>

Post: ‘Bookterapia’ e escrita à mão para a saúde da mente

‘Bookterapia’ e escrita à mão para a saúde da mente

Em uma rotina dominada por telas, livros, papel e caneta recuperam importância como aliados da memória, da aprendizagem e de um envelhecimento mais ativo

Ler livro físico ganhou status de wellness

 

Ler um livro e escrever algumas linhas à mão parecem atividades simples, mas mobilizam diferentes áreas do cérebro e podem funcionar como verdadeiros exercícios mentais. Em um cotidiano marcado por mensagens rápidas, vídeos curtos e respostas automáticas, essas práticas exigem algo cada vez mais raro: atenção prolongada, memória, coordenação e tempo para organizar o pensamento.

A leitura já ultrapassou os limites do entretenimento e da aquisição de conhecimento. Em vários países, cresce o interesse pela Biblioterapia – também chamada, informalmente, de “Bookterapia” -, prática que utiliza livros e leituras orientadas como recurso complementar de acolhimento e elaboração emocional. As histórias ajudam o leitor a reconhecer sentimentos, refletir sobre conflitos e encontrar outras perspectivas para experiências como luto, solidão, ansiedade e mudanças trazidas pelo envelhecimento.

Autora de “Uma História da Velhice no Brasil”, a historiadora Mary Del Priore destaca que a leitura também representa uma forma de cuidado com a saúde cognitiva. “Quando lemos, o cérebro precisa lembrar informações, entender ideias, fazer associações e imaginar cenas. Tudo isso funciona como um exercício mental, que fortalece a memória e o raciocínio”, observa. Segundo ela, ler não significa apenas adquirir conhecimento, mas contribuir para um envelhecimento mais lúcido, ativo e consciente.

Pesquisas reforçam essa relação, embora não permitam afirmar que a leitura, isoladamente, seja capaz de impedir doenças como o Alzheimer. O que os estudos indicam é uma associação entre atividades intelectualmente estimulantes e a chamada reserva cognitiva, isto é, a capacidade do cérebro de lidar melhor com as alterações provocadas pelo tempo. Livros, aprendizado contínuo, convívio social e atividade física formam, em conjunto, uma rede de proteção e estímulo.

Escrever à mão tem importância para a saúde cognitiva

Manter a mente ativa

Se a leitura exercita a compreensão e a imaginação, a escrita à mão acrescenta movimento, percepção espacial e coordenação motora. Cada letra exige decisões sobre forma, tamanho, direção e ligação com a palavra seguinte. Ao contrário da digitação, na qual o gesto de pressionar uma tecla se repete, escrever com papel e caneta envolve movimentos variados e uma seleção mais cuidadosa das informações.

Em entrevista à emissora alemã Deutsche Welle, a neuropsicopedagoga Adriana Fóz alertou para as consequências do abandono da escrita manual. Para ela, a prática “desacelera o cérebro” e favorece maior profundidade, treinando capacidades que não são estimuladas da mesma maneira no ambiente digital. Já a pesquisadora de tipografia Edna Lúcia Cunha Lima sintetizou a preocupação ao afirmar que, com a perda desse hábito, “a gente está perdendo espaço de ser humano”.

Estudos conduzidos pela pesquisadora norueguesa Audrey van der Meer também identificaram padrões mais amplos de conectividade cerebral durante a escrita à mão do que na digitação. Isso não significa rejeitar teclados, celulares ou inteligência artificial, mas compreender que cada recurso produz experiências cognitivas diferentes. A tecnologia oferece velocidade e praticidade; o papel favorece pausa, síntese e elaboração.

Preservar esses hábitos não exige abandonar o mundo digital. Ler algumas páginas diariamente, anotar compromissos em uma agenda, escrever cartas, registrar memórias ou resumir à mão o conteúdo estudado já são maneiras de manter essas habilidades presentes. Os especialistas aconselham: em qualquer idade, abrir um livro e empunhar uma caneta pode ser mais do que um gesto cultural, é uma oportunidade de interromper a pressa, organizar ideias e manter a mente em movimento.

 

 

fotos: AdobeStock

# DESTAQUES

1
Escanear o código