
Há uma quietude magnética em Bianca Bin que parece desafiar a velocidade febril dos nossos tempos. No set de Dona Beja (HBO Max), essa calma manifesta-se em Angélica, uma personagem que habita o “desespero silencioso” e a contenção das emoções sob espartilhos e convenções do século XIX. Para Bianca, no entanto, a construção dessa angústia não é mecânica; é um mergulho sem rede de proteção. “Confio que esse movimento interno vai se revelar de forma orgânica”, diz ela. Essa entrega “corpo e alma” é a mesma que a leva ao limite no palco em JOB, onde interpreta uma curadora de conteúdo sitiada pelo lixo tóxico da internet. É uma maratona emocional que exige um equilíbrio delicado entre a intensidade do colapso e o controle da narrativa. Mas, ao contrário de outros tempos, Bianca agora sabe onde colocar o ponto final. “Hoje eu conto com algo muito importante: o meu próprio corpo, que sempre me sinaliza os limites. A diferença é que hoje eu escolho não ignorá-los mais.” Numa indústria que muitas vezes confunde engajamento com talento, a atriz escolheu o caminho da subtração. O seu distanciamento das redes sociais não é um capricho, mas uma estratégia de preservação da sua arte, e se o mundo ao redor parece exagerado e barulhento, Bianca encontra o seu eixo no silêncio de sua casa em Indaiatuba ou em Itu, cidade onde cresceu e que considera como sua terra natal. É esse “pé no chão” que a impede de se perder na exaustão que a indústria muitas vezes glamouriza. O futuro próximo, contudo, é de movimento. Entre a estreia de Meu Deus em São Paulo, onde divide a cena com o seu par na vida, Sergio Guizé, e novas incursões no cinema.

REVISTA REGIONAL: Bianca, você interpreta a Angélica em Dona Beja (HBO Max), uma personagem que tem um ‘desespero silencioso’ e exige muito mais do olhar e da contenção do que das grandes explosões dramáticas. Como foi o seu trabalho de microexpressão para que o público conseguisse ler essa angústia da personagem, mesmo quando ela precisa manter a postura rígida e impecável que a sociedade da época exigia dela?
BIANCA BIN: Para mim, o trabalho de criação e construção de personagem parte sempre do mesmo ponto: um exercício profundo de me colocar no lugar dessa outra mulher, me doando por inteiro, de corpo e alma. Eu não penso previamente em quais expressões vou usar. Prefiro me colocar nas circunstâncias da personagem e me permitir sentir o que ela sentiria, pensar como ela pensaria, e confiar que esse movimento interno vai se revelar de forma orgânica. No fundo, é um exercício de empatia aliado a um estudo muito cuidadoso do texto. A Angélica é uma mulher ferida, abandonada, que atravessou dores profundas, mas que também aprendeu a transformar essa dor em força e a usá-la a seu favor. Ela carrega um arco de libertação feminina muito potente, algo que admiro muito nas personagens que interpreto. Essa capacidade de transmutar sofrimento em potência me toca profundamente. Foi uma personagem instigante, que me levou a mergulhar em um universo até então novo para mim.
Já no teatro, em ‘JOB’, você interpreta uma curadora de conteúdo que precisa ‘limpar’ o lixo tóxico da internet, uma personagem que vive sob uma pressão psíquica brutal e constante. Como foi mergulhar na mente de alguém tão intoxicada pelo caos digital e quais recursos buscou para dar corpo a esse colapso nervoso que a peça propõe?
Eu sempre me apoio muito na dramaturgia, no texto. A Jane é, de fato, uma personagem extremamente complexa, que exigiu, e ainda exige, muito de mim. Dar corpo à história dela é quase como correr uma maratona emocional e física. Ainda bem que o espetáculo tem uma hora (risos). É uma personagem atravessada por um excesso de estímulos, por uma intoxicação constante, e isso pede um nível de entrega muito grande. O desafio foi justamente acessar esse estado de sobrecarga psíquica sem perder a precisão da narrativa, encontrando um equilíbrio entre intensidade e controle.
Recentemente, em uma entrevista, você comentou que habita o mundo das personagens com o corpo e com uma ‘radicalidade’ nas circunstâncias. Como você concilia essa entrega total, quase sem garantias, com o seu atual compromisso de não ultrapassar os limites da sua saúde física e mental?
Hoje eu conto com o apoio de uma equipe fundamental, minha agente, minha terapeuta, e também com algo muito importante: o meu próprio corpo, que sempre me sinaliza os limites. A diferença é que hoje eu escolho não ignorá-los mais. Tenho conseguido construir uma relação mais equilibrada e saudável com o meu trabalho e com os processos criativos. Isso tem sido transformador para mim e, naturalmente, reflete diretamente na minha saúde mental. É uma construção diária, mas muito necessária.

Em uma era onde o engajamento digital parece ser uma segunda jornada de trabalho para o ator, você optou por um caminho de preservação, mantendo sua vida e intimidade longe do ‘feed’ constante. Você acredita que esse distanciamento das redes sociais é, hoje, a sua principal ferramenta de manutenção da sanidade para conseguir mergulhar em personagens tão intensas sem se perder de si mesma?
Eu vejo as redes sociais como uma ferramenta de trabalho importante, principalmente para divulgar projetos. Mas, ao mesmo tempo, sinto necessidade de me preservar. Acredito que minhas personagens também dependem dessa discrição. Quanto menos eu apareço como pessoa, mais espaço elas têm para existir e convencer o público. Isso também tem muito a ver com a minha personalidade, que sempre foi mais reservada. Não é uma estratégia pensada, é uma soma de fatores, uma forma natural de me relacionar com a profissão e com a exposição.
Ainda falando sobre redes sociais, vivemos um tempo de insatisfação crônica com a própria imagem, potencializada pelos filtros e padrões inalcançáveis. Para você, que trabalha com o corpo e tem sua imagem projetada em alta definição para milhões de pessoas, como foi o processo de desconstruir a obrigação de ser ‘esteticamente perfeita’ para dar lugar a uma beleza que aceita o tempo, o cansaço e a verdade da pele? Ocupar esse lugar de aceitação é, para você, um ato político?
Sim, ocupar esse lugar é um ato político. E é um processo longo, contínuo, de desconstrução e conscientização. Somos fruto de uma sociedade que ainda carrega estruturas misóginas e machistas, que padronizam e objetificam os corpos. Eu luto pela não pasteurização da beleza. Somos únicas, nas nossas subjetividades e nos nossos corpos, e isso é algo muito bonito. É um caminho de descoberta, de olhar para si com mais verdade, sem se prender a padrões ou expectativas externas. A terapia tem um papel muito importante nesse processo, que é constante, de fortalecimento do amor próprio e de reconexão com a nossa essência.
Você comentou que o ritmo das novelas a levou a um limite físico e mental onde o ‘adoecimento’ se tornou o sinal de alerta. Hoje, ao estabelecer limites tão claros, de que maneira você precisou reeducar a sua mente para entender que o seu valor como artista não está atrelado à sua capacidade de suportar a exaustão?
Dizer, ouvir “não” e saber lidar com o “não” nunca foi, e provavelmente nunca será, algo simples. Existe uma dificuldade grande em não corresponder às expectativas alheias, em lidar com possíveis incompreensões e julgamentos. Mas hoje eu entendo que, ao priorizar minha saúde física e mental, estou fazendo uma escolha necessária. Como já disse outras vezes, eu assumo o peso de não agradar a todos, porque, no fim das contas, é comigo que essa conta fica. E isso muda completamente a perspectiva.

Sua trajetória recente tem sido um movimento em direção ao essencial, ao ‘menos é mais’ e à preservação da simplicidade. De que maneira as suas raízes aqui no Interior paulista (principalmente em Itu, onde cresceu, e em Indaiatuba, onde possui residência) ajudam a manter os seus pés no chão quando o mundo ao redor, e a própria indústria, parece exagerado e barulhento demais?
Eu gosto muito de uma música que diz: “tá perdido, volta pra base”. E essa frase sempre ecoou em mim de um jeito muito verdadeiro. O Interior, o pé no chão, a simplicidade, tudo isso não é só memória, é estrutura. É onde eu me reconheço. É a minha base. Admiro profundamente o Pepe Mujica e a forma como ele nos lembra que não compramos coisas com dinheiro, mas com o tempo de vida que gastamos para conquistá-las. Essa ideia me atravessa muito. Porque, no fundo, tudo se resume a isso: como escolhemos viver o nosso tempo. Existe uma beleza na sobriedade, no essencial, no que não nos aprisiona. O excesso, muitas vezes, nos afasta de nós mesmos, nos distrai daquilo que realmente importa. E, nos momentos em que me senti perdida, foi justamente para esse lugar que eu voltei: para a minha essência. Nunca fez tanto sentido. Reconectar-me com essas raízes é o que me devolve o eixo, o silêncio, o equilíbrio, especialmente em um mundo que, tantas vezes, é barulhento demais.
Pensando nos próximos projetos no qual você pretende se envolver ou lançar ainda este ano, o que você pode adiantar a respeito?
Estou em um momento muito ativo de criação. Em breve, estreio a peça Meu Deus, dirigida por Elias Andreato, no Teatro das Artes, em São Paulo, no dia 24 de julho. Dividir a cena com Sergio Guizé, meu amor, torna tudo ainda mais especial, temos uma troca muito verdadeira. Depois, sigo para um longa-metragem e, no segundo semestre, volto ao teatro no Rio de Janeiro com a comédia O Nome do Bebê. Atualmente, estou em cartaz com JOB, um suspense dirigido por Fernando Philbert, no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea, aos sábados e domingos durante o mês de maio. Tem sido um período de bastante movimento.

Entrevista: Ester Jacopetti
Fotos: @marciofariasfoto
Beleza: @makegonzovivi
Estilo: @paulozelenka
Locação: riocollections e @casaniemeyerrj




