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Vera Fischer exclusiva: ‘Envelhecer não é desaparecer, é se aprofundar!’

Vera em ensaio especial

Nessa edição especial da Revista Regional, Vera Fischer abre sua trajetória em uma entrevista exclusiva marcada por lucidez e força. Aos 74 anos, a atriz reflete sobre carreira, envelhecimento e novos projetos, reafirmando sua presença como uma das grandes vozes da cultura brasileira. “Envelhecer não é desaparecer, é se aprofundar. Eu sou a prova viva de que isso não faz sentido”, afirma, ao destacar que maturidade traz potência e não perda. Ao longo da conversa, Vera relembra também que acompanhou de perto as lutas das mulheres no país, como a aprovação do divórcio nos anos 1970 e o fortalecimento das pautas de igualdade no mercado de trabalho. “Nada veio sem luta, mas cada avanço coletivo fortaleceu também o meu caminho individual”, diz. Para ela, essas conquistas abriram espaço para decisões mais livres e para a construção de uma carreira sem abrir mão da própria individualidade, enfrentando julgamentos, mas afirmando quem queria ser. Entre os temas abordados, a atriz fala sobre os desafios enfrentados por mulheres maduras no mercado de trabalho, o preconceito silencioso que insiste em associar idade à irrelevância e a importância de se reinventar. “Manter-se ativa exige coragem para aprender coisas novas e autoestima para não pedir licença para existir”, afirma. Vera ressalta o papel do diálogo sobre envelhecimento como ferramenta de transformação social: “O silêncio sempre alimentou os estigmas. Quando a gente coloca o tema na mesa, mostramos que envelhecer não é fracasso, é conquista.” Com projetos como o seriado Eternas, ao lado de Alcione, Zezé Motta e Beth Faria, e a comédia Velhos Bandidos, em parceria com Fernanda Montenegro e Ary Fontoura, Vera Fischer celebra um momento de escolhas conscientes e protagonismo: “Hoje eu sei exatamente o que quero fazer, com quem quero trabalhar e o que faz sentido para mim”.

 

REVISTA REGIONAL: Na entrevista que você concedeu a Elle, comentando sobre realizar palestras voltadas para mulheres, que mensagem considera mais importante compartilhar com elas sobre envelhecer, manter o bem-estar e seguir ativa profissionalmente?

VERA FISCHER: A mensagem mais importante que eu gosto de compartilhar é que envelhecer não é desaparecer, é se aprofundar. A gente vive numa sociedade que ainda tenta impor prazos para a mulher: prazo para ser bonita, desejável, ativa, relevante. Eu sou a prova viva de que isso não faz sentido. Cuidar do bem-estar é um gesto de amor próprio, não de vaidade. É sobre escutar o corpo, respeitar o ritmo, manter a curiosidade e a vontade de aprender. Eu nunca acreditei em fórmulas milagrosas. Acredito em presença, em disciplina emocional e em continuar em movimento, por dentro e por fora. E seguir ativa profissionalmente, para mim, é uma escolha de liberdade. Enquanto eu tiver desejo, saúde e algo a dizer, eu sigo trabalhando. O trabalho nos mantém conectadas com o mundo, com outras gerações e, principalmente, com quem a gente é de verdade. A maturidade traz uma força silenciosa, e quando a mulher entende isso, ela se torna imparável.

 

Na sua visão, quais são os maiores desafios que mulheres maduras enfrentam para se manterem ativas e reconhecidas no mercado de trabalho?

Acho que o maior desafio ainda é o olhar enviesado da sociedade. Existe um preconceito silencioso que tenta associar maturidade à perda, de energia, de criatividade, de relevância. Para as mulheres, isso é ainda mais cruel, porque durante muito tempo fomos valorizadas apenas pela aparência, e não pelo repertório que acumulamos ao longo da vida. Outro desafio é a falta de espaço real para mulheres maduras ocuparem posições de protagonismo. Muitas vezes, somos convidadas a sair de cena justamente quando estamos mais preparadas, mais seguras e mais conscientes do nosso valor. É um contrassenso enorme. Também existe o desafio interno, que é não se deixar contaminar por essa narrativa. Manter-se ativa exige coragem para se reinventar, curiosidade para aprender coisas novas, inclusive tecnologia, e autoestima para não pedir licença para existir. Quando a mulher madura entende que experiência é potência, e não peso, ela passa a ocupar o espaço que sempre foi dela por direito.

 

De que forma o diálogo sobre envelhecimento pode ajudar a quebrar estigmas e abrir espaço para mais acolhimento e representatividade?

Falar sobre envelhecimento é um ato de coragem e de liberdade. O silêncio sempre alimentou os estigmas, porque aquilo que não é dito vira tabu. Quando a gente coloca o tema na mesa, com honestidade e sem medo, mostramos que envelhecer não é um fracasso, é uma conquista. O diálogo humaniza. Ele tira a mulher madura do lugar da caricatura e a coloca no lugar da experiência real, com desejos, dúvidas, projetos e vitalidade. Quanto mais histórias verdadeiras são compartilhadas, mais espaço se abre para identificação, acolhimento e respeito. Representatividade nasce quando as pessoas se veem refletidas. Quando uma mulher de 60, 70 ou mais fala abertamente sobre sua trajetória, ela autoriza outras a existirem sem culpa, sem vergonha e sem a obrigação de corresponder a padrões irreais. Envelhecer com voz é um gesto político, afetivo e transformador.

Vera em ensaio especial

Quais cuidados pessoais você considera indispensáveis para atravessar essa etapa com saúde e bem-estar?

Eu acredito muito em cuidados simples, constantes e verdadeiros. O primeiro deles é escutar o próprio corpo, ele sempre avisa quando algo não vai bem. Respeitar os limites, dormir bem, se alimentar com equilíbrio e manter algum tipo de movimento no dia a dia fazem uma diferença enorme. Também cuido muito da minha saúde emocional. Escolher bem as batalhas, preservar a paz, estar perto de quem soma e aprender a dizer “não” são formas poderosas de autocuidado. O bem-estar não está só no físico; ele começa na cabeça e no coração. E existe um cuidado fundamental que, para mim, é indispensável: manter o prazer pela vida. Ter curiosidade, rir, se interessar pelo novo, continuar trabalhando, criando, trocando. Quando a gente cuida da mente, do corpo e da alegria de viver, o tempo deixa de ser um inimigo e passa a ser um aliado.

 

O projeto Eternas reúne grandes nomes da cultura brasileira. O que significa para você estar ao lado de artistas como Alcione, Zezé Motta e Beth Faria nesse seriado?

Estar no Eternas ao lado de mulheres como Alcione, Zezé Motta, Beth Faria, e de tantas outras artistas que ajudaram a construir a cultura brasileira, é profundamente simbólico. Somos mulheres que atravessaram décadas, mudanças, desafios e transformações sem abrir mão da nossa verdade. Esse projeto é um encontro de trajetórias, mas também de forças. Cada uma carrega uma história única, e juntas mostramos que o tempo não nos diminuiu, ele nos fortaleceu. Existe muito afeto, respeito e reconhecimento mútuo entre nós, e isso transparece.

 

Como você enxerga a importância de iniciativas como Eternas para valorizar trajetórias femininas e eternizar histórias de mulheres que marcaram gerações?

Iniciativas como Eternas são fundamentais porque elas corrigem um apagamento histórico. Durante muito tempo, as trajetórias femininas foram celebradas por um período curto e depois colocadas de lado, como se o impacto dessas mulheres tivesse data de validade. Eternas faz justamente o contrário: reconhece, valoriza e preserva.

 

Estar no cinema, em uma comédia como Velhos Bandidos, trouxe para você algum desafio específico? Você se sente mais confortável nesse gênero e como foi dividir a cena com amigos tão importantes como Fernanda Montenegro e Ary Fontoura?

Toda comédia é um desafio, porque ela exige precisão. O tempo da piada, o ritmo, o olhar, o silêncio, tudo precisa estar muito afinado para funcionar. Velhos Bandidos trouxe esse desafio delicioso: fazer rir sem perder a verdade do personagem, sem cair no exagero fácil. Dividir a cena com Fernanda Montenegro e Ary Fontoura foi um privilégio imenso. São amigos, mestres e referências. Existe uma escuta muito profunda ali, um respeito pelo tempo do outro e uma entrega rara. Eu e a Fernanda já nos encontramos outras vezes ao longo da vida, em diferentes momentos da nossa trajetória, e sempre foi especial. Cada reencontro carrega uma memória, uma cumplicidade construída no respeito e na admiração mútua. São trocas silenciosas, de olhar, de escuta, de entrega à cena. Trabalhar novamente com ela é perceber como o tempo aprofunda a sensibilidade e torna tudo ainda mais verdadeiro. A Fernanda tem essa grandeza rara, que eleva o trabalho de quem está ao lado, e estar com ela em cena é sempre um aprendizado.

Vera em ensaio especial

 

De que forma esses novos projetos refletem o momento atual da sua carreira e da sua vida pessoal?

Esses novos projetos refletem um momento de muita lucidez e escolha. Hoje eu sei exatamente o que quero fazer, com quem quero trabalhar e o que faz sentido para mim. Na minha vida pessoal, isso também se traduz em mais leveza. Aprendi a respeitar meu tempo, a cuidar melhor de mim e a valorizar o silêncio tanto quanto a ação. Trabalho e vida caminham juntos, de forma mais integrada e verdadeira. Sinto que estou numa fase em que a experiência virou aliada.

 

Ao longo da sua vida, você acompanhou marcos importantes da luta feminista, como a conquista do direito ao divórcio no Brasil nos anos 1970 e, mais recentemente, o fortalecimento das pautas de igualdade no mercado de trabalho. Como enxerga essa evolução e de que forma essas mudanças impactaram sua trajetória pessoal e profissional?

Eu tive o privilégio, e também a responsabilidade, de viver muitas dessas transformações de perto. Quando o divórcio foi aprovado no Brasil, nos anos 1970, aquilo representou muito mais do que uma mudança na lei: foi um avanço na autonomia das mulheres, no direito de escolher permanecer ou partir. Para a minha geração, isso teve um impacto profundo, porque abriu caminhos para decisões mais livres, tanto na vida pessoal quanto na profissional. Ao longo do tempo, acompanhei o amadurecimento das pautas femininas, especialmente no mercado de trabalho. Ainda há muito a conquistar, mas hoje existe mais consciência sobre igualdade, respeito e espaço. Para mim, essas mudanças significaram a possibilidade de construir uma carreira sem abrir mão da minha individualidade, enfrentando julgamentos, mas também afirmando quem eu era e quem eu queria ser. Nada veio sem luta, mas cada avanço coletivo fortaleceu também o meu caminho individual. E ver essas pautas ganharem voz nas novas gerações me dá esperança e orgulho de ter atravessado esse tempo com coragem.

 

Vera, além de todos esses projetos que você estará envolvida em 2026, existe algum outro que você queira comentar a respeito?

 

Estou nesse momento me preparando para gravar um novo projeto no audiovisual, mas que ainda não posso contar detalhes por conta do contrato. Tem um projeto também para o final de trimestre que é viajar com um talkshow compartilhando a minha história na arte, vida pessoal… Essas coisas. Divido minha agenda também com algumas ações de publicidade, agora com essa coisa da internet, não me dão sossego, e eu adoro! (risos).

 

entrevista: Ester Jacopetti

fotos: Hugo Barbieri

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