Débora Nascimento: ‘a arte permeia minha vida diariamente’

Débora Nascimento fala sobre seu “renascimento” como pessoa e o modo novo de ver a vida

Com viagem marcada para o México, a atriz Débora Nascimento, de papéis de destaque na TV, como em “Avenida Brasil” e “Êta Mundo Bom!”, conseguiu, entre uma brecha e outra, responder de coração aberta a essa entrevista. Ela falou sobre a liberdade das mulheres, opressão da sociedade, política e ainda filosofou sobre o assunto. “Ser otimista no Brasil de hoje é perceber as potentes belezas que são mais fortes que a escuridão da inconsciência”, disse. Nesta conversa exclusiva, Débora comentou também sobre o rumo que as novelas têm seguido, o amor incondicional, bem como sobre as questões educacionais de sua filha Bella, de apenas dois anos. Confira nas próximas páginas.

REVISTA REGIONAL: As mulheres continuam em busca de liberdade, seja com o corpo, ou com a maneira de pensar e agir. Falando sobre a força da mulher nos dias de hoje, qual a discussão que não podemos deixar de ter? Como o movimento feminista pode avançar?

DÉBORA NASCIMENTO: Sei poucas coisas da vida, mas uma percepção que eu tenho é que existe um poder imenso em olhar para si, se empoderar de sua essência e potência, isso reverbera a todos ao redor. Estar presente trocando sua verdade com as pessoas próximas traz uma percepção diferente do ser humano em sua totalidade. Por isso, acredito que minha maior colaboração é me tornar cada vez mais uma mulher consciente da verdadeira liberdade.

Em sua opinião, qual seria o modelo ideal de sociedade que respeite os direitos, não só das mulheres, mas dos oprimidos como um todo? Como é possível levar essa mudança a todas as camadas sociais?

Todas as mudanças começam de dentro para fora. Não adianta exigir respeito se não respeitamos a nós mesmos. A sociedade está doente por evitar olhar para si. O medo toma conta e domina os pensamentos porque focamos no mundo exterior ao invés de nos questionar. O homem branco, hetero cis, que oprime e ataca, tem dores e temores enraizados em sua existência. Acredito que o exercício de se observar, e assim perceber o outro, é acessível a todos os humanos. Mas lembrando que nunca mudaremos a consciência de outra pessoa, isso só acontece por desejo íntimo e pessoal. Podemos apenas ser focos de luz e consciência.

Levando em consideração o momento político do país e a situação da pandemia, o que te faz ser otimista em relação ao futuro do Brasil?

Ser otimista no Brasil de hoje é perceber as potentes belezas que são mais fortes que a escuridão da inconsciência.

Na nossa conversa anterior, quando perguntei sobre os efeitos da pandemia, você comentou “Eu renasci”. De que maneira essa transformação aconteceu?

O renascimento se trata de abrir mão, deixar morrer crenças, medos, traumas e percepções que só me limitam. Eu renasço todos os dias.

Quando um ator está numa novela, o ritmo é frenético, sobra pouco tempo, mas diante da situação de isolamento e trabalhos cancelados, como é para um artista não exercer a sua arte?

A arte permeia minha vida diariamente, ela nasce no olhar e na percepção do mundo e de mim mesma. Nos pequenos detalhes e sutilezas brotam expressões artísticas que, às vezes, não necessitam de público. Estou viva e aprendendo a viver diariamente, isso já é motivo para estar feliz.

As novelas têm tido uma narrativa com questões sociais que fazem refletir. Como é ver esse novo caminho que a dramaturgia vem tomando?

Eu tenho me interessado por séries com temas diversos, mas sempre com tramas e personagens com mais complexidade humana.

Estamos vivendo um período de reprises, inclusive “Flor do Caribe”, um de seus trabalhos na TV, foi uma delas. Se pudesse escolher a próxima novela, qual você gostaria de rever e por quê?

Tenho trabalhado um desapego ao passado da mesma forma como procuro não ansiar o futuro. Sendo assim, nesse momento, prefiro olhar para o novo que se apresenta agora.

“Amor de Mãe” foi uma novela que abordou o amor incondicional, mas tirando o exagerado, como você descreve essa experiência visceral que é ser mãe? O que a maternidade trouxe para sua vida, que sem ela não seria possível alcançar?

Quando me tornei mãe percebi a necessidade ainda maior de ser eu, originalmente eu. Ser feliz sendo quem eu sou, me aceitar, olhar minhas dores e crenças e me tornar uma mulher mais consciente. O maior presente para minha filha (Bella) é ter uma mãe consciente, feliz e presente.

A Bella está crescendo, cada dia é um novo aprendizado. Neste período de pandemia, vocês têm ficado cada vez mais juntas. Como tem sido esses momentos em casa, e como é entreter uma criança que tem energia de sobra?

Minha comunicação com a Bella é carinhosa e constante. Passo para ela que somos parceiras e que nos amamos mutuamente. Ela entende que a mamãe também precisa do tempo dela.

Basta ligar a TV para ver as notícias sobre a pandemia, apesar de a Bella ser uma criança pequena, como foi explicar a atual situação, qual foi a dinâmica que você usou, e como foi decidir levá-la para a escola neste momento?

Existe um vírus que deixa as pessoas doentes e que precisamos tomar alguns cuidados para não adoecer e o vírus ir embora. Tento trazer consciência e não pânico para a nossa vida.

Mais do que o amor materno, a mãe e, obviamente, o pai, têm a missão de ensinar questões sobre ética a partir da educação, mas também dos exemplos. De que maneira você costuma abordar essas questões com a Bella no dia a dia?

A maior lição é ser o exemplo. Não preciso dizer muito para Bella absorver os valores que temos em casa.

Há pouco tempo você começou a se dedicar a um novo esporte, o surf, como tem sido essa descoberta e como ela surgiu na sua vida?

Sou muito curiosa e sempre admirei a coragem de quem tenta decifrar o mar. A vida toda tive receio desse ambiente tão poderoso, mas me entreguei à oportunidade de aprender o esporte de forma completamente afetuosa. Através do amor, comecei a entrar nas ondas de mãos dadas, e entender que mergulhar também é lavar a alma.

Alguns trabalhos estão sendo retomados. Para este ano existe a expectativa de novos projetos?

Estou em gestação, construindo um personagem com todo afeto, gerando nuances de um novo universo. No momento é um processo sigiloso que nascerá em breve.

texto: Ester Jacopetti

fotos: Fabio Audi