“A atuação é um exercício de empatia constante”, diz a atriz nessa entrevista exclusiva à Revista Regional

Flávia Alessandra está em cena há três décadas, mas é agora, aos 50 anos, que ela vive o que chama de “fase da escolha”. Em entrevista exclusiva à Revista Regional, a atriz fala sobre o retorno à personagem Sandra, da novela “Eta Mundo Melhor” (TV Globo), e revela como essa revisita se tornou um espelho de sua própria evolução. “Retomar esse papel tantos anos depois, em uma nova fase da vida e da carreira, é como olhar no espelho e enxergar tudo o que evoluí, como mulher, como artista e como ser humano”, diz com a serenidade de quem já percorreu muitos caminhos e hoje escolhe com propósito. A maturidade profissional lhe trouxe um novo tipo de sucesso, aquele que não se mede em números, mas em liberdade. “Escolher o que me faz sentido, o que me emociona, o que me acrescenta… Poder olhar para uma proposta e dizer ‘sim’ porque acredito nela, e não porque preciso, é uma das maiores conquistas da minha vida”, afirma. E é com esse olhar que Flávia revisita Sandra: não como uma repetição, mas como uma nova camada de si mesma. Ao longo da conversa, ela compartilha como a arte moldou sua visão de mundo e sua capacidade de empatia. “A atuação é um exercício de empatia constante”, reflete. “A arte me ensinou a olhar o outro com menos julgamento.” E é nesse mesmo terreno sensível que ela construiu sua jornada como mãe, mulher e artista. “Hoje, tudo isso se mistura… e eu tento viver esse equilíbrio com o máximo de presença possível.” Flávia Alessandra não está apenas revivendo uma personagem, está celebrando a mulher que se tornou. E, como ela mesma diz, “a arte tem esse poder de nos transformar”.
REVISTA REGIONAL: Recentemente, em uma live, você mencionou que a continuação da novela “Eta Mundo Melhor” a fez refletir sobre a evolução da sua arte. Como essa revisita ao seu trabalho de alguns anos atrás te inspira a planejar os próximos passos na sua carreira?
FLÁVIA ALESSANDRA: Voltar a viver a Sandra agora, em Eta Mundo Melhor, tem sido um exercício muito bonito de revisitar o passado com novos olhos. A Sandra foi uma personagem muito marcante na minha trajetória, cheia de nuances. Retomar esse papel tantos anos depois, em uma nova fase da vida e da carreira, é como olhar no espelho e enxergar tudo o que evoluí, como mulher, como artista e como ser humano. A arte tem esse poder de nos transformar, e eu sinto que estou vivendo um momento de grande amadurecimento criativo. O mais interessante é que eu vejo a própria Sandra também tendo essa evolução.

Além da TV, você tem explorado outras plataformas. Como a experiência de se comunicar com o público através das redes sociais e de projetos digitais se diferencia da sua relação com o público da televisão?
Na TV, há uma mediação, um texto, uma personagem, um contexto ficcional. Já nas redes, é a Flávia de verdade que aparece, com suas reflexões, seus erros e acertos, seus rituais de vida. É uma troca muito direta, muito humana. Eu adoro esse diálogo mais espontâneo, que me aproxima das pessoas e me permite mostrar outras facetas, além da atriz. E os projetos digitais, como o Meu Ritual, vieram dessa vontade de compartilhar experiências reais, de falar sobre bem-estar, saúde mental, longevidade, tudo com propósito e verdade. Também tem o lado de trabalho, como o Lia E Léo (minha série com o Otaviano em parceria com o UOL) e o Só Se Fala (pílulas que postava comentando diversos assuntos).
Com 30 anos de carreira e um vasto leque de personagens, você tem uma bagagem de vivências que poucos artistas acumulam. Aos 50 anos, a maturidade profissional e a liberdade de poder escolher projetos que realmente te interessam se tornaram um novo tipo de sucesso?
Com certeza. A maturidade traz uma serenidade muito bonita. Eu já vivi muitas fases: a da descoberta, a da afirmação, a da busca… Hoje, vivo a fase da escolha. Escolher o que me faz sentido, o que me emociona, o que me acrescenta. Poder olhar para uma proposta e dizer “sim” porque acredito nela, e não porque preciso, é uma das maiores conquistas da minha vida. Isso é sucesso pra mim hoje.
A arte de atuar é, em grande parte, a arte de se observar e observar o outro. Como a sua jornada como atriz, navegando entre mocinhas e vilãs, moldou a sua visão de mundo e a sua capacidade de empatia e compreensão das complexidades da vida real?
A arte me ensinou a olhar o outro com menos julgamento. Quando você se propõe a viver tantas mulheres diferentes, com histórias e motivações tão diversas, inevitavelmente passa a enxergar a humanidade em cada uma delas e, consequentemente, nas pessoas ao seu redor. A atuação é um exercício de empatia constante. E talvez por isso eu seja uma pessoa mais aberta, mais curiosa e mais compreensiva com as diferenças.

Você mencionou em entrevistas que a maternidade e a carreira são um tripé que te guia. Qual foi o papel da arte na sua própria jornada de autoconhecimento e na construção da mulher, da mãe e da artista que você é hoje?
A arte foi e continua sendo uma grande aliada nesse processo. Ela me permite acessar emoções, revisitar memórias e me conectar com partes de mim que talvez eu nem conhecesse se não fosse o ofício de atuar. A maternidade, por sua vez, me trouxe outra perspectiva: o tempo, o cuidado, a escuta. Hoje, tudo isso se mistura, a Flávia mãe, a Flávia artista, a Flávia empresária, a Flávia mulher… E eu tento viver esse equilíbrio com o máximo de presença possível.
O “Pé No Sofá Pod” e o “Meu Ritual” mostram um lado seu como apresentadora e produtora de conteúdo. Qual a maior diferença entre atuar em uma novela, com um roteiro e uma personagem definidos, e comandar um podcast, onde a espontaneidade e a conversa são a principal matéria-prima?
É uma delícia poder ser eu mesma, sem personagem. No podcast, eu posso ouvir, aprender e trocar de verdade. É um espaço de diálogo genuíno, de curiosidade. Já na novela, existe a magia da ficção, da construção de um universo inteiro. São experiências muito diferentes, mas que se complementam. Uma alimenta a outra: a atriz aprende com a comunicadora, e vice-versa. Vale mencionar que no podcast temos pesquisa do nosso convidado, um roteiro que é da Mari Faria, que serve de guia nosso, por vezes a gente acaba fugindo completamente desse roteiro, porque a conversa leva para um outro lugar e ela entende, mas não é algo solto. Não é no improviso, tem uma produção de várias pessoas. Tenho todo um cuidado, uma reunião de escolha dos nossos convidados, depois pesquisa em torno dos nossos convidados para roteiro, e, finalmente, um roteiro final, que serve muito de guia pra gente.

Você tem uma legião de seguidores que acompanham a sua vida e carreira. Com seus novos projetos, como o “Meu Ritual”, você se tornou uma referência em bem-estar e autocuidado. Como você lida com a responsabilidade de ser uma inspiração para tantas pessoas e como esse papel te motiva a continuar criando conteúdo autêntico?
Eu recebo muitas mensagens lindas, de pessoas que mudaram hábitos, que começaram a se cuidar mais, que se inspiraram em algo que eu compartilhei, e isso me emociona profundamente. É uma responsabilidade, sim, mas é também uma grande alegria. Porque o Meu Ritual não é sobre perfeição, é sobre processo, sobre a beleza da constância e da autenticidade. Eu acredito muito na força do exemplo real, e é isso que me move: inspirar a partir do que é verdadeiro.
entrevista: Ester Jacopetti
fotos: Felipe Censi




