
“Se hoje tenho a possibilidade de realizar meus sonhos é graças a um movimento que começou lá atrás”. Na fala de Jeniffer Nascimento, cada palavra carrega o peso de uma história construída com talento, dedicação e uma profunda consciência de sua jornada. Em entrevista exclusiva, a atriz, cantora e mãe de Lara, de dois anos, reflete sobre como sua paixão pela arte, que começou aos cinco anos, foi moldada pelo apoio familiar e pela busca incessante por seu lugar. A trajetória de Jeniffer é, ela mesma afirma, uma “conquista coletiva”, impulsionada pela luta de uma família nordestina que migrou para São Paulo em busca de uma vida melhor. Hoje, no auge de sua maturidade artística, ela vive um dos momentos mais importantes de sua carreira, interpretando a personagem Dita, de “Eta Mundo Melhor!”. Essa oportunidade é uma reparação histórica que celebra a cultura e a história do povo preto, muitas vezes apagadas da narrativa. É a partir desse lugar que Jeniffer reitera a importância de se posicionar, defendendo o que é real e legítimo: “Eu me tornei um ser humano melhor depois que fui mãe. Criei uma sensibilidade ainda mais aguçada para me colocar no lugar do outro”, revela, reforçando a crença de que a arte e a vida se entrelaçam em uma jornada de empatia e transformação. Entre os desafios da rotina dupla, o cuidado com a saúde mental e o protagonismo que inspira, a atriz mostra que, mais do que ocupar espaços, ela está redefinindo o que significa ser uma artista em sua totalidade.

REVISTA REGIONAL: Jeniffer, com uma carreira que começou tão cedo, aos cinco anos de idade, se não me engano, com um desejo claro de ser artista, como você descreve o impacto dessa paixão precoce na formação da mulher e da profissional que você é hoje? Houve momentos em que essa vocação tão jovem a fez questionar seu caminho, ou ela sempre foi a bússola mais forte?
JENIFFER NASCIMENTO: Eu quero ser artista desde que me entendo por gente. Geralmente, eu brinco que já vim com esse aplicativo. Obviamente, tem muito estudo desde os cinco anos de idade, mas foi algo muito genuíno meu. Um dia, eu estava assistindo ao programa do Gugu e passou um comercial de uma agência; então, falei: ‘Pai, mãe, me levem na agência, porque eu quero ser artista’. Acho que é algo muito genuíno. Sempre foi a minha bússola mais forte. Em algum momento, quando criança, eu também queria ser pedagoga, professora de crianças, pois sempre gostei muito de instruir. Até cheguei a trabalhar um pouco com isso, aprendendo a dar aulas em teatro musical para turmas infantis. Mas sempre quis ser artista. É claro que várias vezes já questionei minha profissão. É uma profissão muito árdua; a gente recebe muito mais ‘não’ do que ‘sim’. Por isso, acho que esse questionar faz parte, mas não tem jeito. Quando se ama o que faz, a gente não se imagina sendo outra coisa.
Sabemos da sua forte ligação com o teatro musical, que foi o berço da sua formação artística desde os 13 anos. Como essa base no teatro, onde a entrega é total e o corpo é o principal instrumento, moldou sua versatilidade e a forma como você aborda seus personagens na TV? Existe algo do palco que você sente falta ou sempre tenta levar para a tela?
Com certeza, o teatro musical é uma grande escola. É um lugar onde você precisa cantar, dançar e atuar bem. Nós, que fazemos teatro musical, aprendemos que é preciso contar a história por meio das três artes. Assim, o passo não pode ser em vão, a nota que você vai dar não pode ser em vão. Nada pode ser mais importante do que contar essa história. Sem dúvida, isso me ajuda muito na composição das personagens, desde o timbre de voz e o corpo até os trejeitos. Acredito que ter participado do teatro musical me dá uma partitura artística muito grande.

Sua mãe, teve um papel fundamental na sua aceitação com o cabelo natural, passando horas fazendo twist para os testes. Em um ambiente de padrões estéticos muitas vezes excludentes, especialmente no início da sua carreira, como o apoio incondicional da sua família foi essencial para construir sua autoestima e sua identidade como artista e mulher negra na mídia?
Olha, é engraçado: apesar de a minha mãe ter o cabelo alisado, ela lutou muito para que eu assumisse o meu, no início. Quando eu era pequena, ela passava horas fazendo twist em mim e as minhas hidratações. No entanto, comecei a frequentar ambientes onde, muitas vezes, eu era a única menina preta e de cabelo crespo. Chega um momento, na infância e na adolescência, em que a gente quer se sentir pertencente e fazer parte. Foi aí que, a partir dos 12 anos, comecei a pedir para alisar meu cabelo e fazer progressiva. Apesar de ter passado por esse momento, minha mãe sempre me empoderou muito nesse lugar, e é o que busco fazer com a minha filha hoje. A construção da minha autoestima, no entanto, foi acontecendo progressivamente. Principalmente em relação a assumir meu cabelo. Acredito que a personagem Sol, em “Malhação”, me auxiliou muito nesse processo. Foi com ela que passei pela minha transição capilar e, ao inspirar tantas meninas, percebi o quão potente era tudo aquilo. Foi ali que comecei a sentir, de fato, o peso e a importância de assumir a minha identidade e de empoderar outras pessoas para que se vissem nesse mesmo lugar.
Você mencionou em entrevistas que sua família é uma “conquista coletiva” e que se está onde está hoje é graças ao movimento de sua avó materna. Como essa consciência da sua ancestralidade e das lutas de sua família permeia sua visão de mundo e, consequentemente, suas escolhas artísticas e sua militância por representatividade?
Sou uma pessoa muito ligada à família e sempre fui curiosa sobre a história dela. Por isso, tenho muito respeito e admiração pela luta dos meus pais. Tanto do lado materno quanto do paterno são famílias nordestinas que vieram para São Paulo em busca de uma vida melhor. A cada conquista minha, eu sempre penso nisso: se hoje tenho a possibilidade de realizar meus sonhos aqui, é graças a um movimento que começou lá atrás com eles, que nem imaginavam onde poderíamos chegar. Para mim, esse sentimento é uma bússola que me guia na minha trajetória e jornada artística. Hoje, tenho mais oportunidade de fazer escolhas artísticas. Já recusei testes para personagens que estereotipassem a mulher preta, colocando-a em um lugar marginalizado ou vilanizado, especialmente em projetos que levam a cultura do nosso país para o mundo. No entanto, sei que isso é um privilégio e também o resultado de um planejamento. Para que esse momento fosse possível, precisei fazer uma reserva financeira para não ter de aceitar apenas trabalhos para sobreviver. Assim, posso fazer escolhas mais assertivas, alinhadas com o que desejo para minha carreira e com as histórias que quero contar.

A Dita, sua personagem em ‘Eta Mundo Melhor!’, agora assume um protagonismo que você descreve como uma “reparação histórica”. O que significa para você, como artista negra, ter essa oportunidade de recontar a trajetória de uma personagem que sai de um lugar de serviçal para buscar o sonho de ser cantora, especialmente em um horário nobre da TV? Qual a mensagem mais potente que você acredita que essa jornada pode passar ao público?
Para mim, é incrível viver este momento. Estamos recriando o imaginário de padrões no audiovisual, na TV. Minha geração cresceu almejando ocupar esses espaços, mas gerações anteriores, por exemplo, nem imaginavam que isso fosse possível. No máximo, pensavam em personagens com outras profissões, que não estivessem em um lugar de subserviência. É uma honra fazer parte desse momento em que ainda sou uma das primeiras a ocupar esse lugar. Nós ainda não podemos contar nem com uma dezena de protagonistas pretas e diversas na TV. Fico muito feliz por fazer parte desse movimento inicial, mas sei que ainda há muito a ser feito. Afinal, 51% da população brasileira é preta. Em termos de representatividade, estamos muito aquém da realidade do nosso país. Espero ainda ver muitas protagonistas indígenas, orientais, plus size, trans, e que todas possam se sentir representadas. É muito representativo viver este protagonismo em uma novela de época, pois essas produções tendem a contar a história do passado. Mas, no passado, o povo preto também contribuiu muito para a nossa evolução social e cultural. Houve um apagamento onde simplesmente nos tiraram da história e deram a autoria de nossas ideias a outras pessoas. Estou muito feliz por viver este momento e por contar histórias que realmente vivemos e que muitos desconheciam. Como a cena, por exemplo, que gerou muita indignação: a Dita cantando na coxia enquanto uma mulher branca dublava a voz dela. Precisamos, cada vez mais, contar todas as nossas histórias.
O autor Walcyr Carrasco revelou que seu talento como cantora em musicais foi um fator determinante para a mudança do arco da Dita. Como é para você ver seu trabalho no teatro reverberar de forma tão direta e impactante na sua carreira televisiva, proporcionando essa virada para a personagem? Quais os desafios e as alegrias de cantar e atuar tão profundamente nessa nova fase?
Fico muito feliz que uma habilidade minha tenha despertado em Walcyr (Carrasco) essa virada no arco da personagem. Estou vivendo um momento de muita realização e colheita na minha carreira. Trabalho desde os cinco anos, me dediquei muito e fiz inúmeras aulas. Por muito tempo ouvi que não era possível ser tudo, que eu não poderia cantar e atuar ao mesmo tempo. Dizia-se que isso era falta de foco e que, se eu não me dedicasse a uma coisa só, não chegaria a lugar nenhum. Para mim, ser protagonista de uma novela com uma personagem que já interpretei e ter o arco histórico dela alterado por uma habilidade que tenho como atriz é uma resposta do universo. É a confirmação de que eu sempre estive certa em querer explorar todos os meus lados artísticos, contrariando o que a sociedade me apontava. Este momento acaba sendo duplamente puxado. Além da dinâmica de estudar os textos e pensar na emoção, preciso estudar, preparar e aprender as músicas, e por vezes gravá-las em estúdio. É uma jornada dupla que exige muito cuidado para se ter um bom som e uma boa cena. Um exemplo é o desafio do microfone. Para a rádio, ele precisa estar muito direcionado à boca para captar uma voz boa e limpa. Porém, para a TV, isso não é bom, pois o microfone na frente do rosto pode esconder metade da cena. Por isso, sempre temos que encontrar um meio-termo para conseguir uma boa imagem e um bom som ao mesmo tempo. É um trabalho minucioso, mas temos uma equipe incrível, e tem sido muito prazeroso fazê-lo.

Desde a chegada de Lara, você tem falado sobre como a maternidade a transformou, inclusive como atriz. Você disse ter se tornado “melhor atriz” após ser mãe, ganhando uma “força sobrenatural” para a empatia. De que forma essa experiência redefiniu sua perspectiva sobre a vida, a arte e, em especial, a capacidade de se colocar no lugar do outro ao construir um personagem?
A maternidade, para quem a vive e a escolhe, é algo extremamente transformador. É uma dádiva, um presente do universo: maternar, gerar um ser humano, colocá-lo no mundo e ter o desafio e a honra de direcioná-lo, nos primeiros passos e anos de vida, para a missão que ele tem aqui. Eu digo que me tornei um ser humano melhor depois que fui mãe, pois minha capacidade de empatia, que já existia, ficou ainda maior. Criei uma sensibilidade ainda mais aguçada para me colocar no lugar do outro, para sentir sua dor e viver suas sensações. Para mim, é um momento muito especial enquanto ser humano, e isso, consequentemente, acaba me ajudando no meu trabalho de atriz, que é acessar as emoções.
Você já se posicionou sobre a importância de “ter pessoas reais na TV” e de usar a arte para resistir ao preconceito. Como você enxerga seu papel e sua responsabilidade como figura pública nesse contexto, e quais são os próximos passos que você almeja dar para continuar impactando positivamente a representatividade na mídia brasileira?
Isso é algo muito particular. Quando falo sobre ser uma pessoa “real”, não estou me referindo aos outros, mas ao que é real para mim, Jeniffer, e ao que é a minha verdade. Sempre tive muitas questões com minha autoestima e aceitação ao longo da vida, justamente por não me ver representada. Eu ligava a TV e não via pessoas com o meu tipo de cabelo, com o meu volume, com o meu cacho ou com o meu corpo. Não me considero uma pessoa padrão em nada. Até mesmo no que consideram o estereótipo da mulher preta, que é um absurdo, como aquela mulher “gostosona” e escultural, eu não me encaixo. Sempre tive um corpo muito normal e acredito que tenho cara de pessoa normal. Quando entrei para a TV, eu quis fazer diferente. Pensei: “Tive tantas questões com a minha autoestima e aceitação por não me ver representada na infância que eu quero que as pessoas se vejam e se reconheçam em mim”. Sempre falei sobre ser real nesse sentido, e também sobre ser real de acordo com o seu momento de vida. Afinal, não podemos ser reféns das nossas palavras. Somos seres humanos em constante evolução, e este é o meu pensamento de hoje. Nada impede que amanhã eu mude de ideia e queira fazer algo com a minha aparência ou meu corpo, e não preciso ser menos real por isso.
entrevista: Ester Jacopetti
fotos: Caio Oviedo




