A pluralidade de Carolina Ferraz

Carolina em ensaio fotográfico realizado em sua casa, em São Paulo

Produtora, apresentadora, jornalista, atriz e chef de cozinha, Carolina Ferraz gosta de um bom desafio; Nesta entrevista exclusiva, ela revela estar num processo profissional “criativo, interessante e plural”

Maio é um mês especial não só para as mães, mas para todas as mulheres que exercem a maternidade e ainda dão conta de muito mais. Elas não se resumem a uma coisa só, são guerreiras, determinadas, intuitivas, sensíveis e maduras. Escolhida a dedo para esta edição, Carolina Ferraz é uma delas. Além de produtora, apresentadora, jornalista, atriz e chef de cozinha, ela gosta de um bom desafio: “Nunca estive num processo profissional tão criativo, interessante e plural como neste momento”, revelou, em entrevista exclusiva à Revista Regional. À frente do programa “Domingo Espetacular”, na RecordTV, a apresentadora, que é mãe da pequena Isabel, 5 anos, e de Valentina, 26, fala sobre a criação das filhas: “Nós temos sim que preservar valores básicos.” Consciente do seu papel na sociedade, Carolina é a favor do amor livre, do grito de liberdade, mas sabe que para isso acontecer é preciso mudança: “Cabe a nós mesmos, individualmente como cidadãos, legitimar esse grito de liberdade de todos e todas”.

REVISTA REGIONAL: Sua estreia no “Domingo Espetacular” aconteceu há mais ou menos nove meses. Desde então, muita coisa mudou. Como você avalia sua evolução no programa, costuma fazer autocrítica e assistir às edições para analisar o que poderia mudar ou não?

CAROLINA FERRAZ: O tempo passa rápido, né? O tempo realmente passa muito rápido. Eu estou muito feliz, fui muito bem recebida pela emissora, a Record sempre me tratou com muita atenção e carinho. Tenho desenvolvido um trabalho bastante sólido, sério, à frente do programa, como apresentadora. Toda a minha experiência ao longo de mais de 30 anos de carreira, como atriz e apresentadora, só contribuíram para que a minha performance acontecesse da forma mais madura possível. Evidente que eu faço muita autocrítica, sou muito exigente com a minha performance. Eu tenho certeza absoluta de que sempre podemos melhorar, fazer o melhor, eu não espero outra coisa de mim. Se eu me comportei bem, se eu tive um bom desempenho, estou sempre torcendo para que eu consiga evoluir e me tornar uma profissional melhor no que eu faço. É um processo evolutivo, para mim, nunca acabado, mas estou muito feliz, porque tudo tem evoluído de uma maneira bacana, tanto a minha relação com toda a equipe, quanto com a galera que está dentro do estúdio comigo o tempo todo. Eu gosto muito do Eduardo Ribeiro (apresentador), ele é o meu companheiro. A minha evolução tem acontecido de maneira muito sólida e madura. Estou muito feliz com a minha experiência como apresentadora e também fazendo matérias para o “Domingo Espetacular”.

Em meio à pandemia, que já dura um ano, como você mantém a mente sã? O que normalmente te tira do eixo? Faz alguma terapia?

Sou filha da Psicanálise, já fiz terapia ao longo de toda a minha vida, comecei na adolescência. A terapia é fundamental. Sou fã de carteirinha e todo mundo deveria fazer, claro que não o tempo todo, cada um sabe de si, mas em algum momento da vida, é sempre muito bem-vindo. Há pelo menos uns cinco anos que eu não tenho feito, mas sempre fiz com muito prazer. Eu tive a sorte de sempre encontrar profissionais muito inteligentes que contribuíram para o meu crescimento, meu autoconhecimento. O autoconhecimento é sempre uma libertação, e nos ajuda a comunicar melhor, a nos colocar melhor, a olhar para nós mesmos de uma maneira mais madura, conscienciosa, e, portanto, evoluímos e criamos uma relação saudável com a gente mesmo. Sempre achei fundamental buscar o autoconhecimento e, através dele, chegar a um bem-estar, talvez por isso ao longo dessa pandemia, realmente, falando francamente, está dificílima de administrar em todos os aspectos. Eu fico pensando nas crianças, a perda para elas é irreparável academicamente; socialmente, em termos de amadurecimento, elas precisam uma das outras, do convívio no coletivo para que amadureçam, não tendo esse contato social, essa convivência escolar, tem sido muito sofrido para elas. Para os idosos também, porque estão isolados, estão sempre sozinhos, não podem dar suas caminhadas, tem sido difícil. A minha mãe tem 83 anos e, logo no início, ficamos três meses sem nos encontrar, foi muito sofrido, tanto que resolvemos nos rever a partir daquela data. Eu percebi que ela estava muito triste, e nós fizemos o confinamento com a maior seriedade possível, nos protegendo. Nós passamos um mês juntas num sítio. De lá pra cá, eu faço o teste semanalmente por causa do trabalho, o que não é nenhuma garantia, nós sabemos disso, eu posso estar confinada e receber um delivery que infelizmente pode chegar contaminado, mas o que está ao meu alcance e tudo que eu posso fazer para manter a mim e a minha família segura, eu definitivamente tenho feito. É o mínimo que eu posso fazer, porque se tem uma coisa que essa pandemia tornou clara, é que o bem e a segurança de um são de fato a segurança de todos!

Vivemos num mundo contemporâneo, onde queremos tudo ao mesmo tempo e agora, mas você acredita que a pandemia possa ter freado essa velocidade? Como você lida com o tempo?

Com as plataformas digitais e o acesso que todos temos online ao mundo lá fora, a nossa relação com o consumo mudou de uma maneira violenta, mas em relação à pandemia, talvez tenha trazido um fator positivo porque nunca antes ficou tão evidente o que de fato é supérfluo e essencial. Eu não vejo pessoas perdendo tempo ou gastando dinheiro com coisas que não são importantes ou relevantes pra ela ou pra família naquele momento. Os critérios mudaram, a maneira como a pessoa gasta o dinheiro mudou. Eu não sei o que vai acontecer quando a pandemia acabar, se as pessoas irão viajar ou gastar fortunas renovando o guarda-roupa. Eu espero que não. Espero que elas aproveitem essa experiência tão difícil que estamos todos atravessando para que voltem a valorizar realmente o que é essencial, o que é importante. Eu não compro uma roupa há anos, antes mesmo da pandemia eu já estava vindo de uma fase muito pouco consumista, agora com a pandemia não tenho comprado nada, comprei um aparelho de ginástica, alguns cadernos e umas agendas, pra poder seguir escrevendo, elaborando os meus projetos, não gosto de escrever no computador, prefiro papel. O meu consumo mudou, estou gastando mais dinheiro com alimentos. Um dia eu encontro um peixe bonito, levo pra casa porque quero fazer uma refeição, quero cozinhar, fazer um prato diferente, encontrar um tempero diferente. O meu consumo, e eu acho que isso reflete no consumo da maioria, voltou para o que me dá bem-estar a mim e a minha família. Eu tenho investido muito mais dinheiro comprando um bom tempero, uma ervinha fresca pra fazer a diferença no meu almoço para as minhas filhas, do que sapato e bolsa, isso passou a ser absolutamente irrelevante.

Falando um pouco sobre os padrões de beleza, apesar de as revistas de moda estarem mudando esse conceito, ainda estamos longe da evolução neste sentido. Ao acompanhar todas essas transformações que esse mercado vem passando, como é a sua relação em frente ao espelho?

O mercado vem mudando de várias formas, ainda estamos longe, sem dúvida, do que a gente considera ideal, afinal, preconceito e sexismo, infelizmente, estão presentes. Você veja, no mercado internacional, as grandes campanhas publicitárias são feitas com mulheres de 50 ou até mais, Julianne Moore, Julia Roberts, Nicole Kidman, Jennifer Lopez, Demi Moore estampando capas de revistas, além de Jennifer Aniston e tantas outras. Eu me lembrei de algumas, mas existem outros exemplos que são bem diferentes.

Discutir sobre envelhecer ainda está em pauta, mas você se cansa em ter que falar sobre este assunto? Acredita que é uma forma de opressão às mulheres que estão sendo questionadas o tempo todo sobre a velhice?

Eu jamais me canso de falar sobre envelhecimento porque faz parte da nossa vida. A gente vai envelhecendo, mas as questões básicas do dia a dia seguem exatamente iguais, envelhecer é isso, uma ordem natural das coisas, dos fatos, a gente tem que simplesmente abraçar o passar dos anos, e viver bem com isso. Eu sou muito feliz envelhecendo. Estou muito tranquila com o que a velhice tem feito por mim, inclusive ela tem me ajudado em muitas coisas, nunca estive num processo profissional tão criativo, interessante e plural como neste momento atual.

Você construiu uma carreira, casou, teve uma filha, e após alguns anos decidiu engravidar novamente. Essa é uma decisão cada vez mais comum entre as mulheres: a maternidade tardia. Como você trabalhou sua mente quando decidiu tomar essa decisão pela segunda gestação?

Olha, eu sempre quis ter outro filho, mas acabei me separando do meu primeiro marido antes da oportunidade de tê-lo. Depois, eu me casei com o pai da Isabel (filha de 5 anos), que queria ter filhos e não tinha. Quando você se casa com alguém que não tem filhos e se essa pessoa quer ter, a gente tem que pelo menos tentar, faz parte do pacote, e eu já tinha o mesmo desejo, juntou a fome com a vontade. Decidimos ter a Isabel e foi um presente pra nós dois. O Marcelo (marido) é um ótimo companheiro, é um ótimo pai, a Isabel é um presente, uma luz nas nossas vidas, não precisou nem fazer a minha cabeça, só fiquei feliz e curti bastante.

De uma filha pra outra são 20 anos de diferença, Izabel, 5 anos (Geração Alpha), Valentina, 26 anos (Geração Z), como tem sido pra você ser mãe de duas meninas que cresceram em gerações diferentes, e terão suas identidades influenciadas pelas redes sociais, internet, cultura do cancelamento?

É uma barra pensar nisso, aliás, quanto mais a gente se informa a respeito mais em pânico ficamos. Pelo menos eu, cada vez mais tenho tido uma série de ressalvas em relação às mídias sociais, e ao impacto da internet na nossa vida no dia a dia, de todos nós como sociedade. Existem coisas maravilhosas. O futuro já começou, as pessoas dizem quando o futuro chegar, mas ele já está aqui. O futuro chegou há 15 anos quando surgiu a oportunidade de te conectar com qualquer outra pessoa em qualquer outro lugar do mundo. A revolução começou neste momento. O grande desafio sempre será preparar o seu filho da melhor maneira possível, pra que ele consiga se relacionar no mundo que ele vive, no momento que ele vive. A Isabel, 5 anos, nasceu e com certeza está crescendo num ambiente diferente do que foi a Valentina, 26, mas dada as devidas proporções. A Valentina foi a primeira criança que cresceu com a geração do celular, que também é outra revolução, é muito interessante observar, mas a gente tem que entender que os processos vão acontecer de modernização cada vez mais rápido, e cada vez mais violento. Nós temos, sim, que preservar valores básicos, porque inteligência, nada disso adianta se você não tem ética, ética inclusive para a inteligência artificial também. Esse é um grande debate dos mais pertinentes e interessantes da nossa época, do nosso tempo, as questões sociais passam, sem sombra de dúvida, por absorver toda essa evolução tecnológica que nos é oferecida, mas principalmente por como controlar eticamente, pra que não nos tornemos escravos disso tudo. É um desafio, mas a gente vive os desafios dia a dia, sempre com a melhor intenção, torcendo pra que a gente consiga fazer o melhor, mas não sei mesmo, porque garantia nós não temos de nada.

E por falar em meninas, entrando um pouco na questão sobre feminismo, diante das desigualdades sociais, você acredita que o empoderamento pode ser considerado essencialmente burguês e elitista? Como você acredita ser possível chegar às classes menos favorecidas, nestas mulheres que realmente precisam entoar o grito de liberdade?

Primeiro que empoderamento é uma palavra chata, eu já não gosto de usar empoderamento, mas toda forma de amor vale a pena, todo grito de liberdade é legítimo. Nós temos, sim, como sociedade, ter de fato e de uma vez por todas, uma consciência social que nunca tivemos, como povo, como nação. Nós vivemos num país onde a maioria das pessoas vive em situação de vulnerabilidade, vive em situação de carência, e temos que entender que uma sociedade evoluída não deixa espaço para as desigualdades. A discrepância social no Brasil é muito difícil. É complicado alguém conseguir sair de uma classe desfavorecida, onde ela não tem recursos, não tem acesso à educação, conseguir transcender, fazer a virada e se formar, exercer uma profissão. A sociedade foi feita e construída de uma maneira muito opressora, e as distâncias sociais cumprem com esse papel cada vez mais com eficiência. Cabe a nós mesmos, individualmente como cidadãos, legitimar esse grito de liberdade de todos e todas, não só das mulheres, mas das crianças, dos pretos, dos pobres, todos nós precisamos nos unir e entender que o bem de um é o bem de todos. Parece muito utópico o que eu estou falando, mas existem comprovações científicas, estudos de várias ordens de universidades, de matérias publicadas, que realmente reafirmam que uma sociedade evoluída funciona melhor. Ela tem um cidadão mais feliz, é uma sociedade mais equilibrada a partir do momento que, de fato, as oportunidades existam com mais igualdade para todos. Nós temos que lutar para isso.

Aliás, eu não sei se você tem acompanhado, mas os atores estão se reinventando na pandemia, e apresentando espetáculos em formato de teatro-cinema, e isso levantou uma discussão sobre ser teatro ou audiovisual. Você já parou para refletir sobre este assunto?

Uma coisa que todo artista quer é estar trabalhando. Nós ficamos loucos se não estamos trabalhando, se não estamos inventando, se não estamos no palco; se não estamos produzindo alguma coisa. A gente quer ser artista, quer fazer arte. É maravilhoso essa busca por novos recursos, novas maneiras artísticas, porque diante de tanta coisa ruim que tem acontecido, diante de tanta dificuldade que os artistas têm enfrentado, os teatros, os cinemas, todos fechados, o artista precisa do contato com o público para poder exercer o seu ofício, não dá para fazer online, algumas poucas produções, inclusive, nos surpreenderam. Foram feitas online e são maravilhosas. Eu vi a peça da Mari (Mariana) Ximenes e adorei, da Débora Falabella também, adorei a Maitê Proença, vi alguns projetos, não consegui ver muita coisa. Muitos amigos fizeram e eu tenho certeza de que foram bem interessantes. Essas eu consegui assistir, e que legal, que delícia ver o artista se reinventar dessa forma. A gente quer encontrar novas maneiras de seguir trabalhando, se sustentar e nos manter como classe. É importante pra todos nós, a cultura é muito importante como nação.

Durante a pandemia você conseguiu filmar “Os Pandêmicos”, uma produção independente, mas como foi essa experiência dada a situação que todos nós estamos vivendo neste momento?

Eu, conversando com o Otávio Martins e o Juliano Araripe, e o nosso desejo enfurecedor de criar, inventar alguma coisa, nos impeliu a produzir “Pandêmicos”. Nós fizemos uma ação comunitária, todos somos coprodutores, trabalhamos sem nenhum cachê, sem nenhuma lei de apoio ou incentivo cultural, investimos o nosso próprio dinheiro, eu, o Otávio Martins, e o Peu Lima, nosso diretor e coprodutor, que entrou com toda parte de pós-produção. Sem isso, jamais teríamos conseguido. Foi maravilhoso. Nós filmamos em nove dias, com uma equipe reduzida, e graças a Deus deu tudo certo. Foi uma experiência despretensiosa, feita com baixo orçamento para o youtube, e hoje em dia, estamos em 70 plataformas ao redor do mundo, realmente foi um presente maravilhoso.

Em janeiro, você começou o curso na tradicional escola de culinária francesa “Le Cordon Bleu”, desde quando você tinha esse desejo?

Ter entrado no “Le Cordon Bleu” foi uma das decisões mais sábias que eu já tomei, tem me feito um bem espiritual, tem alimentado a minha alma. Eu chego para as minhas aulas, feliz da vida, eu me desconecto de tudo que há em torno, e só penso em cozinhar. Estou na metade do primeiro módulo, que é dividido em três, e estamos aprendendo as técnicas de cortes, de cultura, como tratar os alimentos. É do básico, do básico, do básico. Tem sido muito interessante, despeito de eu já ter experiência e já cozinhar, estou aprendendo técnicas clássicas que existem desde o século 19, algumas até anteriores a isso. Está sendo muito enriquecedor. Foi um presente que eu me dei, imagina, além de tudo, fazendo faculdade de culinária, realmente sou muito animada, né? (risos).

Carolina, eu gostaria de conhecer a sua história com a gastronomia, porque normalmente remete aos momentos em família, que alguém serviu de inspiração… Você sempre gostou de cozinhar para os familiares e amigos?

Desde pequena eu sempre gostei de cozinhar, a minha mãe é uma grande cozinheira, a minha casa sempre foi o quartel general de todos os amigos. Os amigos do meu pai frequentavam a minha casa, os amigos do meu irmão, os meus amigos, sempre foi um encontro de gerações e o pretexto era estar ali todos ao redor da mesa, conversando, trocando conversas, jogando conversas fora, batendo papo… Eu sempre associei a culinária ao afeto, sempre associei a culinária ao coletivo, só depois de adulta que eu passei a cozinhar pra mim mesma, até pra liberar o estresse, porque em alguns momentos eu chegava de uma gravação de 15 horas, exausta, eu tinha gravado 30 cenas, trocava de roupa várias vezes… Eu voltava e cozinhava, ou uma massa, às vezes uma omelete, e isso me desconectava e me fazia entrar num processo de relaxamento, me fazia muito bem, era quase como um autocuidado, e a minha vontade de cozinhar, surgiu meio que aventureira. Eu gostava de ir aos lugares, provar a comida, e através do paladar descobrir os ingredientes, voltar pra casa e cozinhar, tentar reproduzir a receita. Eu consegui várias vezes, tive sucesso em algumas e outras não, e aí foi… Realmente é muito genuíno, tanto que quando eu escrevi o meu primeiro livro, foi muito despretensioso, eu não esperava o sucesso que teve. Eu escrevi para os meus amigos, de tanto que eles me disseram: “você tem que escrever um livro”, e assim começou a história e o resto você já sabe.

entrevista: Ester Jacopetti

fotos: Nicole Gomes