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Monique Alfradique: carreira, autenticidade e novos caminhos

Monique Alfradique cresceu diante das câmeras, mas nunca se deixou aprisionar pela imagem que o público conhecia desde os tempos de Paquita. Ao longo de mais de duas décadas, construiu uma trajetória sólida na TV, no teatro e em projetos que transitam entre o entretenimento e a reflexão social. Hoje, a atriz se afirma como uma voz feminina que busca autenticidade e liberdade em cada escolha. Em entrevista exclusiva à Revista Regional, Monique fala sobre carreira, feminismo e os desafios de se reinventar em uma indústria que ainda carrega padrões estéticos e desigualdades. “O feminismo me fez entender o quanto é importante ocupar espaços com a minha voz e, ao mesmo tempo, abrir caminho para outras mulheres”, afirma. Entre personagens intensos, projetos que a tiram da zona de conforto e reflexões sobre relacionamentos e liberdade afetiva, ela mostra que sua arte é também um manifesto de coragem e transformação.

Monique Alfradique em ensaio

REVISTA REGIONAL: Você começou como Paquita e construiu uma carreira sólida na TV e no teatro. Olhando para trás, qual foi o momento mais decisivo para se afirmar como atriz?

MONIQUE ALFRADIQUE: Acho que o momento mais decisivo foi quando comecei a conquistar personagens que mostravam outras facetas minhas, além daquela imagem da menina que o público conhecia desde a época de Paquita. Foi um processo de amadurecimento, de provar para mim mesma e para o mercado que eu era uma atriz pronta para desafios diferentes. O teatro também teve um papel fundamental nessa virada.

Em entrevistas, você já comentou sobre cobranças estéticas no início da carreira. Como enxerga hoje a relação entre padrões de beleza e a liberdade artística?

Eu acho que a maturidade e o tempo de carreira me trouxeram uma visão muito mais leve sobre isso. No início, é natural querer se encaixar em certos padrões, principalmente quando você está começando e ainda buscando o seu espaço. Mas com o tempo, percebi que a verdadeira força de um artista está justamente na autenticidade, em mostrar quem você é, com suas características únicas. Hoje, vejo uma transformação acontecendo na indústria, com mais espaço para diferentes corpos, idades e expressões. Isso é libertador, porque amplia as possibilidades criativas e nos permite contar histórias mais diversas e reais. A beleza está na verdade do que a gente transmite, e não em atender a um ideal que não representa todo mundo.

Você transita entre novelas, séries, teatro e até reality shows. O que cada formato te ensina e como você escolhe seus projetos?

Cada formato me ensina algo muito específico e precioso. A novela me dá ritmo, disciplina e a oportunidade de mergulhar em personagens que o público acompanha por meses. O teatro é o lugar da entrega total, da presença, onde o público devolve a energia em tempo real, é sempre transformador. Já os realities e programas de entretenimento, como o Crush Animal do Multishow e Beach Life do canal E!, me conectam com o público de um jeito mais espontâneo, leve e verdadeiro. Na hora de escolher um projeto, o que mais pesa é o propósito. Eu busco histórias ou experiências que me provoquem, que tragam algo novo, que me façam crescer como artista e como pessoa. Gosto de sair da zona de conforto, de experimentar. Acho que é isso que mantém a chama acesa depois de tantos anos de carreira.

Como o feminismo influencia suas escolhas pessoais e profissionais?

O feminismo me trouxe consciência e coragem. Ele me fez entender o quanto é importante ocupar espaços com a minha voz e, ao mesmo tempo, abrir caminho para outras mulheres. Busco trabalhar com pessoas e histórias que valorizem a mulher de maneira plural, que mostrem nossa força, vulnerabilidade, inteligência e sensibilidade. E, no pessoal, o feminismo me ensinou a ser mais gentil comigo mesma, a não me cobrar perfeição e a reconhecer o valor das minhas conquistas.

Monique está atualmente na novela das 18h

Muitas atrizes relatam que ainda enfrentam desigualdade de oportunidades. Você sente que o mercado audiovisual brasileiro está mudando nesse sentido?

Eu acredito que estamos, sim, em um processo de mudança, e isso é muito animador. Ainda existem desigualdades, principalmente quando falamos de representatividade e protagonismo feminino nos bastidores, mas vejo avanços concretos. Um exemplo disso é o Crush Animal, programa que apresento e sou coprodutora: temos uma equipe de direção e produção formada majoritariamente por mulheres. Dividir a criação com Andrea Batitucci e a talentosa Carol Durão é uma experiência muito enriquecedora. Isso faz toda a diferença no olhar, na sensibilidade e até na forma como o ambiente de trabalho se constrói. Ver mulheres comandando, decidindo e criando é inspirador e mostra que o mercado está, aos poucos, se transformando. O público também está mais atento e quer ver essas mudanças refletidas nas telas. Ainda há um caminho a percorrer, mas é bonito perceber que estamos construindo um audiovisual mais equilibrado, diverso e com espaço real para todas as vozes.

Recentemente você comentou sobre monogamia e relacionamentos. Como essas reflexões dialogam com o movimento de mulheres que buscam mais liberdade afetiva?

Acredito que estamos vivendo um momento muito interessante, em que as mulheres estão questionando estruturas que antes pareciam imutáveis, e isso inclui a forma como amamos e nos relacionamos. Quando falo sobre monogamia, não é no sentido de defender ou criticar um modelo, mas de pensar sobre o que realmente faz sentido para cada um, sem culpa e sem imposições sociais. Essa liberdade de escolha é o ponto mais importante. Como mulher, acho libertador poder refletir e falar abertamente sobre temas afetivos com maturidade e respeito. O amor precisa vir de um lugar de verdade, não de obediência a padrões.

A Tamires de “Eta Mundo Melhor” é uma personagem que traz dilemas contemporâneos. Quais aspectos dela mais se conectam com você pessoalmente?

A Tamires é uma mulher intensa, que vive seus sentimentos com coragem e autenticidade. Acho que me identifico muito com essa entrega e com o desejo dela de se afirmar, de encontrar seu lugar no mundo sem abrir mão da sua essência. Ela é sedutora, mas também tem um lado emocional forte e complexo, e isso me encanta, porque mostra que as mulheres não cabem em uma única definição. Trazer essa profundidade para uma novela de época, com uma linguagem popular, é um desafio delicioso como atriz.

A novela discute temas como relacionamentos e escolhas de vida. Que mensagem você acredita que Tamires transmite ao público feminino?

A Tamires mostra que toda mulher tem o direito de se reinventar. Ela comete erros, se apaixona, sofre, mas nunca deixa de buscar a própria felicidade. E acho que essa é a grande mensagem: a de que não existe um caminho único, que a vida é feita de escolhas e que se permitir recomeçar é um ato de coragem. Espero que o público se veja nela, com suas contradições e forças, e sinta que é possível ser dona da própria história.

Você também é presença marcante no Carnaval, como musa da escola Grande Rio. Como essa vivência cultural influencia sua identidade artística?

Hoje eu não sou mais musa da Grande Rio, mas a escola sempre terá um lugar muito especial no meu coração! Foram anos desfilando com muita paixão e energia, e essa conexão com a escola e com o Carnaval é algo que levo comigo. Minha paixão pela celebração começou muito cedo. Minha mãe me levava aos bailes infantis e minha avó, que era costureira, todo ano fazia uma fantasia diferente para mim. Então, o som da bateria, as luzes da Apoteose, a energia de toda a comunidade e a alegria das pessoas na avenida são lembranças que guardo com muito carinho no meu coração. Artisticamente, o Carnaval me inspira profundamente: me ensina sobre entrega, coletividade, liberdade e intensidade, valores que levo para todos os meus personagens e projetos.

Ensaio especial com a atriz

O público jovem te acompanha tanto na TV quanto nas redes sociais. Como você equilibra a imagem pública com sua vida pessoal?

Com o tempo, aprendi a entender os limites do que quero compartilhar. Gosto de mostrar meu trabalho, meus bastidores, momentos de alegria, mas também preservar o que é só meu. Esse equilíbrio é essencial para manter a saúde mental e emocional. As redes sociais são uma ferramenta poderosa, e eu gosto de usá-las de forma positiva, leve e inspiradora. Mas também acredito que a vida real, longe das câmeras, é o que sustenta tudo, é onde eu recarrego minhas energias e me conecto com o que realmente importa.

Qual é o papel da arte, na sua visão, para ampliar debates sobre feminismo e diversidade no Brasil?

A arte tem um poder transformador enorme. Ela toca, provoca e cria empatia, e é justamente por isso que é uma ferramenta tão importante para ampliar esses debates. Quando uma mulher se vê representada na tela, no palco ou em uma música, algo muda dentro dela. Eu acredito que a arte tem o papel de abrir diálogos, de questionar padrões e de mostrar novas perspectivas. E quanto mais diversa for essa arte, em quem a faz e em quem ela representa, mais rica será a transformação que ela pode causar na sociedade.

 

entrevista e texto: Ester Jacopetti

foto: Karollayne Mendes

stylist: Thiago Setra

make: Marco Montenegro

 

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