O pão nosso de cada dia

Há mais de 50 anos, os pães são distribuídos nas manhãs de terça-feira na Igreja do Bom Jesus, no Centro de Itu

Quem passa pela Igreja do Bom Jesus de Itu nas manhãs de terça-feira certamente já deve ter se acostumado com a cena que se repete há mais de 50 anos. Em sinal de ajuda fraterna às necessidades da comunidade, especialmente dos empobrecidos, a partilha dos pães de Santo Antônio vai além de um simples gesto de doação e amor ao próximo: é a comunhão de um dos alimentos mais antigos que se tem registro àqueles que, sem dúvida alguma, necessitam também do sustento espiritual para viver.

Segundo Beatriz Bueno, presidente da Associação dos Amigos do Pão de Santo Antônio da Igreja do Bom Jesus, fundada em 1994, a distribuição de pães teve início na cidade de Toulon, na França. Conta-se que uma senhora não conseguia abrir a porta de sua casa para entrar, então chamou um serralheiro que tentou de diversas maneiras, em vão. Como não queria que a porta fosse arrombada, ela fez uma promessa a Santo Antônio de doar pães aos pobres, caso a porta fosse aberta sem precisar ser danificada. Ao experimentar as chaves novamente, o serralheiro conseguiu abri-la na primeira tentativa. A partir desse momento, a senhora passou a exercer a obra de caridade que ganhou notoriedade e novos adeptos pelo mundo.

Em Itu, essa ação social foi implantada pelo Irmão Concci e já virou tradição. Assim que o salão comunitário da igreja é aberto, às 7h, é possível sentir o cheiro de pão quentinho exalando pelo ambiente. Dois cestos grandes vão se esvaziando aos poucos, ao passo que pessoas de diversos pontos da cidade, a maioria idosa, saem com o sorriso no rosto e o alimento em mãos. “Quando começa a rarear, daqui a pouco chegam pessoas com sacos cheios de pão. Vai multiplicando sem a gente falar nada. É impressionante!”, revela Arlene Maria Savi, vice-presidente da associação. Segundo ela, muitas pessoas doam os pães em agradecimento às graças alcançadas e também por devoção a Santo Antônio, a quem fazem promessas, inclusive de casamento, já que é considerado santo casamenteiro.

A obra já possuiu quatro núcleos na cidade. No entanto, de acordo com Beatriz e Arlene, que são professoras aposentadas e há pelo menos dez anos trabalham na obra, atualmente existem apenas dois, sendo o qual participam e o da Matriz Nossa Senhora da Candelária, cuja distribuição acontece às quartas-feiras pela manhã. “Para mim é maravilhoso poder ajudar uma pessoa, dar um pão, porque acho que a pior coisa no mundo é você passar fome. Por isso, não vemos religião, não vemos nada. Entregamos o pão como Santo Antônio queria que fosse feito”, declara Beatriz. “Aqui a gente é também um pouco de psicóloga, amiga… Eles vêm, conversam… Então damos uma palavra de carinho, de apoio. Faz bem pra eles, e pra gente é melhor ainda. É uma delícia! É muito gratificante!”, completa Arlene.

As 130 famílias beneficiadas pela obra possuem um cadastro junto à associação e um cartão de controle da quantidade de pães que recebem. No geral, cada família recebe em torno de 18 pães, um litro de leite e mais um “chorinho”, ou seja, a cada terça-feira são distribuídas aproximadamente 195 dúzias de pães, o que equivale à média de 2.300 por semana. Logo, no decorrer de 50 anos a Igreja do Bom Jesus já distribuiu mais de 5 milhões de pães a famílias carentes da cidade. O jovem Elivelto de Camargo, 13 anos, é um exemplo, assim como a dona Áurea, 70 anos, que apesar de já ser aposentada ainda coleta materiais recicláveis para auxiliar na renda familiar.  Ele mora no Jardim Novo Itu, e diz: “Isso ajuda muito a gente, até porque minha família é grande e não dá para comprar todos os dias”.

Alimento ao corpo e à alma

A sensação que se tem durante a entrega dos pães de Santo Antônio é a de união, harmonia e generosidade ao próximo. O ato de caridade aos mais necessitados se torna ainda mais agradável quando a catequista Tereza de Jesus Fermino chega ao salão. Assim como na história de Santo Antônio, considerado “Doutor da Igreja”, ela evangeliza os assistidos que buscam, além do alimento físico, sustento espiritual. “Antes, eles não tinham tanta fé, mas agora que estão ouvindo a palavra de Deus eles começam a partilhar a partir da catequese. Temos que caminhar, ir caminhando, caminhando… até que um dia eles vão sentir a necessidade de participar em comunidade”, instrui, e finaliza dizendo, “o Evangelho de Deus é um só e serve para alimentar-nos. Então eu digo: Nunca vir buscar o pão, porque isso é material. Primeiro, temos que buscar o espiritual, pois só assim vamos fortalecer nossa alma”.

O santo dos pobres

Santo Antônio nasceu no dia 15 de agosto de 1195, em Lisboa, Portugal. No seio familiar, cresceu ouvindo e praticando a palavra de Deus, de modo que aos 15 anos ingressou no Convento de São Vicente de Fora, para ser religioso. Já no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, teve contato com frades da Ordem Franciscana e, após ter conhecido o trabalho que desenvolviam junto aos pobres, em 1220 deixou tudo de lado para imitar os passos de Jesus Cristo. Fernando Bulhões era seu nome de batismo, no entanto adotou Antônio em memória ao padroeiro do convento onde residiam.

O afinco no conhecimento das Sagradas Escrituras fez dele um teólogo não apenas conhecedor, mas praticante fiel dos ensinamentos bíblicos. Descobriu sua vocação de pregador, a qual exerceu pelo resto da vida, após ter feito homilia numa reunião da Ordem presidida por Francisco, ocorrida na cidade italiana de Assis. Entre os inúmeros episódios de sua vida, o mais célebre é a visão do Menino Jesus sobre as páginas da Bíblia no momento em que se debruçava em oração e leitura das Escrituras. A partir disso é que se têm as representações do Santo com Jesus ainda criança ao colo. Acometido de hidropisia, Antônio faleceu no dia 13 de junho de 1231, em Pádua, na Itália, deixando sua virtude como marca na Igreja Católica. Foi canonizado em menos de um ano depois e estipulou-se celebrar o dia 13 de junho em sua homenagem.

COMO AJUDAR

– A Associação dos Amigos do Pão de Santo Antônio da Igreja do Bom Jesus aceita doações de pães (preferencialmente francês), leite, alimentos para montagem de cestas básicas e também contribuições em espécie para compra dos mesmos. Os interessados em colaborar podem entrar em contato: (11) 4022-1036 ou 4022-3871. A igreja fica no Largo do Bom Jesus – Centro – Itu.

texto e fotos: Valdenir Apollo