Marcos Rossi, um exemplo de superação

Marcos Rossi é portador da Síndrome de Hanhart, uma deficiência congênita que impediu o desenvolvimento de seus braços e pernas: “Faço tudo o que me deixa feliz e que um sujeito normal faz. Engraçado que, às vezes, até mais do que as outras pessoas”

Pai de dois filhos, Marcos Rossi é baterista de escola de samba, vocalista de um grupo de pop rock e pratica mergulho profissional. Descubra como alguém com deficiência pode levar uma vida muito mais intensa do que grande parte das pessoas

“Faço tudo o que me deixa feliz e que um sujeito normal faz. Engraçado que, às vezes, até mais do que as outras pessoas. Realizo palestras motivacionais por todo o país. Trabalho também na área de Patrimônio de um dos maiores bancos do Brasil. Além disso, tenho alguns hobbies interessantes.Sou vocalista de uma banda e pratico mergulho profissional”. O relato do escritor Marcos Rossi poderia até soar corriqueiro, não fosse o fato de ele ser portador da Síndrome de Hanhart, uma deficiência congênita que impediu o desenvolvimento de seus braços e pernas.

Mas, por outro lado, é um equívoco acreditar que, por causa disso, Marcos deixou de aproveitar a infância. Embora respeitasse suas limitações, ele brincava de pega-pega, esconde-esconde, escalava morros e jogava bola: para isso, o menino contava com a ajuda de duas muletas, que se encaixavam em seus braços e o auxiliavam a andar. “Eu as colocava para frente, dobrava o abdômen e pronto. Corria o campo todo sem a menor dificuldade e fazia até gol de bicicleta”, recorda.

A família sempre se preocupou em não tratá-lo de maneira diferente e, por isso, decidiu matriculá-lo em uma escola regular: a ideia era que Marcos fosse preparado adequadamente para o mercado de trabalho. Como, naquela época, não havia ainda “esta força da Lei de Cotas”, atingir tal objetivo nem sempre foi fácil, especialmente quando ele concluiu o antigo ensino primário (quarta série). Ele lembra que algumas instituições apresentavam as mais absurdas justificativas.

“Chegaram a dizer que eu assustaria os coleguinhas. Em outra oportunidade, alegaram que o uso do elevador da diretoria – o único existente na escola – a toda hora iria gastar muita luz. O colégio que me aceitou foi se acostumando comigo, e com o passar do tempo, as pessoas iam me conhecendo e quebrando seus paradigmas e preconceitos. Quando eu fazia arte, as professoras me colocavam de castigo – inclusive para fora da sala – como qualquer criança bagunceira”, diverte-se.

Mesmo as decepções acabaram motivando-o a seguirem frente. Foiassim quando Marcos decidiu se declarar para uma garota em uma festa. Ele ainda não usava uma cadeira de rodas motorizada e, por isso, pediu ajuda a um amigo, que o empurrou até ela e, logo em seguida, saiu correndo. “Depois de muita luta interna, eu criei coragem e tentei puxar um assunto. Mal comecei a falar e a menina já me veio com uma resposta atravessada: ‘Sai pra lá, eu quero um garoto inteiro e não meio’. Fiquei três meses sem sair de casa. Depois refleti bastante sobre o assunto e percebi que quem estava errado o tempo todo não era eu. Quem gosta, vai aceitá-lo do jeito que você é e não da maneira que a pessoa quer que você seja. E, na boa, quem estava perdendo era ela”.

O sacrifício, a recusa e o triunfo

Os sonhos – bem como os desafios que teria que enfrentar – cresciam à medida que o tempo passava. Ainda na adolescência, ele formou sua primeira banda, em parceria com os colegas de escola. Quando o curso terminou, cada um seguiu o seu caminho, mas nosso personagem não desistiu da música: nascia, então, o grupo Sem Limites – do qual Marcos é vocalista até hoje – que já se apresentou em bares, boates e inclusive em missa de sétimo dia, “com uma formação reduzida, é claro”, como faz questão de frisar.

Nesta mesma época, ao assistir o ensaio do bloco de carnaval em que a irmã participava, ele avistou um ganzá – espécie de chocalho – no chão. A curiosidade falou mais alto e Marcos pediu que a mãe o apanhasse. Receosa, ela imediatamente questionou-o como iria segurar o instrumento, mas atendeu ao seu pedido. Embora o fizesse de maneira desajeitada, o som “quase bom” chamou a atenção do mestre de bateria e rendeu-lhe um convite para desfilar. Daquele dia em diante, nosso entrevistado percebeu que não pararia mais: havia acrescentado mais uma habilidade para a sua coleção.

Algum tempo depois, Marcos constatou que na fila do ganzá só havia meninas e, no intuito de conseguir ficar mais próximo dos amigos, se mostrou disposto a aprender a tocar caixa, um instrumento que fica no colo e não é tão pequeno como o tamborim. Para conseguir manusear as baquetas, o jovem recorreu a uma solução inusitada. “Amarrei-as com durex – recurso muito utilizado durante a infância, na escola – e, ao primeiro toque, a baqueta voou longe. Precisava de algo mais resistente: passei, então, a usar fitas isolantes. Não sobrava um pêlo no braço. Tudo por amor ao samba”, justifica.

O próximo objetivo era ainda mais ambicioso: desfilar em uma escola de samba. Na primeira tentativa, seu pedido para fazer um teste foi recusado, sob a justificativa de que, por causa da cadeira de rodas, a evolução na passarela poderia ficar comprometida, resultando na perda de pontos. Mais uma vez, porém, Marcos não esmoreceu e teve seu esforço recompensado: orgulhoso, ele conta que quando procurou a X-9 Paulistana – campeã do carnaval em 1997 e 2000 – teve uma recepção completamente diferente.

“No momento em que eu cheguei, o ensaio já estava rolando. Quando pedi para fazer o teste, o mestre de bateria logo perguntou: ‘Você toca’? Disse que sim e pude ver uma interrogação se formando em cima da cabeça dele. ‘O quê?’ Caixa, eu respondi.  As dúvidas triplicaram. Então, ele pediu que os 170 ritmistas parassem de tocar. E, naquele instante, virou-se para mim e disse: ‘toca’! Toquei sozinho durante mais ou menos um minuto e meio, que pareceram uma eternidade. Depois de me ouvirem, me aceitaram com a maior alegria”, relembra. Passados 12 anos deste episódio, ele permanece na agremiação: aprendeu a tocar outros instrumentos e ainda ajuda nas aulas de percussão para os novos integrantes.

Até hoje, Marcos continua superando todo e qualquer tipo de limitação e preconceito. O entusiasmo com que ele fala de sua mais recente realização é contagiante. “Ah! Eu tenho um hobby novo: sou DJ! Você contrataria um DJ sem braços para a sua festa? Antigamente, talvez isso não fosse possível, mas hoje, graças à tecnologia, consigo realizar mais este sonho de infância”.

Surpresas de tirar o fôlego

Casado e pai de dois filhos, Marcos explica que contar sua história em livro foi uma demanda natural. Em “Uma vida sem limites”, ele espera provocar no leitor uma reflexão dos valores que permeiam nossas vidas, exatamente como acontece com aqueles que assistem às suas palestras motivacionais. “Muitos espectadores trazem parentes, amigos, enfim, gente que reclama da vida sem motivo ou que precisa de um apoio. A vontade de superar limites deve ser maior do que a influência das coisas ruins e comentários de pessoas que nunca vão saber realmente o que se passa em sua cabeça e em seu coração”, conclui.

Atento para o fato de que, no Brasil, o hábito da leitura não é muito difundido, o palestrante se viu diante do desafio de desenvolver uma estratégia que fisgasse uma parcela maior do público. Desta necessidade, surgiu a ideia de fazer um stand-up “diferente de tudo o que já existe”: neste show, todas as suas aptidões podem ser ilustradas. Em determinados momentos, Marcos entra no palco com sua banda; em outros, coloca uma bateria de escola de samba, além de várias surpresas “preparadas para tirar o fôlego da galera”, adianta nosso entrevistado, cujo sonho é levar esta apresentação para fora do país.

Questionado sobre eventuais arrependimentos, o escritor não hesita em assumir que faria tudo de novo. Marcos lembra que cada dia é uma oportunidade de transformar a sua vida e deve ser aproveitado como se fosse o último: como faz questão de ressaltar, sua missão é fazer com que as pessoas percebam isso. Partindo deste pressuposto, ele defende que todos nós devemos executar nossas atividades sem pensar em uma compensação. Logo, cada pequeno esforço é somado e isso culmina em grandes realizações.

“Hoje você tem a chance de crescer, de fazer um pouco mais do que fez ontem, um pouco melhor, com um pouco mais de eficiência. Trabalhe constantemente e atingirá suas metas: a felicidade está aí para quem quiser tê-la, o que precisamos é saber enxergá-la em cada pequeno presente que recebemos o tempo todo. Aprenda a não inventar necessidades supérfluas – o carro, a grife, a posse – e terá mais tempo para curtir, pois o melhor da vida é de graça. Importante lembrar mais uma vez que a limitação é um conceito que está dentro da cabeça das pessoas”, finaliza. Nós, de Revista Regional, esperamos que a trajetória de Marcos sirva como inspiração: ele é, antes de tudo, um colecionador de sonhos, que jogou para escanteio qualquer pré-conceito em busca de tornar possível aquilo em que acreditava. Que mais pessoas possam seguir este exemplo.

MAIS: Para obter outras informações sobre as palestras motivacionais ou o livro “Uma vida sem limites”, visite o site de Marcos Rossi (www.marcosrossi.yolasite.com)

texto: Piero Vergílio

foto: Divulgação