Uma viagem pela exótica Tailândia

Buda de ouro

Sim, pra lá da Índia e embaixo da China fica a Tailândia. Terra de povo gentil, de muitos aromas e paisagens de tirar o fôlego, sejam elas urbanas ou naturais. O mesmo fôlego é tirado quando você prova sua culinária rústica, de sabores explosivos que encantam o paladar ocidental e cria admiradores mundo a fora.

Vizinha das antigas possessões francesas no oriente Laos, Camboja e Vietnã (incluso a sua porção sul, a “famosa” Cochinchina), os países da formação original da Indochina. A Tailândia hoje, junto com as cidades-estados Singapura e Hong Kong são as economias que se destacam na região, os centros financeiros e de negócios nesta fronteira da Ásia com a Oceania. Sendo a Tailândia a grande conexão entre os dois continentes. Então, tudo e todos passam por ali.

Sofrendo influências culturais e religiosas de dois gigantes históricos, a Tailândia tem uma religião sincrética entre o Hinduísmo e o Budismo, onde centenas de deuses e demônios (os espíritos do contra ou opostos) hindus se misturam com a ideia de não haver um deus, como prega o Budismo. Nosso Candomblé e Umbanda parecem contos infantis quando explicados diante de tanta complexidade. Mas, o que importa é que toda esta aparente confusão (para nossos destreinados olhos e ouvidos) gerou uma cultura milenar rica, bela e um povo muito pacífico e de espírito humilde, gentil.

Se Salvador gaba-se de ter uma igreja para cada dia do ano, Bangkok tem 3 mil templos

Bangkok sua capital, fica perto do golfo de Siam, na parte mais baixa de um grande vale, ou no “fundo da tigela de arroz”, em alusão as plantações de arroz que se alastram por todo canto. Possui mais de 11 milhões de habitantes, é caótica e frenética, apesar de ser uma cidade que dorme. Às 22h quase tudo está fechado, bares e baladas se encerram por volta das 2h da madrugada. Nos bairros da moda e centros financeiros, Siam e Silom, não há como você não se surpreender com os neons e fachadas hi-tech de grandes hotéis e shoppings (muitos deles) e as linhas elevadas do Skytrain. Em baixo, carros, scooters e tuk-tuks disputam espaço na mão inglesa e dentro de regras que só eles entendem, numa visão meio Gotham City, meio Blade Runner.

Os templos

Se Salvador gaba-se de ter uma igreja para cada dia do ano, Bangkok tem 3 mil templos. Então, foco nos principais:

Wat Sukhothai Traimit – impressionante templo budista em frente a Chinatown, que exibe o Buda Sentado de Ouro. Todo em ouro maciço e pesando mais de cinco toneladas, seus olhos são de safira negra. Acostume-se, nos templos tudo que reluz é ouro, nem que seja folheado.

 

O Float Market é imperdível para você entender realmente a alma do tailandês e como eles vivem no interior do país

Wat Pho – é um conjunto de prédios enormes com jardins, templos e obeliscos. Exibe mais de 1 mil estátuas entre budas e deuses guerreiros e protetores. No pavilhão central fica o impressionante Buda Deitado, uma estátua dourada de quase 45m de comprimento (maior que o Cristo Redentor) todo revestido em ouro e com pés em madrepérola. Pare e observe o trabalho primoroso e delicado de pintura mural nas paredes e tetos de todo o complexo que inclui uma escola milenar de massagem. Ora florais, ora cenas do cotidiano, ora lições de massagens, ora cenas históricas de guerras entre deuses, demônios e humanos, todas as paredes são um espetáculo à parte.  E por favor, seja consciente. Não toque, não alise, não esfregue. Repare também nos enormes obeliscos revestidos de caquinhos de porcelana colorida ou dourada que apontam para o céu. Eles são homenagens pós-morte aos reis, construído por seu sucessor. Esta decoração colorida e vibrante dos templos feitas de cacos coloridos esconde uma história muito interessante. Quando uma carga de arroz que vinha em vasos de porcelana chinesa sofreu um acidente e todos os vasos se quebraram, o Rei (ou Rama) da época mandou seus súditos usarem os cacos para decorar os palácios, de modo a evitar qualquer tipo de desperdício conforme manda o Budismo, e segue assim até hoje.

Grand Palace e Wat Phra Kaew – complexo de templos, palácios e salões de cerimônias reais que abriga também o pequeno e único Buda de Esmeralda (ou jade). Nele funcionam também algumas repartições públicas e o Museu da Seda da Rainha.

 As compras

Paraíso das compras tanto de xing lings, “réplicas”, sedas, pashiminas e artigos de luxo, Bangkok tem muitos shoppings. Na região de Silom e Siam, seguindo as linhas do Skytrain, encontram-se enfileirados os mais modernos, luxuosos e descolados. Bata muita perna, lamba muitas vitrines e compre, compre, compre! Impossível não ceder.

Em dois braços de rios e diversos canais apertadíssimos uma comunidade de chineses criou um mercado onde tudo é vendido em pequenos barcos

Olho grande e aberto no Siam Center + Siam Paragon, lado a lado formam uma grande praça para eventos; o primeiro é o mais descolado de todos e o segundo o mais luxuoso com uma praça de alimentação gigantesca no seu térreo. Onde exibem filiais do Four Seasons, Mandarim Oriental e Casa de Chás da Harrods. Falando em luxo, mais à frente temos o Gaysorn. Pequeno, mas com um mix de lojas de tirar o fôlego, labels escolhidas a dedo. Não poderíamos deixar de falar do MBK com seus seis andares confusos onde se mesclam boutiques da Rolex, Canon ou Sony e ao lado boxes ou lojas que vendem “réplicas”. Mesma coisa para as grifes da moda. Pura loucura! Fuja antes de cometer uma contravenção. Lá a máxima do tudo junto e misturado, bem típico deles, se apresenta em sua totalidade.

Fora do burburinho Siam/Silom, mas ainda pertinho, temos o Asiatique at Riverfront, antigo complexo de galpões do porto fluvial, foi reformado e virou um imenso centro de compras e lazer. Cada galpão tem um tema fast food, artesanato, “importados”, restaurantes sofisticados, show de cabaré com Lady Boys, etc e como o nome diz, fica em frente ao rio que corta a cidade e oferece uma excelente vista do skyline de Bangkok.

Pensando em pechinchas (de verdade e originais) há um outlet nos andares superiores do JTC – Jewel Trade Center, no Silom. No piso inferior, dezenas de lojas de joias e pedras preciosas com preços pra lá de convidativos (resista às pérolas, esmeraldas, rubis e safiras negras se puder), nos pisos de cima multimarcas que vendem desde Halph Lauren e Nike até SuperDry e Diesel. So cool!

Símbolos tailandeses

Quanto a tão aclamada culinária thai, os turistas podem fazer cursos rápidos de um dia em diversas escolas espalhadas pela cidade. As mais recomendadas são a Blue Elephant, a do Hotel Mandarim Oriental e a Silom Thai Cooking School. A Blue Elephant é a Le Cordon Bleu deles, que por sinal também tem filial lá, c’est ça?! O Hotel Mandarim Oriental ensina um menu de cinco pratos de cozinha thai elegante e sofisticada, com menus que mudam a cada mês. Na Silom Thai Cooking School há duas opções de cardápios com cinco pratos, por dia da semana (inclusive aos domingos), com comida simples e cotidiana. Nela a partir de três aulas realizadas você consegue o seu certificado. Se você curte cozinhar é um passatempo bem interessante e um convívio de poucas horas com gente do mundo todo. E você ainda degusta todos os pratos que você mesmo fez no dia.

Obelisco revestido com pastilhas de ouro

Fora de Bangkok, existem diversos passeios imperdíveis. O Mercado Flutuante a cerca de uma hora de viagem de carro é imperdível para você entender realmente a alma do tailandês e como eles vivem no interior do país. Em dois braços de rios e diversos canais apertadíssimos uma comunidade de chineses criou um mercado onde tudo é vendido em pequenos barcos. Comida pronta, artesanato, plantas, frutas e verduras, artigos de consumo e óbvio xing lings.

Mais à frente, temos o Templo dos Tigres onde você -pagando taxas extras- pode tirar fotos, dar de mamar ou interagir com bebês ou tigres adolescentes. Gatinhos gigantes, mas gatinhos. Imperdível. E de quebra você ainda ganha o convívio bem pertinho de veados e búfalos, mansos e amigáveis que andam soltos nesta reserva administrada por monges -por isto não espere luxos, ok?

Esticando um pouco mais o percurso, uma pausa “acidental” para almoço em frente a famosa Ponte do Rio Kwei, símbolo da opressão americana e ganância econômica, até hoje uma ferida no coração e orgulho tailandês. Completando o percurso, temos algumas reservas de elefantes, onde um passeio de meia hora na mata de bambus a beira de um rio em cima do paquiderme é uma experiência imperdível. Balança pra cá, balança pra lá, mas tudo dá certo. Diferentes dos elefantes africanos, os tailandeses são menores e domesticáveis. Se você achar um bebê elefante na sua frente, corra e vá interagir com ele. São bichos encantadores e muito curiosos, deixam até você dar um abraço e põem a tromba na sua mão. Com esta experiência você entenderá o motivo dos elefantes serem o símbolo nacional da Tailândia, enormes e gentis.

Buda Sentado (de ouro) sobre Lótus de mármore

Quanto às praias, a mais próxima de carro é a famosa Pattaya. Fuja dela! Lotada de cinquentões operários russos, gente que se perdeu por lá desde o fim da guerra da Indochina e jovens australianos mochileiros em que tudo está ótimo. Infelizmente é feia (nas fotos não parece), realmente suja e confusa. Praia Grande no dia de réveillon é uma Cote D’azur em frente àquilo. As demais ficam no litoral oeste e necessitam de um voo para se chegar lá. Estas sim são lindas, mar azul turquesa transparente, rochas impressionantes e areias brancas com coqueiros que convidam a um dolce far niente. A única coisa boa a caminho de Pattaya é uma parada para almoçar no Nong Nooch Tropical Botanical Garden que possui dezenas de jardins de tirar o fôlego, e também oferecem um show de dança, tambores e muay thai seguido por uma impressionante e divertida apresentação de elefantes adestrados, que jogam dardos, andam de bicicleta, pintam quadros e camisetas. E se você quiser também pode fazer um passeio em cima deles. Olho nos filhotinhos fofos novamente!!! Compre bananas e eles te perseguirão com suas trombas curiosas e gulosas.

Dicas da gastronomia thai

Se você quer se aventurar pela culinária thai, o primeiro aviso é: cuidado com a pimenta. O nível médio deles é mais que o “baiano” para nós. No mais, é se encantar com a mistura inusitada de diversas ervas e temperos que eles fazem. Os pratos são rápidos e fáceis de serem feitos. Praticamente tudo é feito na wok, sinônimo de coisas fritas ou refogadas rapidamente, para manter o sabor e texturas. Por sua influência indiana existem diversos curries. Porém, diferente do curry indiano que é sempre em pó e pode ter facilmente mais de 30 especiarias e ervas, os curries thai são pastas de poucos vegetais, pimentas e ervas moídas, dando um resultado mais fresco e não menos aromático. Sendo eles usados para fazerem diversos ensopados sempre a base de leite de coco.

Barraquinha de Khanom Krok: confira a receita deste delicioso bolinho no final da reportagem

Falando em coco, ele fresco ralado ou sob a forma de creme ou leite permeiam quase todos os pratos e sobremesas tradicionais. Aliado a goma de tapioca (sim, tapioca) criam delícias e alteram as texturas dos pratos ou geram panquecas, chamadas de Khanom Krok crocantes por fora, cremosas por dentro e levemente adocicadas para o café da manhã. Refeição farta que sempre tem “arroz frito” (Khao Phad) na realidade refogado com ovos mexidos, cebolinha e uma proteína (camarões frescos ou secos, frango, siri) e uma sopa a base de caldo de frango ou pato, com ovo cozido, legumes e vegetais.

A dieta thai é rica em vegetais, sopas e frutas. Destaques para a pitaya (ou dragon fruit) casa grossa e ta com escamas(ou dragon fruit) ebolinha e uma protei legumes e vegetais.as por dentro e levemente adocicadas para o c magenta com escamas cujo interior branco, macio, repleto de sementes pretas minúsculas tem sabor suave similar à parte dura de um melão. Jaca (jackfruit) também é muita apreciada, assim como a bem conhecida no nordeste: pitomba, prima mais simples da lichia, outra que também é um hit por lá. Abacaxis, melões e mangas também fazem parte do dia a dia. Fique de olho para algumas variedades deles que simplesmente derretem na sua boca. Só um aviso, os tailandeses não curtem sabores ácidos. Então, não esperem maracujás, limões e laranjas ácidos. Limão aparece como tempero de pratos salgados, maracujá só a versão doce, granadilla, que se come in natura com uma colher. Laranja também só uma versão pequena e de casca fina, adocicada. E aos fãs de romãs, aproveitem bem a fartura de suco fresco, oferecidos em todos os cantos da cidade.

Tailandeses adoram sabores amargos, então broto de feijão (moyashi ou bean sprouts) vai em tudo e bastante. Assim com algumas folhas mais amargas ou de sabor neutro que servem de acompanhamentos e necessitam de temperos e caldos. Outro alimento de sabor neutro bem apreciado é a castanha water chesternut, textura similar a uma maçã ainda não madura, serve de acompanhamento para sopas e refogados, assim como base para uma famosa pasta de curry.

Obelisco revestido com pastilhas de ouro

Outro destaque da culinária thai são os “macarrões fritos” (pad thai) quase sempre a base de farinha de arroz ou feijão, refogados com ovos mexidos e vegetais, temperados com cebolinha, manjericão, bastante alho, gengibre, molho de peixe e ostras, amendoim, uma pitada de açúcar, pimenta fresca picada e em pó e para acompanhar diversas proteínas como camarão, frango, pato, porco, cordeiro ou carne bovina (uma exceção).

Chás e cafés

Tailandeses são loucos por chás e cafés. Barraquinhas nas ruas vendem versões tradicionais quentes e geladas de ambos. Eles adoram sabores florais, então quase todas viram chás deliciosos e delicados. Podendo até viram “sucos” que são as versões geladas dos chás de flores, refrescantes e saudáveis. Vale a pena experimentar o de pandanus, rosália e crisântemos.

Existem três sabores tipicamente tailandeses: limão kaffir ultra-aromático tanto em folhas quanto a casca da fruta, capim-limão (lemongrass) que perfuma chás, caldos, curries sua raiz dura pode ir bem picada em refogados ou simplesmente amassado para liberar o sabor, e galangal o gengibre típico da Tailândia que é base para uma das sopas mais famosas pelas bandas de lá, também vai em alguns curries.

 

André e o Guardião do Templo

A tal massagem tailandesa

Bangkok é o paraíso das massagens. Em toda e qualquer rua você verá lojinhas ou salões de beleza oferecendo uma lista gigantesca de opções, desde a mais simples “foot massage” até a tailandesa tradicional (não sexual, ok?). Nestes locais mais simples, a maioria das massagens que não sejam de corpo inteiro é realizada em poltronas e em ambientes coletivos, inclusive com vitrine. Se você curte um pouco mais de privacidade, recomendo procurar algum dos bons SPAs da cidade. Então, o que custava 300 Baht, passa a custar 3.000 Baht, mas compensa. Locais impecáveis, atendimento acima da média de qualquer SPA brasileiro, pois o twist tailandês é impossível de ser copiado.

Para quem está curioso em saber como é uma massagem tailandesa, digo que é algo extremamente relaxante, mas o que você me diria sobre uma massagem onde não usam óleo e sim um conjunto de calça e bata de linho para aliviar o atrito dos polegares, punhos, antebraços, cotovelos e pés do terapeuta em você? Sim, isto mesmo. Quase uma

Mural pintado a mão e folheado a ouro

luta! É executada em um tatame, e aquela tailandesa minúscula e aparentemente frágil, põe você em diversas posições de ioga, te contorce, te balança e te estica inteiro, enquanto pressiona todo seu corpo dos pés a cabeça em toque ora suaves, ora intensos. E você por duas horas, oscila entre o real arrependimento e o êxtase. Gemer não é opcional e faz parte do pacote, feche os olhos e se deixe levar, no final você sai dolorido, mas com a coluna no lugar e querendo uma cama para dormir profundamente (se o SPA for em seu próprio hotel, melhor ainda). Um último aviso: eles não recomendam mais de uma massagem destas por semana.

RECEITA EXCLUSIVA

Para quem quiser se aventurar na culinária tailandesa, segue uma receita deliciosa para o café da manhã ou lanche da tarde, perfeita para se dividir com a família e amigos, simples e com ingredientes que temos por aqui. Se você ama tapioca, delicie-se com esta versão “de rua”, crocante por fora e cremosa por dentro e que pode levar diversos recheios. Enjoy!

KHANOM KROK – bolinho crocante e cremoso de arroz, coco e goma de tapioca

 500ml leite de coco

3/4 de xícara de chá + 1 colher de sopa de farinha de arroz

1 1/2 colher de sopa de goma de tapioca seca

1/4 de xícara de chá de coco ralado fresco (se for usar o seco use menos)

1/4 de xícara de chá de açúcar refinado (se for cristal use menos)

2 colheres de sopa de arroz cru

1 colher de chá rasa de sal

óleo de soja para untar a forma

cebolinha picada, castanha de caju, milho verde, presunto picado ou gergelim para a cobertura

mel ou xarope de Maple para acompanhar

Bata no liquidificador o arroz cru com o coco ralado e o leite de coco, até triturar bem o arroz. Junte a farinha de arroz, a goma, o açúcar e o sal, bata até incorporar tudo.

Os deliciosos bolinhos de Khanom Krok

Na Tailândia eles têm assadeiras próprias com pequenos buracos esféricos, um pouco maiores que uma moeda de R$ 1,00. Aqui, podemos improvisar com uma assadeira de minicupcakes. O importante é aquecê-la e untar cada buraco com óleo (faça uma trouxa de papel toalha embebida no óleo), manter o fogo médio, quase baixo. Ponha o líquido até a borda de cada buraco (ele não cresce) e tampe. Espere uns dois minutos e ponha um pouco da cobertura em cima, tampe por mais uns 2 minutos e veja se a borda já está dourada e crocante. Se estiver, retire-os da forma com a ajuda de uma colher. Pode servi-los soltos ou com duas metades juntas, formando uma esfera. Sirva-os ainda quentes cobertos por mel ou xarope de maple. Sawadee Krap!

 *André Dias Barreto esteve na Tailândia na virada do ano e escreveu esta matéria especialmente para a Revista Regional.

texto e fotos: André Dias Barreto