual diretor da atualidade o senhor considera bom?

Duarte: Na televisão não tem nada que se aproveita. A única coisa que eu assisto são as entrevistas.

RR: E o tão elogiado Jayme Monjardim (diretor de “A Casa das Sete Mulheres”, “Pantanal” e “Terra Nostra”)?

Duarte: Esse é um bom. Mas quer um trabalho que eu vi na televisão e que foi da mais alta categoria? Foi o “Memorial de Maria Moura” (minissérie com Glória Pires exibida na Globo na década de 90). Este especial foi tão bonito, tão bem feito que poderia ser um ótimo filme. E quem dirigiu foi gente de cinema, foi o Manga (Carlos) e o Roberto Faria, os dois diretores de cinema.

RR: E “A Casa das Sete Mulheres”?

Duarte: Este menino (Jayme Monjardim, diretor da minissérie) tem talento. Ele é filho da saudosa Maysa (cantora), que foi muito minha amiga. E este rapaz, que não trabalhava profissionalmente, queria fazer filme, preparava um documentário sobre a mãe dele e começou a fazer pesquisas sobre ela. Nesta época, eu morava em São Paulo e ele me pediu ajuda para as pesquisas. Nisso, eu fui dando dicas a ele sobre técnicas de documentário e dando palpites… como se tivesse recebido aulas. Ele fez o documentário e continuou freqüentando a minha casa e eu sempre falando sobre cinema. E acabou sendo meu aluno, não oficial, mas ele era um freqüentador assíduo da minha casa.

RR: E o cinema brasileiro? O que o senhor acha desta nova fase do cinema nacional?

Duarte: Eu acho muito infantil. As histórias são curtas demais.

RR: E os diretores?

Duarte: De cinema? De cinema tem o Walter Salles. E tem uma coisa curiosa, ele é o único que não fez escola como eu. E ele vai ganhar prêmio internacional e vai sofrer tanto quanto eu. Sabe o que vão dizer dele? Que ele é multimilionário, já que é herdeiro do Unibanco. Daí, vão dizer que ele compra todo mundo… e é mentira, porque quando ele começou a fazer cinema, o pai dele não queria. Então ele falou que ia começar a fazer por conta própria, porque queria ter esse prazer.

RR: Então, o Salles é uma exceção?

Duarte: É exceção. Ele não foi à escola: ele fez Comunicação nos Estados Unidos, mas não fez escola de cinema. Ele fez cinema aprendendo.

RR: O senhor assistiu ao principal filme dele, “Central do Brasil”?

Duarte: Assisti. Achei que ele comete o mesmo erro dos outros. Ele tem pressa de terminar e o filme fica bem curto, fica filminho. Mas ele (Walter) tem outros melhores.

RR: O senhor não acha que já era hora de o Brasil ganhar um Oscar com “Central do Brasil”?

Duarte: Era pouco para um Oscar. Em termos de Brasil, estava bom, mas com tanta concorrência de fora (perdeu para “A Vida é Bela”) não agüenta. Ele (Walter) só tem contra si o fato de não conhecer bem o povo. Ele está fazendo filmes de povo e não conhece, porque ele foi um menino de colégios milionários, estudava fora do país. Foi o caso de “Central do Brasil” que teve alguns deslizes por conta disso.

RR: O senhor me disse que se o Walter Salles ganhar um prêmio importante ele sofrerá o mesmo que o senhor na época da Palma de Ouro. O senhor parece que ainda guarda bronca daqueles críticos.

Duarte: Aqueles que falaram mal do prêmio eram críticos frustrados. Para se ter uma idéia, no mesmo ano (em 1962), eu fui para outros festivais e os filmes que concorreram comigo em Cannes perderam novamente. Não havia acordo nenhum para o Brasil ganhar. Fui uma invenção daqueles frustrados.

RR: Qual foi o principal motivo da Palma de Ouro para “O Pagador de Promessas”?

Duarte: A avaliação foi de que o “Pagador” receberia a Palma de Ouro por mostrar o melhor caminho para a humanidade e para a sétima arte.

RR: E hoje, qual seria o melhor caminho para a humanidade?

Duarte: A educação. É preciso fazer que as pessoas não lutem tanto para ter tanto dinheiro, mas sim para ter o necessário para sobreviver, sem ganância. A ganância destrói tudo.

Foto: Arquivo Pessoal