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David Jr. em entrevista exclusiva: sucesso em dose dupla

Ator, no ar em dose dupla nas novelas ‘Dona Beja’ e ‘Coração Acelerado’, celebra suas conquistas sem perder de vista o propósito maior: usar a dramaturgia para plantar sementes de futuro e esperança

David Jr. em ensaio especial

Na entrevista exclusiva concedida à Revista Regional, o ator David Junior surge em plena ascensão, vivendo simultaneamente dois personagens de universos opostos: o aristocrata Antônio em Dona Beja (HBO Max) e o produtor musical Leandro Brasil em Coração Acelerado (Globo). Entre papéis que atravessam séculos e estereótipos, o ator reflete sobre a potência da arte como ferramenta de debate social. “O mais dolorido para mim, enquanto um corpo preto que se destaca, é validar minhas vitórias a partir da dor”, afirma, destacando que sua trajetória não pode ser reduzida apenas à narrativa da opressão. Com elegância e firmeza, David Junior fala sobre a responsabilidade de dar vida a personagens que carregam ambiguidades e camadas históricas. “Eu costumo dizer que o personagem escolhe o artista, e ser escolhido por Antônio e Leandro para contar essas histórias é uma honra e um encantamento ancestral”, revela. A entrevista, conduzida em tom intimista, mostra um artista que celebra conquistas sem perder de vista o propósito maior: usar a dramaturgia para plantar sementes de futuro e esperança.

 

REVISTA REGIONAL: Em ‘Dona Beja’, o Antônio é um homem de tradições familiares e responsável pela herança de uma matriarca poderosa, em meio a um contexto histórico que resgata racismo, empoderamento feminino e machismo. Como você enxerga o personagem navegando esses temas tão pulsantes na sociedade atual, mesmo ambientados no século XIX, e qual lição ele traz para os debates contemporâneos?

DAVID JUNIOR: O mais dolorido para mim, enquanto um corpo preto que se destaca, é validar minhas vitórias a partir da dor. Todas as entrevistas que dou, independente da conquista, começa a ser abordada a partir da opressão do racismo e isso em si, já deixa a ferida aberta em mim, enquanto os não negros celebram suas vitórias falando de outros assuntos que não passam pela opressão. Deixemos a dramaturgia falar por si e perguntemos sobre racismo a quem de fato o reproduz… Sobre a relevância dos temas, essa é a função da arte, colocar em pauta assuntos que precisam ser discutidos na sociedade. Isso mostra que estamos no caminho certo.

Você está simultaneamente como Antônio em ‘Dona Beja’, no HBO Max e Leandro Brasil em ‘Coração Acelerado’ na Globo, como esses papéis tão diferentes em canais variados expandem suas possibilidades de interpretação e ressignificam seu corpo, fugindo de estereótipos?

Tenho uma trajetória artística bem variada quanto aos meus personagens e me orgulho muito disso, mas nunca estive no ar em dois produtos ao mesmo tempo. Esse tipo de visibilidade com toda certeza é um marco na minha carreira e estou imensamente feliz. São duas excelentes vitrines profissionais, com dois personagens que exigiram pesquisas especificamente diferentes. Um aristocrata do século XIX e um produtor musical sertanejo, corpos e energias completamente distintas e fora de estereótipos. Eu costumo dizer que o personagem escolhe o artista e ser escolhido por Antônio e Leandro para contar essas histórias é uma honra e um encantamento ancestral.

Em ‘Americana’ série da Disney+, Benedito é um ex-escravizado lutando pela sobrevivência com um patrão explorador. Eu gostaria que você contasse sobre como foi mergulhar nessa história, a sua preparação, além claro, do elenco e data de estreia.

Benedito é um sobrevivente em meio a uma sociedade regida por suas próprias leis. Ainda não temos data de estreia definida, mas nosso elenco vivenciou um mundo à parte em “Americana”. Foi uma experiência incrível, com uma equipe maravilhosa e disposta a contar uma boa história. Espero que gostem quando for ao ar.

Antônio em ‘Dona Beja’ vive num regime onde negros ainda enfrentam barreiras sociais sutis, mesmo sem correntes, enquanto Benedito em ‘Americana’ carrega as marcas reais da escravidão. Como é para você revisitar essa luta tão recorrente na sua carreira, trazendo camadas tão reais para a tela?

Entre lutas e vitórias, eu escolho celebrar as vitórias e usar meus personagens para dar esperança de dias melhores a quem precisa. Sempre coloco uma visão de futuro como mote principal em minha construção artística com meus personagens, além de empatia e amor ao próximo. Fazer arte é um propósito de vida, é herança, é plantar uma semente do amanhã esperando dias melhores.

David Jr. está em duas novelas simultaneamente

Ao longo da história da TV brasileira, personagens como Marco Aurélio (Vale Tudo), Felipe Barreto (O Dono do Mundo), Horácio Cortez (Insensato Coração) e outros vilões marcaram época justamente por ir contra o bem‑pensante e tocar em zonas cinzentas da moral. Quando você escolhe um papel, existe uma curiosidade ou até um prazer especial em assumir personalidades mais ambíguas, conflituosas ou anticonvencionais como essas, em vez de um protagonista claramente alinhado à ‘bondade’ oficial? O que, para você, há de mais atraente nesse tipo de personagem?

O que a religião de matriz africana me ensinou foi que ninguém é uma coisa só. Todos temos nossas ambiguidades na condição de seres humanos que somos, passivos de reproduzirmos o bem e o mal e esse conflito interno levo para todos os meus personagens. Não acredito que ninguém seja só mocinho o tempo todo, nem que o vilão só faz maldade, temos subjetividades, caminhos e escolhas. Quanto ao que é certo ou errado, gosto de deixar o público decidir.

Hoje, cuidar da aparência deixou de ser um tabu para muitos homens e virou parte da rotina de uma masculinidade mais consciente: rotina de skincare, barba marcada, academia, tratamentos estéticos, até procedimentos mais sofisticados. Como você enxerga essa evolução da vaidade masculina? Em que momento o cuidado consigo mesmo passou de convenção social para parte essencial da sua identidade e autoestima?

Acho absolutamente necessário o homem aprender a olhar para si e valorar sua vida e sua saúde de forma geral. O excesso de vaidade a gente cuida com terapia, o que precisa mudar é culturalmente o homem morrer mais do que a mulher por falta de cuidado pessoal. Não somos educados a comprar nossas próprias cuecas, quem dirá agendar um médico para um check-up anual. Cuidar do corpo, da pele, da mente e da alma faz parte da sobrevivência do homem e que bom que estamos aprendendo a olharmos no espelho e sabermos o valor que temos.

Você é um ator em plena ascensão, formado em uma geração que já encontra mais representatividade na tela, ainda que com muitas lacunas. Quando você decidiu seguir a carreira, quais foram os atores que você via na TV e que, de alguma forma, desenharam possibilidades para você, seja pelo tipo de papel, pela presença ou pela maneira de ocupar o espaço? Que imagem de si mesmo esses nomes ajudaram a construir?

Sou da geração que viu Mussum, Vera Verão, Milton Gonçalves, (Antonio) Pitanga, até ser contemporâneo de Lázaro (Ramos), Luís Miranda, Érico Brás, entre outros. Esses artistas formaram minha autoestima e meu poder de pertencimento dentro da arte com muita dignidade. Eles abriram caminho para que eu ocupasse o lugar que ocupo hoje e sou absolutamente grato a eles por isso.

David Jr. em ensaio especial

Você já afirmou que o ator entretém, informa e, ao mesmo tempo, lança luz sobre questões sociais que muitas vezes ficam à margem da grande audiência. Como você equilibra esse papel de provocar reflexões incômodas ou necessárias no público sem que isso comprometa a fluidez, o encanto e a contundência da própria narrativa da história?

Eu dou humanidade ao personagem. Ninguém faz nada sozinho, existe sempre uma equipe conduzindo nosso dia a dia; preparadores, diretores, assistentes, câmeras, que constroem comigo essas histórias, além de meus parceiros em cena. Ouvi-los me traz a força que preciso para gestar a personagem e contar sua história.

O ano está só começando, quais serão os próximos projeto para 2026?

Temos muito para construir em 2026, artisticamente e pessoalmente. Espero concluir a obra de nossa tão sonhada casa, colocar alguns projetos na rua e continuar sendo bem recebido dentro da casa de todos vocês. Aprendi um provérbio africano que diz: “O primeiro alfabeto que aprendemos ao nascer é o silêncio, fale menos e aja mais.” Faz teu corre sem contar para ninguém, deixe que seu esforço fale por si. Um excelente 2026 a todos, obrigado pelo convite!

 

entrevista e texto: Ester Jacopetti

fotos: Arquivo pessoal

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