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A expansão luminosa de Lucy Ramos

Atriz caminha com a sabedoria de quem aprendeu a honrar cada ciclo, com a beleza de abraçar o tempo, a maternidade e os próprios desejos

Aos 43 anos e vivendo uma fase de expansão luminosa, Lucy Ramos atravessa o tempo com a sabedoria de quem aprendeu a honrar cada ciclo. No ar como a solar e emocionante Juli, na novela das sete “Por Você”, da TV Globo, a atriz empresta sua humanidade a uma mulher preta, mãe solo e periférica que transforma a própria existência em poesia visual. Fora das telas, o momento é igualmente mágico: grávida pela segunda vez e prestes a completar duas décadas ao lado do companheiro Thiago Luciano, ela celebra as dores e as doçuras de uma gestação inesperada e natural, desafiando a medicina e abraçando a fluidez da vida. Em um papo franco e visceral com a Revista Regional, Lucy abre o coração sobre o amadurecimento sem filtros, a quebra de estereótipos na TV brasileira, o desejo de viver vilãs marcantes e a beleza transformadora de encarar o futuro com leveza, fé e o pé no chão.

REVISTA REGIONAL: É muito comum que mulheres fortes sejam retratadas de forma unidimensional no audiovisual, mas suas escolhas em cena costumam trazer muita humanidade e vulnerabilidade. Para além da força e da dedicação da Juli, quais camadas sutis dessa personagem, como as dúvidas, os medos ou os afetos, mais se conectam com a Lucy mulher de hoje?

LUCY RAMOS: A Juli realmente é uma personagem que eu já estava querendo faz um tempinho. Essa mulher forte, que passa por determinadas situações na vida, mas que tem que seguir. Não tem outra escolha, não tem uma opção. E é muito próximo da realidade que eu vivo, da que minha mãe viveu e assim nos ensinou: enxergar a vida e encarar as dificuldades de forma positiva, aprendendo com cada situação. A Juli tinha o sonho de casar e ter muitos filhos. O casamento não deu certo, mas ela teve os filhos que queria, e essa era a sua bênção. Mesmo diante de todas as dificuldades, leva a vida com muita positividade. Fazer uma personagem em que eu possa representar essas mulheres e que elas possam assistir à Juli e falar assim: “É isso, vambora. Mais um dia. Vambora, vamos vencer, vamos”, é muito valioso.

Em entrevistas recentes, você mencionou que as aparições da Juli carregam uma “poesia leve e solar”, quase como um legado de positividade que permaneceu após sua partida. Como a preparação para dar corpo a essa presença sutil e quase espiritual influenciou a sua própria percepção sobre finitude e vida após a morte?

Tem esse momento da Juli de poesia, dessa leveza. Foi tudo construído de uma forma muito sutil, muito amorosa, muito delicada. Todas as vezes que ela aparece, ela está com um vestido amarelo, bem solar. Quando você leva uma personagem para a tela, é um trabalho de toda uma equipe. A figurinista trouxe a ideia do vestido amarelo nesse contexto. E meses depois veio a cor predominante do logo da novela: o amarelo. Era tudo se conectando, já que a partida da Juli é o ponto de partida para começar a história da Bela. A partir daí, temos a Juli com toda a sua poesia, aparecendo em momentos de luz, em determinadas situações. É uma coisa em que eu acredito muito na vida, sabe? Que não é só aqui. O que a gente faz aqui dura em outras encarnações.

Ao longo das suas duas décadas de carreira, o audiovisual brasileiro mudou bastante principalmente na forma como retrata mulheres negras. Como é para você, hoje, ocupar um lugar de protagonismo e ter a autonomia de escolher papéis que fogem dos estereótipos que por muito tempo tentaram limitar atrizes da sua geração?

Quando eu cheguei nessa profissão, os personagens que eram oferecidos ficavam dentro de todos os estereótipos da mulher preta. E era o que a gente tinha e tinha que agarrar e ser grata pela oportunidade. Hoje, as coisas mudaram, temos melhores espaços, com personagens que fogem desses estereótipos. Entenda: é muito digno fazer uma faxineira, é muito digno dar vida a certos personagens que, na vida, em sua grande maioria, são exercidos por pessoas pretas. O problema não é dar vida a determinada profissão, mas de que forma ela é contada e inserida dentro daquela trama. Qual é o grau de importância. A Juli é uma mulher de uma condição simples. É uma mulher preta, mãe solo, da comunidade e que tem quatro filhos. É a realidade de muitas brasileiras. E eu estou superfeliz em dar vida a ela, que é protagonista da sua própria história, é tratada de uma maneira positiva e tem uma grande importância no enredo da trama.

Você construiu uma trajetória muito sólida na TV, mas transita com muita elegância por diferentes formatos e narrativas. Olhando para além do trabalho atual, quais novos caminhos, linguagens ou projetos, seja no cinema, no streaming ou até no teatro, têm instigado o seu desejo de criação no momento?

Chegar e fazer o primeiro trabalho dá uma certa dificuldade, mas você chega e faz. O negócio é continuar. Em todo trabalho que eu faço, eu realmente sou grata e levo tudo com muito propósito, profissionalismo e respeito pela profissão. Eu tenho alguns anseios ainda. A Juli é uma personagem que eu queria há um tempo. Eu faço muitas personagens elegantes e sofisticadas, que eu amo, mas queria muito dar vida a essa mulher mais simples, mostrando o lado bem humano dela. E quero outras coisas também. No meu último trabalho, consegui fazer um pouquinho de uma vilã, que foi a Paulina, e quero vir com outras vilãs também. Quero ir para os streamings e quero fazer muita coisa. Tem muita lenha para queimar e muitas personagens para dar vida.

Você e o Thiago dividem não apenas a vida, mas também um olhar muito sensível para a arte. Como funciona a dinâmica de troca criativa entre vocês quando estão envolvidos em projetos diferentes? O repertório um do outro costuma influenciar na composição dos seus personagens?

Eu e o Thiago temos uma vida juntos que vai completar 20 anos, e a gente produz bastante coisa junta. Inclusive, estamos para lançar um filme independente que fizemos, em que dou vida à minha primeira protagonista no cinema. A gente faz muitos projetos profissionais juntos e ele também me auxilia na atuação na novela. Quando preciso bater alguma cena, passar texto, discutir alguma questão, conversar ou dialogar, ele está ali sempre somando.

Em suas redes e conversas sobre beleza, você sempre defende uma relação muito natural com o próprio corpo e com o envelhecimento. Em uma indústria que ainda cultiva a obsessão pela juventude, qual tem sido o seu maior ato de resistência na construção da sua autoestima?

Eu procuro passar nas redes sociais algo bem real, bem genuíno da vida. Quando eu engravidei da Kyara, levei a gestação para as redes de uma forma muito crua e honesta, mostrando as belezas e as dificuldades, que são muitas, né? Que eu passei e passo até hoje. Eu acredito nessa comunicação. E com a beleza é a mesma coisa: o menos é mais. É claro que a gente quer uma coisinha melhor aqui, outra coisinha ali, mas tudo no equilíbrio. Para mim, a autoestima e a beleza vêm do autoconhecimento.

Você tem falado abertamente sobre o desejo de viver a maternidade e sobre como o tempo e os ciclos da vida ganham novos significados depois dos 40. Ao olhar para a sua trajetória até aqui, como você equilibra a urgência de realizar desejos pessoais com a maturidade de deixar a vida fluir no seu próprio ritmo?

Imagina, fui mãe aos 42 e agora, quando a minha pequena nascer, vou estar com 44. A maternidade traz muita transformação no corpo e no psicológico, e o amadurecimento te ajuda a passar por essa fase com mais leveza. E, junto com isso, vem o lado profissional, vem o peso da idade, querendo ou não. Por mais que você comemore o fato de estar sendo mãe agora, em um momento em que tem uma certa maturidade, estar casada há bastante tempo, já ter vivido muitas coisas, já ter viajado, já ter construído uma vida, ter uma situação financeira agradável, de certa maneira, eu me pego em vários momentos fazendo contas. Quando eu tiver certa idade, minhas filhas vão ter tal idade. Quando elas estiverem realizando tal coisa, eu vou ter tal idade. E isso também é uma forma de você equilibrar os seus pensamentos. Então, você se cobra cada vez mais para ter uma qualidade de vida, fazer exercício, se alimentar bem, ter uma cabeça boa, porque isso é o equilíbrio para a saúde.

Você vive um momento de plenitude luminosa, grávida da sua segunda filha e esbanjando uma energia vital muito bonita. Gerar uma nova vida enquanto se amadurece como mulher e artista costuma redefinir prioridades e percepções. Como essa nova gestação tem transformado a sua relação com o tempo, com o seu corpo e com a sua própria intuição?

Que bonita essa pergunta. Eu já passei por tantas coisas, sabe? Tantas coisas boas, pelas quais eu só tenho que agradecer, e tantas coisas também que me colocaram à prova. Mas tudo foi válido para me tornar a pessoa que sou hoje. Eu vejo o ser humano com um olhar amoroso e carinhoso, trabalho isso diariamente. Isso me traz paz.

A chegada da sua segunda filha acontece em um intervalo de tempo muito bonito em relação ao nascimento da Kyara. Essa escolha de vivenciar duas gestações em um ritmo tão próximo, permitindo que elas cresçam juntas, dividindo a mesma fase de descobertas e a mesma linguagem de vida, foi algo intencionalmente planejado por você? Como você vislumbra a construção dessa cumplicidade e desse afeto de irmãs com idades tão parecidas?

Olha, não foi pensado, tá? Não foi planejado. Porque, inicialmente, pela medicina, por tudo o que foi dito, a gente nem poderia ter a Kyara naturalmente, e sim que a gente teria que fazer uma ovodoação. Eu sou muito conectada com algo a mais, com um ser superior. Eu deixei na mão dele. E, se tivesse que ser, iria acontecer. E a Kyara está aqui com a gente já há um ano e meio. E aí aconteceu novamente. A Kyara é a única bebezinha da família e ama crianças. A gente está amando toda a ideia, toda essa fluidez. Que ela venha com muita saúde. O ser divino sabe das coisas, e a gente só agradece e recebe com muito amor.

ENTREVISTA E TEXTO: Ester Jacopetti

FOTOS: Gabriel Bertoncel / stylist: Sarah Schulz / beauty: Walter Lobato

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