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Mês das Crianças: brincadeiras antigas geram novos encontros

Amarelinha, esconde-esconde, elástico e outras diversões de antigamente podem ser adaptadas por famílias, educadores e recreadores para reduzir o tempo de tela e estimular a convivência

Amarelinha

Em um cotidiano marcado por celulares, tablets e jogos eletrônicos, afastar as crianças das telas apenas por meio de proibições costuma produzir pouco resultado. O caminho mais eficiente é oferecer experiências capazes de despertar curiosidade e prazer. Nesse cenário, brincadeiras conhecidas por outras gerações podem ganhar novas versões e se transformar em importantes ferramentas de movimento, criatividade e socialização.

Amarelinha, queimada, passa-anel, dança das cadeiras, corre-cotia, esconde-esconde e caça ao tesouro exigem poucos materiais e podem ser realizadas em casas, escolas, condomínios ou espaços de recreação. A amarelinha pode receber letras, cores e perguntas; o jogo de estátua pode desafiar os participantes a imitar animais; e a caça ao tesouro pode incluir pistas desenhadas, movimentos corporais e tarefas em equipe. A proposta não é converter todo lazer em aula, mas ampliar as possibilidades do brincar.

Para o pediatra e psicanalista infantil inglês Donald Winnicott, autor do clássico “O Brincar e a Realidade”, a brincadeira ocupa um espaço essencial entre o universo interior da criança e o mundo que a cerca. É brincando que ela experimenta papéis, organiza sentimentos e manifesta sua criatividade. Uma de suas ideias mais conhecidas resume essa dimensão: “É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral”. Assim, o quintal, a quadra ou a sala podem se tornar espaços de expressão emocional e construção da identidade.

Outro estudioso do tema, o médico norte-americano Stuart Brown, fundador do National Institute for Play e autor de “Play: How It Shapes the Brain, Opens the Imagination, and Invigorates the Soul”, considera o brincar uma necessidade biológica ligada à criatividade, à adaptação, à inteligência e à capacidade de estabelecer vínculos. Depois de analisar milhares de histórias de vida, Brown concluiu que a brincadeira está longe de ser uma atividade secundária: ela é parte essencial do desenvolvimento humano.

Na prática recreativa, o adulto tem a função de criar condições, sugerir caminhos e assegurar a participação de todos, sem controlar cada movimento. Essa visão aparece no trabalho da educadora, pesquisadora do brincar e documentarista Renata Meirelles, mestre em Educação pela USP, autora de “Giramundo e Outros Brinquedos e Brincadeiras dos Meninos do Brasil” e codiretora do documentário “Território do Brincar”. Depois de percorrer diferentes regiões do país registrando brincadeiras infantis, ela constatou que a criança não brinca apenas para aprender algo: é durante a brincadeira que se expressa plenamente.

“O que falta principalmente é o tempo para brincar. Todos os demais recursos a criança vai encontrar”, afirmou Renata em entrevista sobre o tema. Para ela, é necessário valorizar inclusive o tempo ocioso, distante de telas e de uma agenda repleta de atividades programadas. Sua pesquisa mostra que paus, pedras, sementes, areia, tecidos e objetos simples podem se transformar em brinquedos quando existe liberdade para imaginar. Recreadores podem lançar a proposta inicial, organizar o espaço e aproximar crianças mais tímidas, mas devem permitir que o grupo invente histórias e transforme as regras.

Para conquistar as crianças de hoje, as brincadeiras antigas não precisam ser reproduzidas de maneira rígida. Uma corrida de saco pode virar uma missão espacial; o pega-pega pode ser organizado em equipes ou incorporar personagens; e caixas de papelão podem se transformar em castelos, foguetes, lojas e cidades inteiras. A tecnologia também pode servir apenas como ponto de partida: depois de pesquisar uma cantiga ou assistir a uma breve demonstração, os aparelhos são guardados e a experiência continua no mundo real.

Em grupos com diferentes idades ou habilidades, as regras podem ser simplificadas e adaptadas. Em vez de eliminar quem erra, por exemplo, a brincadeira pode oferecer uma nova função ao participante. Na dança das cadeiras, todos podem compartilhar os lugares restantes até o fim; na queimada, quem sai da quadra pode ajudar a equipe em outra posição. Essas alterações reduzem a frustração, favorecem a cooperação e evitam que crianças menos ágeis sejam deixadas de lado.

Avós e familiares também podem ser convidados a ensinar jogos da própria infância, criando uma troca afetiva entre gerações. Além de ampliar o repertório infantil, a iniciativa preserva cantigas, expressões, histórias e costumes que fazem parte da memória cultural das famílias e das comunidades. Para os adultos, participar dessas atividades também representa uma oportunidade de se desligar temporariamente das próprias telas. A mudança, portanto, precisa envolver toda a casa. O guia do governo federal sobre uso de telas por crianças e adolescentes ressalta que pais e responsáveis são modelos de comportamento e que os dispositivos não devem ocupar o espaço das atividades ao ar livre, do sono, das refeições e das interações familiares face a face. Estabelecer momentos sem celular e participar das primeiras rodadas pode ser mais convincente do que simplesmente mandar a criança brincar.

Neste Mês das Crianças, recuperar essas experiências não significa rejeitar a tecnologia, mas devolver equilíbrio à infância. “Quando os pequenos correm, inventam regras, esperam sua vez, discordam, negociam e fazem as pazes, desenvolvem habilidades que nenhuma tela oferece da mesma maneira. Às vezes, tudo de que uma brincadeira antiga precisa para voltar a fazer sucesso é espaço, companhia e um adulto disposto a começar”, finaliza.

 

fotos: AdobeStock

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