Colecionar e trocar figurinhas tem afastado adultos, adolescentes e crianças das telas; atividade pode reduzir ansiedade e resgatar sociabilidade

Em uma rotina marcada por excesso de informações e hiperconectividade, um hábito aparentemente simples voltou a ganhar força no Brasil e tem provocado reflexões sobre saúde mental, convivência social e qualidade de vida: colecionar e trocar figurinhas da Copa do Mundo.
A cada edição do torneio, bancas de jornal, praças e shoppings se transformam em verdadeiros pontos de encontro. Crianças, adolescentes, pais, avós e até executivos dividem o mesmo objetivo: completar o álbum oficial da competição. Mas o que parece apenas uma tradição esportiva ou um passatempo infantil tem revelado efeitos importantes no bem-estar emocional e nas relações humanas. Especialistas apontam que o ato de colecionar envolve fatores psicológicos profundos ligados à memória afetiva, ao sentimento de pertencimento e à necessidade de desacelerar em um cotidiano dominado pelas telas.
A psiquiatra Renata Verna explica que atividades repetitivas e organizacionais, como separar, colar e procurar figurinhas, ajudam o cérebro a entrar em um estado de relaxamento mental. “O álbum funciona como uma atividade estruturada e previsível. Em um mundo cheio de estímulos e incertezas, tarefas simples e concretas geram sensação de segurança. Isso ajuda a reduzir sintomas de ansiedade e promove um estado de foco semelhante ao mindfulness”, afirma.
Segundo a especialista, completar páginas e encontrar figurinhas raras também ativa o sistema de recompensa cerebral, responsável pela liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de prazer e satisfação. “O cérebro entende pequenas conquistas como recompensas importantes. Abrir um pacote e encontrar justamente a figurinha procurada cria uma sensação imediata de felicidade e realização”, acrescenta.
O resgate da infância na vida adulta
Para além do entretenimento, o álbum da Copa desperta um elemento poderoso: a nostalgia. Muitos adultos voltam a colecionar décadas depois da infância, movidos pela lembrança das primeiras Copas assistidas em família, das trocas na escola e das tardes passadas organizando páginas coloridas.
O psicanalista Ricardo Mendes avalia que esse retorno às experiências afetivas funciona como uma espécie de refúgio emocional diante das pressões da vida adulta. “A nostalgia não é apenas saudade. Ela atua como mecanismo psíquico de reconexão com períodos da vida associados ao acolhimento, à leveza e à sensação de pertencimento. Em momentos de estresse coletivo, as pessoas tendem a buscar experiências emocionalmente familiares”, explica.
Segundo o especialista, o colecionismo também cria um raro espaço de pausa em uma sociedade acelerada. “Hoje vivemos em estado permanente de urgência. Tudo precisa ser rápido, produtivo e digital. O álbum rompe essa lógica porque exige tempo, presença e interação humana. Existe um valor simbólico muito forte no ato de sentar, conversar e trocar figurinhas pessoalmente”, diz.
Em tempos dominados por celulares e redes sociais, as rodas de troca têm chamado atenção justamente por promoverem encontros presenciais. Em diversas cidades brasileiras, inclusive na região, feiras de figurinhas passaram a reunir centenas de pessoas nos fins de semana. Pais acompanham filhos, amigos se reencontram e desconhecidos iniciam conversas espontaneamente. O ambiente favorece interação social fora do universo virtual, algo cada vez mais raro na vida contemporânea.
A psicóloga comportamental Denise Albuquerque afirma que esse contato direto tem impacto positivo na saúde emocional. “As redes sociais oferecem conexões rápidas, mas muitas vezes superficiais. Nas trocas presenciais existe olhar, conversa, negociação, cooperação e construção de vínculo. Isso fortalece habilidades sociais e reduz sensações de isolamento”, explica.
Ela destaca ainda que a atividade estimula tolerância à frustração e paciência, especialmente entre crianças e adolescentes. “Nem sempre a figurinha desejada aparece imediatamente. Existe espera, repetição e persistência. Isso ensina sobre processo e expectativa, algo importante em uma geração acostumada à recompensa instantânea.”
Hobby como ferramenta de equilíbrio emocional
Especialistas afirmam que hobbies simples têm ganhado importância justamente por ajudarem a equilibrar os impactos emocionais da rotina moderna. Atividades manuais e analógicas funcionam como pequenas pausas cognitivas em meio ao excesso de estímulos digitais. Para o neurologista André Siqueira, o cérebro humano não foi preparado para permanecer conectado o tempo inteiro. “O excesso de telas mantém a mente em estado contínuo de alerta e hiperestimulação. Hobbies como colecionar figurinhas oferecem um tipo diferente de atenção: mais lenta, focada e prazerosa. Isso reduz fadiga mental e melhora a sensação de bem-estar”, afirma.
Segundo ele, experiências táteis e presenciais também ativam áreas cerebrais relacionadas à memória afetiva e à construção emocional: “Existe um componente sensorial importante. Abrir o pacote, tocar as figurinhas, organizar o álbum. São estímulos físicos que ajudam o cérebro a desacelerar.”

Na região, Museu Fama entra no clima da Copa
O Museu Fama, em Itu, promove, a partir de maio, uma programação especial inspirada na Copa do Mundo. Intitulada “Fama na Copa”, a iniciativa contará com atividades gratuitas voltadas para crianças, famílias e apaixonados pelo esporte, sempre aos sábados, das 13h às 17h.
A abertura da programação aconteceu no sábado, 09 de maio, com a realização de um concurso de arte infantil. Os desenhos produzidos pelas crianças participantes foram transformados em estampas das camisetas utilizadas pelos colaboradores do Educativo do Museu Fama. No mesmo dia, o público também participou da tradicional troca de figurinhas da Copa.
Já a partir do dia 16 de maio, o projeto passa a contar também com oficinas de futebol de mesa (jogo de botão), campeonato de bafo, além de uma exposição especial de camisas históricas do futebol, reunindo peças que marcaram diferentes épocas do esporte.
As atividades acontecerão sempre aos sábados, com entrada gratuita. Aos domingos, a exposição de camisas seguirá aberta para visitação dos frequentadores do museu.
Como parte da experiência, o espaço contará ainda com a “Lanchonete da Copa”, oferecendo petiscos e opções gastronômicas para os visitantes aproveitarem o passeio em clima de torcida.
Segundo a direção do museu, a proposta é criar um ambiente de convivência, diversão e memória afetiva, aproximando o público do espaço cultural por meio da paixão nacional pelo futebol. “O futebol faz parte da cultura brasileira e desperta lembranças, emoções e conexões entre diferentes gerações. A ideia do ‘Fama na Copa’ é justamente transformar o museu em um espaço de encontro para famílias e visitantes durante esse período tão especial”, destaca Sandra Senamo, presidente do museu.
Instalado no histórico complexo da Fábrica São Pedro, em Itu, o Museu Fama vem ampliando suas ações culturais e educativas, promovendo experiências que unem arte, memória, patrimônio e temas presentes no cotidiano da população.
foto: Divulgação




