A determinação de Lucy Ramos

Consciente da sua importância para o movimento negro, Lucy Ramos ocupa um espaço onde poucas mulheres negras, como ela, têm a oportunidade de estar, mas é importante dizer que, assim como outras atrizes, ela ajuda a desconstruir o machismo, o preconceito, a misoginia. Determinada, o exemplo veio de casa: filha da Dona Lúcia Maria, como ela mesma chama carinhosamente a mãe, Lucy enfrentou muitos desafios e foi através deles que se transformou numa mulher potente, determinada, cheia de garra e com muita energia. Nesta entrevista exclusiva, a sinceridade e a delicadeza em suas respostas provam a mulher madura e completa na qual se transformou.

Lucy Ramos em ensaio especial

REVISTA REGIONAL: Lucy, você se lembra do momento que descobriu que seguiria a carreira de atriz? Dar certo nessa profissão é difícil para muitos. Você fazia ideia do que estaria por vir para conseguir conquistar o seu espaço e se manter na carreira?

LUCY RAMOS: Eu comecei a modelar com 16 anos e fui me direcionando para o lado comercial da profissão. Para ter uma desenvoltura melhor na frente das câmeras, entrei no curso técnico de ator, onde tirei meu DRT (registro profissional). Durante todo o curso, o amor pela arte foi crescendo junto da vontade de aprender mais. O querer, a dedicação, o estudo, a persistência, a perseverança, a garra e a vontade de melhorar de vida me davam força para continuar diante de qualquer adversidade. O difícil não é chegar, mas se manter. É preciso estar muito atenta ao seu propósito. No teatro, aprendemos sobre ter foco. E na vida, é importantíssimo ter foco para não se perder nas escolhas. Vivo um dia de cada vez, atenta aos desdobramentos da profissão e aprendendo todo momento como ser humano. 

 

Eu li numa entrevista que você concedeu à Marie Claire que sua mãe sempre foi muito guerreira, trabalhou e sustentou, sozinha, você e seus dois irmãos. Ela continua sendo sua maior inspiração? 

Minha mãe foi fundamental na formação do meu caráter e personalidade. Sempre convivi com valores importantes que ela passava, principalmente a lição de que nada vem fácil e que não devemos desistir nunca dos nossos sonhos. Ela é uma guerreira, e sou testemunha disso. Presenciei muitas dificuldades e a forma como ela as superava. Trago isso comigo sempre, essa garra para ir de encontro ao que quero e ter o respeito pelo próximo. 

 

Como é hoje essa relação com ela, já que você é uma mulher que construiu uma carreira na TV e tem não apenas visibilidade, mas também representatividade? 

Nossa relação é baseada principalmente na simplicidade, e a essência continua a mesma. Quando nos encontramos, não sou a Lucy, sou a Lucilene e ela, a Dona Lúcia Maria. Gosto muito de falar da minha mãe, pois sempre recebo mensagem de alguém que se identificou ou passou pela mesma luta dela, acho muito importante contarmos essas histórias que simbolizam uma vitória, uma conquista. Tem muitas Donas Lúcias Marias por aí que merecem ser ouvidas! 

 

Infelizmente, pelo número reduzido, nós conseguimos listar as atrizes negras que estão em destaque na dramaturgia nacional. Além de você, podemos citar alguns nomes como Taís Araújo, Camila Pitanga, Cris Vianna, Jéssica Ellen, etc. Mas sabemos também o quanto esse cenário mudou. Você deslumbra o futuro da dramaturgia com mais atrizes negras protagonizando as tramas?

Idealizo muito esse futuro e sonho em continuar fazendo parte dele! Torço para que os grandes canais de comunicação se conscientizem e vejam a importância da diversidade. Somos plurais. Principalmente em cargos importantes, quem escreve, dirige, pessoas que têm o poder na caneta e que vivem na pele a realidade da diversidade. Conhecer é uma coisa, viver o dia a dia é diferente. 

 

Lucy durante ensaio

Sabemos da luta das mulheres por igualdade e respeito, mas existe também a classe menos favorecida, que, neste caso, em sua maioria, são mulheres negras que não têm as mesmas oportunidades que uma mulher branca. A partir desse ponto de vista, você acredita que o empoderamento pode ser elitista?

As vivências de uma mulher negra são totalmente diferentes da de uma mulher branca. Obviamente, lutamos por alguns pontos em comum que independem de cor, mas o recorte racial não pode ser deixado de fora. As mulheres negras têm suas próprias dores, suas próprias necessidades. Acredito que elas ficam excluídas por movimentos que não se propõem a debater e tratar as questões de raça. O caminho é dificultado duas vezes mais para nós, negras. 

 

Muitos acreditam na meritocracia, mas sabemos que essa ideia de ascensão social e econômica não depende do esforço individual. Qual sua opinião sobre este assunto? 

Eu acho meritocracia um mito. Ela não funciona. Ninguém consegue subir de forma igual se alguns já partem dessa “corrida” com mais vantagens que os outros. E que vantagens seriam essas? Alimentação, melhor instrução educacional, moradia… São vários fatores que impedem um processo justo de inserção no mercado de trabalho, por exemplo. Por outro lado, se a sociedade promovesse igualdade de oportunidades educacionais, sociais e econômicas… aí a história seria outra.

 

Estamos em pandemia há mais de um ano e meio, e compartilhamos os mesmos sentimentos, uns mais intensamente, outros nem tanto, mas para você, qual foi o momento mais difícil de suportar tudo o que está acontecendo?

Bem no começo da pandemia. As incertezas me assustavam. Eu pensava no futuro e me questionava por diversas vezes: “como vai ser?” Ver pessoas perdendo os empregos, famílias se desfazendo, muitas pessoas morrendo, passando fome por não poder trabalhar. Tempos assustadores. No início, eu ficava atenta em todas as notícias, hoje estou me blindando – não sou alienada -, pensando na minha saúde mental. Causa-me uma sensação terrível de impotência ver tantas injustiças e não conseguir fazer nada. 

 

Diante do que estamos passando, em algum momento você pensou na morte? Afinal, no início da pandemia era tudo muito novo, não sabíamos o que estávamos enfrentando…

Em março de 2020, estamos viajando de férias felizes da vida, eu e meu marido. Em um determinado dia, recebemos muitas mensagens de amigos e familiares preocupados com a gente, e nos pedindo para voltar. Adiantamos as passagens e voltamos direto das férias para o distanciamento social. Depois de um tempo distante da família, ao chegar ao Brasil, somos proibidos de abraçar quem amamos… Como é isso?! Ao parar e ter conhecimento dos fatos, vermos famílias destruídas por muitas mortes inesperadas… É assustador. Hoje ainda mais. No início, não sabíamos como prevenir e como iríamos combater esse vírus. Já existe uma luz, a vacina, porém, anda em passos lentos e até que ela chegue para todos, as mortes continuam. Mais de um ano após o início, como não sentir medo assim?

 

Falando em arte, seu marido Thiago Luciano tem uma produtora de cinema, e vocês, inclusive, vivem disso. De que maneira, você acredita que a arte vai se recuperar depois de todas as mazelas sofridas durante esse período não só de pandemia, mas de má gestão política? Como é ser artista num país que tenta limitar o acesso à arte que faz pensar, refletir?

Se tem uma coisa que a arte faz é se reinventar em tempos difíceis. Nesse período de pandemia, tivemos vários artistas criativos que se utilizaram de uma linguagem relacionada ao isolamento, da situação do país e, de suas casas, produziram um conteúdo muito bom e inteligente. Essa transformação na maneira de se comunicar certamente será estudada pelas gerações futuras. Ser artista no Brasil é ser resistente, é uma caminhada cheia de instabilidade e dificuldades que a própria pergunta relata. Resta-nos sermos pacientes e irmos à luta. Pela arte, tudo vale a pena, pois acredito que só através dela conseguimos levar a reflexão e a sensibilidade, e transformar a realidade de quem nos consome e apoia. 

 

Além da Super Dança dos Famosos, quais são os projetos que você está envolvida para este ano de 2021?

Estou em um filme, que será lançado em breve, chamado “O Segundo Homem”, com direção e roteiro do Thiago Luciano. Além de atuar, também tive a experiência de fazer parte da produção.

 

 

entrevista/texto: Ester Jacopetti

fotos: Diego Serres

styling: Gabriel Fernandes e Júlia Moraes

beleza: Will Vieira