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Mel Lisboa em entrevista exclusiva a Regional

Entre a urgência política de ‘A Conspiração Condor’, o misticismo de Madame Blavatsky e a liberdade imortal de Rita Lee, Mel Lisboa reflete sobre maturidade, maternidade e a missão, quase espiritual, de seu ofício

Mel Lisboa em dose dupla no teatro e também no cinema

Mel Lisboa não busca personagens; ela é encontrada por eles. Em um momento de efervescência criativa que define seu 2026, a atriz transita com uma fluidez impressionante entre universos aparentemente inconciliáveis. Se no cinema ela mergulha nas feridas abertas da ditadura com “A Conspiração Condor”, no teatro ela se divide entre o deboche libertário de sua icônica interpretação em “Rita Lee – Uma Autobiografia Musical” e a densidade enigmática de “Madame Blavatsky”. Em conversa exclusiva à Revista Regional, Mel nos revela como equilibra a intensidade dessas “mulheres-furacão” com a serenidade necessária para criar dois filhos adolescentes, Bernardo e Clarice. Sem fugir de temas espinhosos como a era da pós-verdade e as cicatrizes de relacionamentos abusivos, ela reafirma o papel da arte como bússola ética. “O autodeboche sempre foi muito importante para a Rita”, reflete Mel, que hoje, dez anos mais madura, empresta novas camadas à “padroeira da liberdade” enquanto mantém o distanciamento necessário para não se perder nas máscaras que usa.

 

REVISTA REGIONAL: Mel, em “A Conspiração Condor”, você interpreta uma jornalista mergulhada nas mortes nebulosas de JK e Jango. Em tempos de desinformação e revisionismo histórico, como você enxerga o papel do cinema em retomar essas feridas da nossa história? O quanto a busca da sua personagem pela verdade ressoa com a sua própria necessidade de se posicionar politicamente hoje?

MEL LISBOA: Eu acho realmente muito importante que não só o cinema, mas qualquer outra arte, ou até os próprios jornalistas e o público em geral, possam realizar ações que chamem a atenção para o fato de que, sim, estamos vivendo em um mundo de desinformação, de pós-verdade, de Inteligência Artificial e de bolhas de informação que não possuem nenhum fundo de verdade. Enfim, um mundo em que somos manipulados. Assim, por meio de um filme que retrata um período histórico e fala de fatos reais, mas que traz esse assunto à tona, faz-se com que, inevitavelmente, as pessoas parem para pensar nos dias de hoje. Considero fundamental que repensemos de onde estamos tirando as nossas informações, além de reavaliarmos nossas próprias opiniões e posições, para que possamos entender se estamos sendo manipulados ou não. Acredito que isso é muito importante, e o filme ajuda nesse sentido.

A peça “Madame Blavatsky” brinca com a ideia de que não existe uma verdade única, com outros espíritos disputando a narrativa. Em um mundo onde as figuras femininas fortes são frequentemente rotuladas ou silenciadas, o que mais lhe fascina na Helena Blavatsky: a busca dela pelo sagrado ou a coragem de ser uma mulher polêmica que ‘coloca os pratos limpos’ diante do julgamento alheio?

Olha, eu acho a Helena Blavatsky absolutamente fascinante por tudo: sua biografia, sua história, toda a sua filosofia e a sua parte psíquica, ou seja, a sua paranormalidade. Eu a considero, sim, uma das figuras mais brilhantes, enigmáticas e, por isso mesmo, em um mundo machista, uma das mais controversas que já existiram. Sinto-me muito privilegiada por poder contar um pouco da história dela e, muitas vezes, apresentar essa personagem a outras pessoas. Realmente, acho-a uma figura fantástica.

Você interpreta a Rita Lee há mais de uma década, passando por diferentes fases da vida dela e da sua. Como é ‘emprestar’ sua maturidade atual para uma Rita que, no musical (“Uma Autobiografia Musical”), é narradora da própria história, com todo o sarcasmo e a liberdade que ela tinha?

Ah, é um privilégio imenso interpretar a Rita Lee, que é outra personagem absolutamente fascinante. Tenho esse privilégio de interpretar as duas que, inclusive, dialogam muito; a própria Rita estudava a Blavatsky. Não sei se você sabe, mas Rita e Blavatsky morreram no mesmo dia, 08 de maio. Elas estão muito conectadas. Sinto-me muito privilegiada e é muito bacana poder retomar um trabalho feito há dez anos, realizando-o agora, dez anos mais madura e com outra visão. É como se eu estivesse em uma nova fase: na peça, interpreto-a dos sete aos 75 anos, mas eu, como atriz, estou em um momento de vida diferente do que estava há uma década. Como eu disse, é um privilégio enorme. Neste espetáculo específico, ela está contando a própria história da maneira que quis e desejou, sempre com aquele tom debochado, o autodeboche sempre foi algo muito importante para ela. É maravilhoso levar esse símbolo de liberdade que ela representa para os espectadores.

A Rita costumava dizer que você era a ‘queridinha’ dela. Após a sua partida, como esse papel se transformou de uma interpretação para uma espécie de missão cultural?

Eu não sei… tenho medo de parecer arrogante ao dizer que seria uma ‘missão’. Eu sinto que ela confiava em mim, sabe? E, ao confiar, ela acabou, de certa forma, delegando a ‘Rita dela’ a mim. Isso me traz segurança, embora seja sempre um lugar de muita insegurança subir no palco e fingir ser a Rita Lee. Mas o aval e a confiança dela sempre me deram esse suporte. Acho curioso você usar a palavra ‘missão’ porque, pensando na Blavatsky, ela também fala muito sobre isso. Já cogitei a possibilidade de deixar de ser atriz muitas vezes, mas nunca consegui. Tem horas em que, principalmente depois da Rita e da Blavatsky, duas personagens que eu não pedi para fazer, eu reflito sobre isso. A Rita foi um convite do Márcio Macena; já a Blavatsky foi um presente da Cláudia Barral, a autora da peça, que me deu o texto, eu li e topei. Não foram personagens buscadas por mim. Pela espiritualidade de ambas, fico achando que talvez eu devesse mesmo seguir o meu trabalho de atriz. Alguma coisa me colocou nesse caminho e eu sinto que tenho que respeitar.

Mel Lisboa em ensaio especial

Mel, em um curto espaço de tempo, você transita entre a rebeldia libertária da Rita Lee, o rigor investigativo de uma jornalista em ‘A Conspiração Condor’ e o misticismo denso de Madame Blavatsky. Quando você mergulha em comportamentos tão antagônicos — da leveza do rock à rigidez do ocultismo —, o que sobra de ‘resíduo’ dessas mulheres em você? É possível passar por essas personalidades sem questionar os seus próprios padrões de comportamento ou a maneira como você reage ao mundo fora do palco?

É interessante essa sua pergunta. Eu acho que é até possível não questionar, mas é muito difícil, porque uma das grandes vantagens do nosso trabalho é aprender com as personagens que interpretamos. Aprendemos sobre coisas que não conhecíamos e, ao dar vida a uma personalidade que não temos, de repente, uma reação ou um pensamento daquela personagem nos ensina algo. Então, considero um privilégio enorme poder estar sempre aprendendo com elas e com o seu entorno, pois, para construir uma personagem, é preciso entender todo o seu contexto e tudo o que a cerca. É tudo muito enriquecedor.  Mas, em termos específicos, eu me distancio bastante da personagem. Acho que é um trabalho muito perigoso emocional, psicológica e até fisicamente; temos que tomar muito cuidado. Por isso, tento não misturar as coisas. Eu interpreto as personagens, mas sou sempre eu. A persona é como uma máscara; meu corpo está ali dando vida àquela máscara, mas busco manter esse distanciamento, pois acho muito arriscado misturar as coisas.

Você já declarou que a maternidade traz uma maturidade que ‘os anos não podem proporcionar’. Hoje, com o Bernardo e a Clarice entrando na adolescência, como você equilibra a mulher artista, que viaja o país com turnês, com a mãe que precisa lidar com as novas demandas e vulnerabilidades dos filhos?

Curioso, eu não lembrava dessa declaração e não sei se concordo com ela hoje. É engraçado como a gente muda, não é? Eu acho que a maternidade pode, sim, proporcionar esse amadurecimento, mas depende muito da vida e das escolhas de cada um. O que eu entendo do que quis dizer é que a maternidade faz com que você não tenha alternativa: você precisa se virar, precisa cuidar de alguém. É alguém que depende 100% de você, especialmente quando são pequenos. A vida já não gira mais em torno de si mesma; muito pelo contrário, toda a sua vida passa a servir à vida de outra pessoa. Acredito que era isso que eu pretendia dizer ali. Eu faço como a maioria das mulheres: vou me virando entre trabalhar, cuidar da casa e dos filhos. Muitas vezes falta tempo e não estou presente em momentos em que gostaria, mas converso muito com eles. Acho o diálogo fundamental para que entendam que o trabalho faz parte de quem eu sou. Digo a eles que não trabalho apenas para pagar as contas, também por isso, claro, mas porque o trabalho é parte do meu ser; eu não saberia existir sem ele. É algo que amo, que me completa e me faz ser eu mesma. Quero que eles entendam que esse desejo e esse amor pelo meu ofício não tiram o amor, o afeto e o cuidado que tenho por eles. Hoje, como eles estão mais velhos, já compreendem melhor. Sentem falta quando estou longe, como agora (abril de 2026, data da entrevista), que passarei dez dias no Sul, e eu também sinto, mas já sabemos lidar com isso de uma forma mais madura.

Recentemente, você abriu o jogo sobre situações difíceis do passado, como relacionamentos abusivos. Como a sua experiência como mãe influencia o diálogo com seus filhos sobre limites, respeito e a busca pela própria autonomia?

Pois é, como eu disse anteriormente, eu converso muito com os meus filhos. Relato minhas experiências para eles aos poucos e é curioso notar como, quando você compartilha uma vivência própria, isso os afeta de uma forma diferente. Converso bastante com os dois, tenho uma moça e um rapaz hoje, e estou sempre tentando alertar, mostrar e manter uma porta aberta para qualquer tipo de diálogo sobre qualquer assunto. Acho isso fundamental. Eles estão em um momento de desenvolvimento e maturidade, tornando-se autônomos e saindo da adolescência em busca de suas próprias vidas. A Clarice está em plena adolescência, mas o Bernardo já faz 18 anos este ano. Por isso, considero muito importante essa troca. Inclusive, todos os relatos que dei publicamente, eu já havia compartilhado com eles antes. Só tornei essas histórias públicas porque já tínhamos conversado a respeito. Eu jamais revelaria algo que eles não soubessem ou que os fizesse levar um susto ao ver a mãe expondo fatos sem ter falado com eles primeiro, entende?

O seu 2026 está sendo um ano de fôlego impressionante! Olhando esse calendário, como você projeta o segundo semestre? Existe algum desejo de pausa ou já existem novas ‘peles’ e personagens pedindo passagem para o final deste ano?

Pois é, 2025 foi assim e 2026 também está sendo. Eu acho muito bom ter que aproveitar, pois sabemos que a carreira de artista no Brasil nem sempre é constante. O segundo semestre será muito parecido com o primeiro, com a diferença de que estarei mais em casa, em São Paulo, viajando menos. Ainda assim, seguirei com os shows e com a temporada de Madame Blavatsky. Estou dando continuidade aos trabalhos que já vinha realizando e, sobre novos projetos, estou planejando apenas para 2027; em 2026 não haverá nem tempo. Já estou começando a ver o que será interessante fazer no segundo semestre de 2027, pensando também em uma vida pós-Rita. A Blavatsky é uma produção minha, um solo simples, e é uma peça que acho que terei ‘na manga’ para sempre. É isso.  

 

entrevista: ESTER JACOPETTI

fotos: Ale Catan

 

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