Eliane Giardini, de Sorocaba para o Brasil

“Está escrito com todas as letras minha origem, minhas ruas, árvores e rio Sorocaba atravessando o meu coração. Minha família ainda mora em Sorocaba. Sempre que possível vou até lá e me realimento junto à minha família”

Ela é uma atriz excepcional. Fez personagens complexos, mas também soube se dividir no núcleo da comédia. Eliane Giardini é uma raridade de sua geração.A versatilidade em cena e a intensidade com que interpreta,revela uma atrizdemuitas facetas e aberta às novas possibilidades.E, por isso, pontuamosque Giardini é a pessoa certa para dar vida a tantas histórias e dramas que tocam o público. Com Rania,em “Órfãos da Terra”,novela das 18h da TV Globo, as nuances de suapersonagem,vão aos poucos mostrando ao telespectador o cotidiano de uma família síria no Brasil, aliás, curiosamente a atriz é sempre escolhidaquando se trata de personagens ligados ao Oriente Médio. Suas características até podem ser um dos principais motivos, mas é fato que o talento, dedicação e o perfeccionismo fazem diferença. Na teledramaturgia contar uma boa história é importante, mas muito mais que isso, é conscientizar de alguma forma a população. Esse tem sido um novo caminho. Inspiração e também motivo de orgulho para muitos sorocabanos, Giardini nutre um carinho muito especial por sua cidade e mantém em sua memória momentos únicos, vividos ainda na infância com seus amigos, e hoje ela coleciona entardeceres maravilhosos no rumo de muita prosa, com seus familiares que vivem na cidade.O que mais pode caber no currículo de uma grande estrela? Leia a nossa entrevista e descubra.

REVISTA REGIONAL: Em “Órfãos da Terra” sua personagem Rania é uma mulher cheia de nuances e ela guarda um segredo que será revelado em breve na trama, como é pra você dar vida a essa mulher?

ELIANE GIARDINI: Em novelas sempre deixamos pontos abertos porque não é uma obra fechada. Nós nunca sabemos para onde os personagens irão caminhar, tudo vai para uma linha onde você sempre deixa alguns pontos abertos para que a história possa se encaixar posteriormente. Nesse caso, eu já sei dessa história com o Aziz (Herson Capri) e vamos ter algumas cenas fortes, determinantes, digamos assim, na história, ou seja, dá pra incorporar desde o início.

A trama aborda as questões dos sírios refugiados e alguns deles até moram no Brasil. De que maneira essa história te tocou?

Nós tivemos várias palestras onde eles participaram, em um dado momento fez com que eu até me reconciliasse com o Brasil, devido ao sofrimento que eles passaram na Síria, porque eles têm loucura pelo nosso país, se sentem muito bem recebidos, com todas as dificuldades, claro. Mas na verdade, não são pessoas despreparadas, são de classe média alta que perderam tudo que tinham, como no caso do Marco Ricca que interpreta um engenheiro que vai trabalhar como mecânico, o único trabalho que ele consegue, enquanto não aprende a língua, não se adapta, digamos assim. É uma realidade bastante complicada. Aliás, a novela trata de um assunto muito importante, eu adoro fazer entretenimento, mas quando vai além, possibilita a abertura de uma consciência para uma questão como essa, que diminui as fronteiras e faz com que as pessoas se apeguem aos personagens e entendam o drama que eles estão vivendo, que saia desse preconceito do refugiado, do cara que é bandido e terrorista, eu fico mais feliz ainda.

Os personagens incorporam alguns sotaques durante a novela, você também precisou desse trabalho?

No meu caso não foi necessário porque a Rania está no Brasil há muito tempo, ela veio muito jovem e as pessoas que vêm de lá (Síria) estão usando um sotaque muito delicado e pode dar muito

certo ou errado. São muitos meses no ar para você se arriscar. Existem alguns núcleos que estão fazendo, mas no caso dos árabes é uma palavra ou outra, uma expressão. Decorar falas em outra língua ajuda o personagem também, porque você acessa outro tipo de cultura e afeto. É um mistério bem interessante. Eu gostei bastante.

Você tem feito muitos trabalhos étnicos na televisão, em algum momento ficou com receio de aceitar um personagem como esse?

Não, eu gosto desse universo. Eu fiz há pouco tempo uma libanesa em “Dois Irmãos” (2017). Se eu não me engano esse é o meu quarto trabalho oriental. Não sei por que estou sempre envolvida com esse universo. Eu não tenho nenhuma ascendência árabe na família, mas por alguma razão, sou sempre escalada para fazer esse tipo de personagem. Eu gosto muito. Talvez porque eu tenha alguma semelhança, olhos que sempre remeta aos árabes. Eu gosto dos meus personagens, sou muito fã deles e acredito que tenho feito belos papéis. Eu me apaixono por eles. A Rania vai ser uma delas. Ela é uma mulher muito forte, dona do seu nariz apesar de ter um casamento bastante tradicional, mas ela vai em frente, ajuda a quebrar os preconceitos e a trazer essa família síria para uma realidade brasileira, onde não é tão formal. No Brasil nós não temos essas regras determinadas como eles têm, onde a religião determina o comportamento, e eu espero que não venhamos a ter, mas é um belo personagem.

Na trama você e o Paulo Betti se reencontram novamente e repetem a dobradinha de viverem um casal na novela. Como é essa interação entre vocês, que têm muita cumplicidade?

É ótimo. Nós fizemos um filme há uns três anos juntos “A Fera na Selva” em Sorocaba, Salto e região, que será lançado esse ano. Foi uma escolha e uma forma afetuosa de nos debruçarmos sobre o real sentido da vida. É muito fácil trabalhar com ele porque você conhece muito a pessoa, tem muita intimidade. E nós temos uma relação extraordinária, muito afetiva, amorosa, então é bem tranquilo, muito gostoso, muito bom.

Sua personagem é uma mulher que lê a sorte na borra do café, você já tentou fazer essa leitura?

Eu já fiz e adorei. Não é difícil, na verdade é muito lúdica, é uma brincadeira de criança de ficar olhando para as nuvens e imaginar a forma que ela tem, é um pouco isso. É impressionante como você vê o pó de café, que formam imagens, não imagens, mas que sugerem algo e você começa a ver mesmo uma coisinha aqui outra ali, não estou lendo profissionalmente. Eu já sou bem vacinada de ficarem lendo a minha sorte. Eu não gosto disso.

Você participou de uma série (Dois Irmãos) que ganhou destaque na dramaturgia brasileira. O que você está achando desse catálogo que a emissora tem investido?

Para nós atores é excelente. Eu sou uma pessoa que gosta de fazer séries e novelas. Quando eu terminei de filmar “Dois Irmãos” que demorou um pouco para sair, engatei em “Êta Mundo Bom” (2016). São dois projetos com abordagens diferentes. A novela tem outro tipo de desafio, é um personagem que você não sabe como termina, para onde ele vai. É o oposto da minissérie que você tem em suas mãos e pode desenhá-lo. Quanto mais melhor. A dificuldade da minissérie é maior obviamente, mas também é um trabalho mais curto, são poucos capítulos. É uma medida bem administrável.

Recentemente você foi premiada no Festival do Rio pelo filme “Deslembro” como melhor atriz coadjuvante. Quando isso acontece quais são os sentimentos que passam pela cabeça de um artista?

Receber prêmios é sempre uma alegria. São sinais de que cheguei perto do que o papel exigia.

Nascida em Sorocaba, parte de seus familiares continuam morando na cidade. Do que você mais sente falta da região?

Eu te digo que o lugar em que nasci, minha casa, meu quintal com as mangueiras, está em todos os meus trabalhos. O horizonte que eu enxergava do alto das árvores, eram as montanhas planas que circundam Sorocaba. A minha rua dava para o cemitério da Saudade que eu conheço como a palma da minha mão, porque era lá que nós brincávamos o dia todo. Parece mórbido, mas o universo infantil é muito misterioso e mágico e nossa maior alegria era o dia após Finados, onde redistribuíamos as flores, tirando o que era excessivo em alguns túmulos e colocando em outros abandonados. Nosso exercício de solidariedade e igualdade. Naquele larguinho, aprendi a andar de bicicleta, caindo muito, me esfolando toda, mas me lembro perfeitamente da alegria brotando no meu peito quando o meu corpo conseguiu entender o equilíbrio. As crianças também eram muito presentes nas festas religiosas que a minha família italiana organizava. As novenas eram regadas a licor de figo preparado em casa. Até hoje eu sei fazer. As tias, um elenco de primeira que abastece todas as minhas personagens. As primeiras interações fora da família na escola, o primeiro namorado, o primeiro beijo, tudo se impregna em minha memória, e afeta os meus personagens. Sotaque caipira não serve para todos os papéis, é necessário trabalhar para ter uma prosódia que não remeta a uma região específica. Sou atriz, tenho que acolher tantos sotaques quanto sejam necessários. O gosto profundo que experimento cada vez que reúno minha família ao redor de uma mesa que emenda café da manhã, almoço e quase jantar atualizando fatos, recordando outros, enternecendo com as crianças novas, aí está a minha essência, meu sentido. Acredito que por isso, sou quase sempre convocada para papéis de matriarca. Está escrito com todas as letras minha origem, minhas ruas, árvores e rio Sorocaba atravessando o meu coração. Minha família ainda mora em Sorocaba. Sempre que possível vou até lá e me realimento junto a ela (família). Sinto muito ter um trabalho tão distante, adoraria poder estar mais perto.

Falando em família, seu netinho Antônio está numa fase incrível de curiosidades, de se fascinar por tudo que acontece em volta. Como é participar desse momento, mas dessa vez como avó?

Ser avó é uma etapa das mais prazerosas da vida. Dá um sentido enorme de continuidade. Tem sido minha alegria maior.

texto: Ester Jacopetti

foto: Paulo Belote/TV Globo