Ricardo Pereira: O português que fez do Brasil a sua casa

Operário da cultura, Ricardo Pereira transita por diferentes palcos. Seja no cinema, na TV ou no teatro, lá está ele, entregue e disposto a viver todos os tipos: vilão, mocinho, de época ou atual, interpretando vidas e dando corpo e alma às muitas personagens que criou. O português que fez do Brasil sua casa, aproveitou a quarentena para passar uma temporada em sua terra natal. Cercado pela família, o ator é dedicado, e tem um olhar atento à criação dos filhos. Nesta entrevista exclusiva, Ricardo revela detalhes de sua rotina, de seus projetos e fala da importância do respeito à diversidade e como pretende ensinar seus filhos neste processo natural e evolutivo da sociedade.

Ricardo Pereira em ensaio especial

REVISTA REGIONAL: Agosto de 2021, mais um Dia dos Pais no Brasil e o mundo ainda em meio à pandemia. De que maneira você pretende celebrar essa data? Depois de um ano e meio em isolamento, ficou mais fácil ou mais difícil lidar com as comemorações distantes da família e dos amigos? 

 

RICARDO PEREIRA: Devemos celebrar todos os dias, porque essas datas são essenciais, nos fazem lembrar da importância do quanto é especial, incrível, aventureiro e de descoberta ser pai. Esse ano, por conta de todo esse momento pandêmico que estamos vivendo, naturalmente vou passar esse dia com os meus filhos, e talvez também com o meu pai, mas, na verdade, essas celebrações, seja dia dos pais ou das mães, gostamos que seja intimista, com a família próxima para celebrarmos o que é ser pai, ser mãe. Procuramos sentir o carinho dos nossos filhos, dessa união que é incrível e é pra vida.

 

Nós estamos vivendo um processo evolutivo, na qual a inclusão e a diversidade fazem parte de um conjunto de valores. Você é pai de Vicente, nove anos, Francisca, sete anos, e Julieta, três anos. Que dinâmica você e a sua esposa, Francisca, utilizam para naturalizar o amor entre duas pessoas do mesmo sexo?

 

A educação que a gente tenta passar, que foi deixada pelos nossos pais, é de que nós temos que respeitar todas as pessoas, respeitar as decisões, respeitar o que gostam, serem livres para seguirem o caminho e o amor que querem percorrer, as relações que querem ter, o que querem fazer da vida. Quero deixar os meus filhos livres para escolherem o caminho que eles querem trilhar e entenderem sempre o outro com o máximo de respeito, aceitando todas as escolhas do outro, isso é fundamental na educação dos nossos filhos, prezamos por isso e passamos isso para eles. 

 

O seu filho Vicente estreou há pouco tempo em uma novela em Portugal. Ou seja, ele já deu sinais de que poderá seguir a sua carreira no futuro. Mas de que maneira você cuida e protege para que seu filho também se dedique à escola, já que a profissão de ator exige tempo e dedicação?

Ricardo Pereira em ensaio especial

 

O Vicente estreou numa novela que eu estava fazendo, foi muito especial, muito bacana, eles precisavam de um ator para fazer o meu personagem aos oito anos de idade, eu perguntei se ele queria, se era algo que gostaria de fazer, ele topou, adorou a experiência. Mas foi tudo um princípio, uma brincadeira, não um comprometimento sério, não implica misturar as aulas com a escola e com o trabalho. É muito cedo, e ele tem tempo para escolher o caminho, o que quer fazer da vida. Ele gostou, brincou, se divertiu que era o principal, correu tudo super bem. Obviamente os pais ficaram super orgulhosos, babando, né? (risos) Mas neste momento o objetivo dele é a escola e lá na frente ele vai decidir o que vai querer fazer da vida sem pressão nenhuma.

 

Já que você está passando uma temporada em Portugal, provavelmente já está vacinado contra a covid-19. Qual a sensação de saber que você e sua família estão mais protegidos de uma doença que já ceifou milhões de vidas?

 

Parte da minha família com mais idade tomou as duas doses da vacina, eu e a minha mulher temos a primeira dose, mas logo, logo, iremos tomar a segunda. Realmente nós ficamos mais descansados, mas as pessoas vacinadas podem eventualmente contrair novamente o vírus, mas que se manifesta de forma diferente, não causando tantos problemas, isso dá uma segurança, ficamos mais tranquilos, principalmente até pelos nossos pais, avós, tios, a nossa família e quem tem uma idade mais avançada. Sem dúvida, dá uma segurança e tranquilidade, mas o que todo mundo quer é que essa pandemia acabe logo porque realmente tem sido humanamente pesada e muito difícil de ultrapassar.

 

O que você, como pai, tem trazido para a vida dos seus filhos e que remete a sua criação com a sua família, com os seus irmãos, primos e amigos? Quais eram as brincadeiras de menino que hoje você faz com os seus filhos, que de alguma maneira te traz uma recordação muito boa?

 

Moramos no Rio de Janeiro, criamos uma família no Brasil, mas os primos, os tios, a minha família estão em Portugal e em outros lugares, mas sempre que temos a chance de estarmos com eles, promovemos encontros, trocas, aprendizados. Eu gosto muito de colocar os meus filhos em contato com os primos, com os meus tios, para falar sobre as histórias do passado, contando peripécias, momentos que essas pessoas viveram numa outra fase, num outro momento da vida, do mundo. Eles aprendem porque tem muita brincadeira que não conheciam, brincadeiras antigas, hoje o mundo está muito eletrônico, videogame, redes sociais… São pessoas que podem levá-las para este lugar, com conversas, brincadeiras, com histórias da família. É fundamental para o crescimento deles. Em casa, tanto eu quanto a minha mulher, quando estamos com os nossos filhos no Brasil ou em Portugal, resgatamos brincadeiras do passado, joguinhos de tabuleiros, brincadeira de esconde-esconde, desenhamos juntos, um bom baralho, eles se amarram nisso. É bom quando você consegue ser transversal na educação e consegue trazer coisas do agora e do passado, isso dá memória. Educação é criar memórias!

 

Neste período em Portugal, você se dedicou a uma novela na TV local. Trabalhar seguindo uma série de protocolos deve ser difícil para o ator que além de expressar suas emoções, tem a questão da interação, dos toques, dos beijos, enfim, como foi trabalhar com essa limitação?

 

Trabalhar com protocolo de segurança – que, hoje em dia no mundo inteiro, todas as pessoas que trabalham nessa área e em outras têm que seguir -, é, sem dúvida, diferente. No meu caso, quem faz televisão, teatro e cinema, exige uma segurança muito grande, justamente por conta de tudo que você falou, dos toques, da proximidade. Isso exige uma série de testes que são feitos a toda hora por conta de precaução e segurança, é uma forma diferente de trabalhar e exige o compromisso de todo mundo, exige dedicação e responsabilidade porque você tem que olhar não só para você, mas para todo mundo, porque você tem toda uma equipe, os atores, as atrizes, você tem que cuidar de você e dos outros. Isso é fundamental. É, sem dúvida, diferente, é rigoroso, retirar a máscara apenas quando é necessário, fazer os ensaios com máscara, com todas as regras para desinfetar os lugares, higienizar as mãos. Só seguindo os protocolos a gente consegue continuar trabalhando, que é o que todo mundo deseja.

 

Na nossa entrevista anterior você havia comentado sobre um filme (Revolta) que aborda o assunto pandemia. O que você pode falar sobre este novo trabalho? Aliás, tem também a série, qual o nome e quando deve estrear? Já sei que você está reservado para um trabalho na TV Globo também.

 

Esse filme ‘Revolta’ foi escrito pelo Thiago R. Santos, um argumentista grande em Portugal, ele escreveu roteiros de vários longas que eu já tinha trabalhado e filmado. Esse é o primeiro longa dirigido por ele, é um filme que ele escreveu há muito tempo, e neste primeiro momento da pandemia, em março do ano passado, o roteiro abordava uma revolta, algo estranho que estava acontecendo no mundo e fazendo com que as pessoas ficassem em casa. Ele adaptou e acrescentou muitos elementos, mas não necessariamente pandêmicos, mas como isso transforma cada um. É um paralelo com tudo que estamos vivendo. Naturalmente o ‘ficar em casa’, nos momentos de confinamento, é diferente para cada pessoa, e como isso afeta a cabeça e transforma o ser humano. São quatro amigos que vieram de lugares diferentes que estavam morando na mesma casa, no momento em que começou o caos nas ruas, e como foram afetados, como eles olhavam para o caos. O meu personagem é um cara que não consegue ser claro com a mulher, tem uma relação completamente desgastada, mas ele a ama, mas acaba enganando-a num mundo virtual, encontrando outra paixão, que na verdade ele não sabia, mas era a amiga da própria mulher, e também a falta de coragem para enfrentar o que estava acontecendo na rua, nessa revolta. É um filme muito interessante e deve estrear em 2022. Eu fiz um seriado chamado ‘A Generala’ uma série de época sobre uma mulher que, para se afirmar na sociedade totalmente masculina, se transformou, mudou toda a documentação, todo o seu jeito de se vestir e falar, para parecer um homem e se inserir socialmente e atingir os objetivos que ela queria. Ela era originária da Ilha da Madeira, queria mais do que viver a vida, queria ser algo mais, uma mulher com outros sonhos, uma mulher que tem uma vida muito complicada. É uma história baseada em fatos reais. O meu personagem é o primeiro amor desta personagem, na altura uma menina, que se conhecem na ilha, ele é mais velho que ela, mas que não tem a determinação e nem a força que ela tem para desbravar o mundo. Ele assume essa paixão, quer fugir com ela para Portugal, para o continente, mas na última hora ele não vai e até acha que ela se suicidou por conta dele. São duas histórias diferentes, bem interessantes. Sim, logo, logo eu estarei num novo trabalho na TV Globo, já está programado, mais pra frente a gente fala sobre ele, mas já estou fazendo um laboratório, uma pesquisa, um trabalho grande para esse personagem.

 

Lembro que você comentou que iniciou sua carreira fazendo teatro e também chegou a fazer muito cinema autoral. Você diria que a base para se tornar um bom ator é o tablado? Um ator que faz bem o teatro é capaz de fazer bem qualquer outra coisa ou não necessariamente?

Ricardo Pereira em ensaio especial

 

Sempre que dou a minha opinião, e cada um tem a sua, respeito muito a opinião de todo mundo, as experiências, as vivências que cada um leva para que as pessoas formem determinadas opiniões, o importante é respeitar. Em relação a isso que eu afirmei, para mim, o teatro é fundamental na base, na criação, no nascimento, na formação de um ator, ele te dá o compromisso, a exigência, ele te faz sentir a responsabilidade da profissão, o público está ali te julgando, te apreciando, criticando, amando ou não, mas estar ali a um metro do telespectador, você sente a energia, a resposta do público, te apreciando, te criticando, te amando ou não. Você sente a energia e a resposta do público no imediato. Isso te forma como ator que tem uma sensibilidade diferente e compromisso. Volto a falar, para mim, o teatro é fundamental no desenvolvimento artístico do ator, é um lugar por onde todos os atores devem passar. Eu sou apaixonado por teatro, mas não só como telespectador, mas acima de tudo como atuante, como ator, por ter participado e estar em cima dos palcos. É provavelmente a coisa mais bonita e mais incrível do mundo. É fantástico! Obviamente a minha formação enquanto artista, ator que passou pelo teatro, eu tive a oportunidade de trabalhar no cinema autoral em Portugal, França, Espanha, Brasil e isso é fundamental, trabalhar com cabeças diferentes no cinema, no teatro e na televisão. Essas mentes te permitem um olhar diferente, e não só olhar para um assunto, mas permitem chegar num momento de criação diferente, é importante olhar, estudar, entender as linguagens que você tem diferente no cinema, no teatro e na televisão, falar com essas pessoas, aprender com elas, e escutar. O teatro é muito importante. Sou muito grato ao meu início no teatro e eu tive a oportunidade de estrear com grandes nomes em Portugal no teatro emblemático Dona Maria Segunda. Foi fundamental para o meu percurso como ator e para a minha responsabilidade e o respeito que eu tenho pela profissão.

 

Ricardo, você faz parte da geração que não cresceu com um celular nas mãos, mas hoje de certa forma a maioria das pessoas vive a vida quase que online, diariamente. Como você controla a sua vida nas redes sociais? Dá pra dizer que você encontrou um equilíbrio sobre o que é publicável e o que não é?

 

Eu cresci de um jeito e estou vendo os meus filhos crescendo de outro, embora como falei, gostamos de resgatar tudo que nós vivemos para que eles não fiquem apenas ligados ou concentrados nessas novas coisas que apareceram hoje em dia na idade deles. Eu gosto muito que tenham um olhar para o mundo e não só para a tela. Eles têm que entender o mundo, entender o outro, entender a natureza, os lugares e conhecer através do olhar e do sentir. São mundos diferentes, o mundo está andando muito rápido, e temos que fazer esse autocontrole sobre o que é a nossa vida real e virtual. Esse equilíbrio tem que existir sempre, é fundamental até pra gente não virar aquela pessoa solitária, que até pode ter muitas pessoas em volta, mas estamos olhando para uma tela. Eu sou uma pessoa que adora estar com pessoas, adoro conversar, adoro olhar nos olhos das pessoas. Esse equilíbrio tem que existir sempre na minha vida, eu não entendo a vida de outro jeito, obviamente também é importante esse lado virtual que é uma forma de comunicação, e na minha profissão é muito importante, mas além disso existe o olho no olho que precisamos preservar. O equilíbrio é fundamental.

 

Aliás, no Brasil, a classe artística tem se manifestado contra as mazelas do governo atual, pela má gestão na compra de vacinas contra covid-19. Como você enxerga essa união entre os seus, e qual a importância de o artista se manifestar politicamente nos dias de hoje?

 

É importante darmos opinião e todo mundo deve dar a sua, mas respeitando o outro, é fundamental o equilíbrio de uma sociedade, do mundo, para que todos tenham uma convivência aceitável, mas não só a classe artística, todo mundo deve exprimir, apontar soluções, caminhos e procurar, sem dúvida, essa união que é fundamental.

 

Existe um termo chamado ‘homem feministo’ são homens que aderem o movimento feminista, entendendo e aceitando que existe uma luta na busca por igualdade e respeito. Mas no meio dessa transição ainda há certa resistência. Qual o seu pensamento em relação a isso?

 

Essa pergunta vem no caminho de outra que eu te respondi no começo da nossa entrevista, sobre a educação dos meus filhos. Eu volto a falar na igualdade, na formação, na educação que é fundamental. Uma sociedade vive e evolui crescendo com base na educação, parte de cada um de nós explicar não só para os meus filhos, mas para quem está ao nosso lado, que quer ouvir, que quer igualdade de oportunidades, aceitar as escolhas do outro, aceitar os movimentos, não existindo diferença entre homem e mulher, as oportunidades, sem dúvida, precisam ser iguais. Falar sobre isso é errado, deveríamos ter ultrapassado e caminhado na direção de que independentemente do gênero, masculino ou feminino, tem que ter as mesmas oportunidades e escolhas, ser respeitado. Sem dúvida, o mundo caminha para isso, e vai caminhar muito melhor.

 

entrevista e texto: Ester Jacopetti

fotos: Jeff Segenreich