Tainá Müller e seu ano de sucesso

Atriz fez sucesso em 2020 na série “Bom dia, Verônica”, na Netflix, que terá uma segunda temporada

Poucos artistas, em 2020, tiveram a oportunidade de se comunicar tão bem com o público como a atriz Tainá Müller. A jovem fez por merecer. Sucesso na série “Bom dia, Verônica”, da Netflix, a atriz tem muito o que comemorar. Envolvida com mais duas séries criminais, coincidência ou não, a dedicação ao trabalho foi reconhecida pelo público. Nesta entrevista exclusiva à Revista Regional, que abre o ano de 2021, falamos sobre muitos assuntos e todos eles trazem uma reflexão sobre algo: existencialismo, feminismo, otimismo, filosofia e futuro.

REVISTA REGIONAL: O sucesso de “Bom dia, Verônica” garantiu a segunda temporada da série. Apesar de ser ficção, sua personagem tem papel importante quando trata da questão no combate da violência contra a mulher. Mas você, como atriz, acredita que o público vai perceber esse lado social ou apenas se entreter?

TAÍNA MÜLLER: Acho que o público já percebeu, levando em consideração todo o debate e engajamento nas redes sociais que a série gerou. A ficção que contamos ali lembrou muita gente das próprias vivências e da altíssima taxa de violência contra a mulher registrada no Brasil. E esse, para mim, foi o maior gol da série. Ela não tinha a intenção de ser “educativa”, mas acabou indiretamente sendo, justamente por ter jogado o assunto na roda.

Coincidência ou não, você está engatando mais duas séries criminais, “Mal Secreto” e “Atenuantes”, esta inclusive se baseia em histórias reais. A partir de quando começam as filmagens e como é adentrar neste universo sombrio, eu diria, por conta da violência, do suspense e do drama?

Pois é, eu fui escalada para “Mal Secreto” e “Atenuantes” antes mesmo do lançamento de “Bom Dia, Verônica”. Então, acredito que seja uma coincidência. Pode ser que o Brasil esteja se aventurando mais no gênero e por isso tantas produções no estilo. As duas séries já estariam gravadas não fosse a pandemia, então agora não temos nenhuma previsão concreta. É preciso entender como vai ficar essa questão no Brasil em 2021.

“Nosso pensamento é influenciado por um algoritmo que reafirma o tempo todo nossos gostos e valores, criando bolhas de pensamento com muros intransponíveis”. Essa foi uma das suas respostas quando questionada sobre

luz no fim do túnel diante da situação que vivemos atualmente. Como você equilibra essas questões, já que, infelizmente, é quase impossível ficar aquém em relação às redes sociais e todas as informações que circulam rapidamente?

Tento fazer uso das redes sociais sem ser tão “usada” por elas. Mas seria ingenuidade da minha parte pensar que estando nesse ambiente estou protegida. Todos nós pagamos o preço de estarmos conectados, com nossos dados e nossa subjetividade psíquica sendo arquivada pela inteligência artificial dessas empresas com fins lucrativos. Então tento pelo menos fazer uso para divulgar meu trabalho, ideias e causas com as quais me engajo. E tento limitar o tempo de tela por dia, porque se a gente não toma cuidado realmente é tragada ali pra dentro.

Quando nos falamos você comentou que: “Estamos vivendo há séculos em um desequilíbrio energético entre feminino e o masculino. As duas forças precisam estar em harmonia e igualdade para prosperarmos sem a autoaniquilação”. Sendo mãe do pequeno Martin, como você planeja educá-lo para fazer parte de uma geração mais evoluída em relação à igualdade de gênero?

Para começar não me apegando a estereótipos. Nunca falo que determinada coisa “é de menino” ou de “menina”. Compro livros educativos que delicadamente abordam a igualdade de gênero. Tento educá-lo nos princípios da disciplina positiva, oferecendo escuta o tempo todo e trabalho para que ele entenda e acolha os próprios sentimentos, algo muito desestimulado na educação tradicional machista de meninos. Nesse momento, ele está aprendendo a lidar com a raiva, através de um livrinho da psicóloga Nanda Perim. É muito lindo poder educar de uma forma amorosa e não violenta. É um exercício que requer paciência, empatia e muito estudo também. Quando ele for mais velho e tiver uma compreensão melhor das coisas, vou poder explicar melhor para ele tudo o que venho estudando nos últimos anos sobre o tema.

Recentemente, a humorista Dani Calabresa decidiu denunciar abusos que teria sofrido do ex-diretor Marcius Melhem, embora ele negue. Muitas mulheres se manifestaram em apoio à vítima, inclusive você. Porém, a TV Globo demorou a se posicionar sobre o assunto, e foi criticada. Qual a análise que você faz diante dessa situação?

Não tenho dúvidas de que todas as empresas, não só as de comunicação que ficam mais em evidência, precisam agir rápido quando ocorre uma denúncia grave dessas. E também serem incansáveis na educação dos funcionários para desestimular completamente quaisquer práticas abusivas, punindo sem pudor os abusadores. Pode soar estranho exigir de uma empresa a educação de adultos, mas estamos nesse ponto de transformação do mundo onde as coisas precisam estar muito claras e evidentes para que essa cultura ancestral mude.

Estamos vivendo uma pandemia, e como estudante de Filosofia, é possível se apegar à religião? Ou você acredita nas reflexões de Nietzsche que, resumidamente, quando escreveu “Deus está Morto” não tinha intenção de dizer que a entidade divina havia deixado de existir, mas sim questionar se ainda era razoável ter fé em Deus e basear nossas atitudes nisso? Qual a sua opinião sobre este assunto?

Eu não acho que estudar Filosofia seja contraditório com ter religiosidade, muito pelo contrário, a Filosofia pensa também a existência sob o ponto de vista metafísico. Muitos filósofos são ateus, mas muitos outros não são. Mesmo Descartes não era ateu, apesar de ter inaugurado o pensamento do método científico no mundo, justificativa comum às pessoas que não acreditam em nada além do que se possa comprovar. Eu não sou religiosa no termo clássico, pois não sigo nenhum dogma excludente. Mas me considero uma pessoa espiritualista e de uma forma muito particular estou sempre em busca de uma conexão com a essência do invisível dessa grande orquestra que é a existência. Inclusive esse ponto de vista me ajuda muito na Filosofia, principalmente quando estou estudando filósofos da antiguidade, quando a Filosofia ainda era muito metafísica. Sobre a frase de efeito “Deus está Morto” do Nietzsche, acho que ela por si só renderia um livro que não daria conta de comentar numa entrevista (risos). Lembrando ele que era filho e neto de pastores, talvez por isso sua obra inicial esteja tão embebida de religiosidade. O que é maravilhoso na Filosofia é poder fazer o exercício livre do pensar, do questionar, de refletir sobre tudo e qualquer coisa. Inclusive sobre a existência ou não de Deus. É se deparar com o desconforto do mistério e usar a razão humana para tentar alcançá-lo.

Sobre o livro que escreveu, qual o título? Aliás, você comentou que seria lançado em dezembro, mas diante do cenário econômico, vai segurar mais um pouco. A ideia da obra é um bate-papo filosófico sobre parentalidade em transformação. Como você descreve essa transformação na sua família com a chegada do seu filho?

O livro parou por causa da pandemia e por conta de todas as demandas de estudos e trabalho que tive esse ano. Precisamos inclusive revisá-lo depois de passar por essa experiência. Mas deve sair no ano que vem. A chegada de um filho muda tudo e nunca estamos preparados o suficiente para tamanho impacto, cansaço e nível estratosférico de amor. É a maior aventura da minha vida, a alegria e a responsabilidade de ser fundamental na formação de um outro ser humano.

Tainá em ensaio fotografado em sua própria casa, em São Paulo

Com certeza 2020 foi um ano diferente para todo mundo e 2021 ainda é incerto, mas quais são as suas expectativas em relação ao ano que está começando? Você é otimista? Gosta de ter controle sobre o que vai acontecer na sua vida, ou deixa que as coisas ocorram de maneira natural?

Sou controladora e, para mim, deixar fluir é um esforço espiritual. Minha cabeça sempre foi a mil e meu trabalho me ajuda a botar mais energia pro resto do corpo. Quando não estou trabalhando fico muito mental e não gosto, pois minha busca eterna é por integração. Não sei dizer se sou otimista ou pessimista, acho que isso muda de acordo com o dia ou com a notícia. Mas de uma forma geral acredito que ser uma coisa outra pouco importa, o que me interessa é tentar ser cocriadora do mundo em que quero viver. Inclusive acredito que o grande propósito de estarmos aqui é o de criarmos coletivamente esse tal mundo, onde possamos encontrar serenidade e alegria, apesar de todos os aspectos trágicos da vida.

Por enquanto, a vacinação ainda tem data incerta em nosso país, mas quando ela já estiver liberada, qual será a primeira coisa que você pretende fazer?

Trabalhar no meu ofício, que é o que eu mais gosto de fazer na vida. E depois disso a segunda coisa: viajar.

 

texto: Ester Jacopetti

fotos: Caroline Lima