Não é depressão, é definhamento

O termo surgiu durante a pandemia, é caracterizado pelo vazio de uma depressão e ausência do bem-estar e tem sido muito mais comum do que todos imaginam

 

Falta de concentração, de esperança e de metas. Aquela sensação de viver empurrando com a barriga, de não ter planos, de objetivos longe de serem conquistados. Não, não é depressão, afinal não é aquela dor e tristeza, também não é Burnout, porque ainda há um pouco de energia. Então, qual a denominação deste sentimento?

Definhamento é um novo termo para denominar o comportamento das pessoas durante a pandemia

 

Isso é definhamento, um novo termo para denominar o comportamento das pessoas durante a pandemia. Não é esgotamento, nem depressão, mas algo que deixa o indivíduo sem alegria e sem objetivo. Segundo o sociólogo Corey Keyes, definhamento é o estado médio negligenciado da saúde mental. É o vazio entre a depressão e a ausência de bem-estar. A pessoa não funciona em plena capacidade. Mas apesar de não ser propriamente uma depressão, ela pode ser um gatilho para outras doenças mentais.

 

Para a psicóloga saltense Cidinha Barnabé, está bem claro que o definhamento é um dos impactos na saúde mental da população, tendo como ponta de partida a pandemia. “É consequência dos altos e baixos que vivemos desde o início da pandemia, onde formos sobrecarregados de informações, medos, angústias e esperanças que não se concretizaram”, afirma.

 

Pesquisas do sociólogo Corey Keys indicam que pessoas com maior probabilidade de experimentar depressão e ansiedade na próxima década não são as que apresentam sintomas hoje, mas as que estão definhando neste momento. Segundo ele, o perigo está no fato de que quando o indivíduo se encontra neste quadro, não tem a capacidade de enxergar que está, devagar, indo sentido à solidão. A pessoa torna-se indiferente à própria indiferença, o que acaba inviabilizando a ajuda profissional.

 

“O definhamento ganha tonalidades mais acentuadas em fases de crise, onde as nossas possibilidades de ação se veem limitadas e nos sentimos fragilizados. Sempre é um alerta importante e precisamos estar atentos a qualquer desconforto emocional. Com certeza, ao longo do tempo, vamos colher o prejuízo dessa montanha-russa de emoções e haverá aumento dos casos de depressão, crises de ansiedade e pânico e, nós, profissionais de saúde, devemos estar preparados”, alerta Cidinha.

 

Definhar

 

Definhar tem sido apontado como a expressão do ano. Alguns especialistas afirmam que em 2021, quem não definhou nem deprimiu ou está morto ou mal informado. É como se no primeiro ano da pandemia as pessoas ainda tivessem força e esperança de uma melhora. Quando o isolamento social começou, muitos aderiram à ideia de produção, fazendo pães, cozinhando, redecorando ambientes, pintando casas e cuidando de plantas. Havia uma ilusão, uma esperança de que tudo fosse resolvido em três meses e não. Infelizmente, houve ondas e mutações novas que tornaram o problema ainda mais grave.

 

Para a psicóloga ituana Cybele Micai, em 2020, ano um da pandemia, tudo era imprevisto e desconhecido e a esperança se fazia presente pela crença de que o normal voltaria em breve. “Hoje, a crença do breve se desfez e a angústia do até quando persevera e, junto com isso, as propostas de atividades do lar e de bem-estar já estão esgotadas e gastas. A resistência está se tornando desistência ou manutenção do médio, pois o máximo não acontece e o mínimo não pode acontecer, virou sobreviver e não viver”, aponta.

 

Para Cybele, os transtornos emocionais já estavam em alta muito antes da pandemia e o que aconteceu foi “enclausurar tudo isso junto com a família, trabalho e anseios no mesmo ambiente”. A psicóloga ressalta que é fundamental observar os níveis de motivação e perseverança nas atitudes profissionais e pessoais. “Observar o ‘paladar’ da vida, nas atividades que perderam o sabor e estão insossas para criar perspectivas e probabilidades de ânimo. Entender o que é de algo pontual, situações que têm razões para um desânimo momentâneo ou sensação incutida na rotina que não motiva e nem sugestiona mudanças ou melhorias. É uma observação necessária para buscar ajuda e resgatar o equilíbrio para que não gere mais conflitos e problemas sérios”, afirma.

 

Tente não definhar

 

Ficar alerta a qualquer sinal de desconforto emocional é fundamental a fim de não se deixar definhar. Confira algumas dicas da psicóloga Cidinha Barnabé para tentar não entrar neste comportamento, que pode causar uma depressão ou outras doenças mentais futuras:

 

– Reserve um tempo para si e se envolva em alguma coisa que gosta;

 

– Fique atento ao seu estado emocional e, se preciso, procure ajuda de um profissional ou divida seus sentimentos com uma pessoa amiga;

 

– Use menos o celular, pois ele agita o nosso cérebro com o mudar constantes de links;

 

– Dance, cante, faça qualquer coisa que possa te tirar do lugar comum, da zona de conforto;

 

– Acredite: vai passar, mesmo que esteja demorando: “Quando a gente perceber, passou, e estaremos envolvidos em outras questões, afinal a vida continua e somos privilegiados”, finaliza Cidinha.

 

reportagem: Aline Queiroz

foto: AdobeStock