Nanda Costa em entrevista exclusiva

Nanda em ensaio produzido em 2020, nos intervalos das gravações de “Amor de Mãe”, e seguindo todos os protocolos sanitários

  • Atriz que encerrou participação na novela “Amor de Mãe” fala sobre amor, preconceito e sua nova vida

Ela estava num ritmo intenso entre gravações e muitos cuidados com os novos protocolos de segurança para a finalização da novela “Amor de Mãe”, da TV Globo. Tanto é que levamos dois meses para conseguir uma brecha em sua agenda. Mas valeu a pena! Nanda Costa é uma mulher de conteúdo, que inspira; atriz excepcional, sensível, moderna e única. Engajada, seu depoimento nesta entrevista exclusiva tem a missão de abrir portas para outras vozes que precisam de representatividade. Confira a conversa exclusiva que a atriz teve com a Revista Regional.

REVISTA REGIONAL: Mulheres, negros, gays e outros grupos estão se unindo para reivindicar seus direitos. Depois que abriu o seu relacionamento (com a percussionista Lan Lan), você também contribuiu para esse movimento. Acredita que outras figuras públicas deveriam ter essa mesma atitude para fomentar a ideia de que as pessoas são livres para amar e se relacionar?

NANDA COSTA: É muito complicado apontar o dedo e dizer o que a outra deve ou não fazer. Cada um sabe de si, conhece as suas dores, e entende as suas limitações. Eu acho que cada um tem o seu tempo, e que deve ser respeitado. Na verdade, ninguém deve ser arrancado do armário – não gosto muito dessa expressão, mas ela se faz necessária. A sociedade precisa entender que todas as pessoas merecem direitos iguais. Seria maravilhoso se não precisássemos lutar pelo básico, pelo óbvio. Eu não tenho medo da luta, tanto que estou aqui, firme. Mas não vejo a hora que toda a diversidade possa descansar na paz e na prosperidade que todos os corpos merecem.

Nós precisamos da cultura, porque ela nos ensina a refletir, a sonhar, mas como tem sido para você ficar longe da sua arte neste momento de pandemia?

Eu fiquei um longo período sem produzir, e ter parado uma novela no meio me trouxe um sentimento estranho. Ninguém estava preparado para isso. Mas estar em casa e poder assistir às lives, reprises, shows, séries e filmes foram um alento nesse momento de tanta angústia, medo e de tanta dor.

Quem acompanha as notícias seja na televisão, nos jornais ou nas redes sociais, evidencia um número de mortos todos os dias assustador, em algum momento diante de tudo isso que estamos vivendo, você já pensou na morte?

Estamos no pior momento da pandemia, e me assusta as festas clandestinas, pessoas nas ruas sem máscaras, estamos desgovernados, com os hospitais lotados. Eu tenho rezado diariamente pela vacina. Hoje tenho medo de quase tudo, medo de ir ao mercado, medo de pegar covid, medo de contaminar as pessoas. Voltei ao trabalho porque senti confiança nos protocolos criados pela Rede Globo. Mas, de maneira geral, ando com muito medo.

“Monster Hunter” é uma produção cheia de efeitos especiais. É a primeira vez que você participa de um filme desta proporção? Como surgiu o convite e como foi atuar falando outro idioma?

Foi muito especial, como se fosse uma estreia, na verdade, foi uma segunda estreia… Estar lá, em um filme cheio de ação e com tantos recursos tecnológicos. Eu estava no meio de “Segundo Sol” (2018), com a vida em uma correria sem fim, tinha acabado de chegar dos EUA, pois concorri ao Grammy Latino (um enorme orgulho), e surgiu o convite. Eles nos pediram uma seleção de vídeos de trechos de alguns trabalhos. Eu escolhi as cenas que mais amo na minha trajetória. Deu um trabalho danado, mas eu mesma fiz questão de editar esse material. Quando a novela acabou (as gravações já foram encerradas), segui para a África do Sul. Fui muito bem recebida por todos. Milla (Jovovich) é um exemplo de profissional e de carisma. Foi muito carinhosa e receptiva. O idioma da minha personagem era o esperanto, e isso me trouxe certo conforto, afinal de contas, eu não conheço ninguém que domine esse idioma (risos).

O ator Rodrigo Santoro construiu uma carreira internacional, esse filme pode ser uma possibilidade para futuros trabalhos fora do Brasil?

Não é o meu foco, mas não sou de recusar trabalho, e jamais abriria mão de aproveitar uma oportunidade profissional rica como essa que vivi com “Monster Hunter”. Eu acredito que os personagens têm o destino certo, mas é preciso trabalhar e se dedicar para que esses encontros aconteçam. Eu não penso em largar tudo aqui e rematar a carreira lá fora. Mas se o convite vier na minha direção, eu não vou negar, jamais!

Nanda, o que você precisou adiar de projetos pessoais ou trabalhos devido à pandemia?

Parar a novela no meio foi um susto, algo totalmente inesperado e inimaginável. Os longas que fiz também tiveram seus lançamentos adiados ou adaptados. E esse 2021 ainda está longe de nos devolver a vida segura. Mais do que nunca, precisamos ficar em alerta. Estamos atravessando o pior momento da pandemia. É hora de aquietar, e quem puder ficar em casa.

Como você tem trabalhado os sentimentos na pandemia. Quais foram as complexidades e os encontros que você teve consigo mesma neste período?

Eu agradeço todos os dias por não precisar atravessar esse momento sozinha. A Lan é a melhor companhia que eu poderia ter. Eu vi a minha família pouquíssimas vezes, isso me entristece. Mas ter alguém que eu amo e que me ama, pertinho de mim, fez e faz toda a diferença.

Diante de uma pandemia onde o isolamento é essencial, como você lida com o tédio de não poder fazer o que mais ama que é atuar? Como você e a Lan estabelecem seus espaços e deveres dentro de uma casa? Eu me refiro essencialmente às tarefas de casa e não ao emocional.

Sou privilegiada porque mantive o meu emprego, e não passei por nenhum tipo de situação de necessidade. Eu amo atuar sim, mas agora é hora de pensar no coletivo. Estamos diante de uma guerra, muita gente adoecendo, perdendo vidas, seus empregos, e a esperança. Eu só saio de casa quando não tenho outra alternativa, e sempre tomando todos os cuidados do mundo. Em casa, de maneira geral, eu e a Lan somos parceiras em tudo, incluindo as tarefas domésticas. Ela sempre cozinhou melhor que eu, mas pratiquei tanto na pandemia, que acho que agora está ‘pau a pau’ (risos).

 

texto: Ester Jacopetti

fotos: Vinícius Mochizuki