Nyotas: uma homenagem às mulheres negras

  • Nyota, no idioma swahili, significa estrela; Este é o nome dado ao Grupo de Mulheres Negras Saltenses, que há mais de dez anos realiza um trabalho de representatividade e força da cultura afro

Nyota é um nome de origem africana e significa estrela nas línguas swahili e lingala (faladas na República do Congo, algumas regiões de Angola, entre outros países da África). Alguns afirmam que também significa guerreira. Não à toa, há dez anos, foi o nome escolhido por um grupo de mulheres negras e acima de 50 anos para representá-las e tirá-las da invisibilidade.

Imagem que fez parte do Projeto Cores Nyotas, da artista chilena radicada em Itu, Pola Fernandez

Surgia o Grupo de Mulheres Negras Saltenses – Nyota, que, assim como o seu nome incomum, tem uma história revolucionária, de quebras de barreiras e avanços sociais. Mulheres Nyotas são as mulheres estrelas que refletem as cores do mundo na sua profusão.

A ideia de reunir mulheres negras acima de 50 anos foi da saltense Maria Almeida, que saiu procurando as participantes e as juntando para que as pessoas soubessem um pouco mais da cultura afro e, principalmente, os saberes e vivência de cada uma delas. O lançamento aconteceu com um desfile, que resgatou toda a riqueza afro de uma cultura que foi silenciada por tantos anos, mas que marca a identidade do povo negro. E o desfile se transformou no marco anual do grupo, que é realizado sempre na semana da Consciência Negra, em novembro, também como forma comemorativa à data. Este ano, infelizmente, não ocorrerá por conta da pandemia e da necessidade do distanciamento social.

“A alegria e a confiança da Maria (Almeida) após os 50 anos foi o estopim de tudo. Muitas de nós eram confiantes, mas não todas, e a Maria dizia que a gente era linda e alegre e que tínhamos que nos revelar ao mundo. Nosso objetivo sempre foi resgatar e mostrar que as mulheres com mais de 50 anos, principalmente as negras, ainda têm muita beleza e leveza. Outro ponto importante foi levantar a autoestima da mulher, e afirmar que a beleza independe de idade e raça. Elas podem ser modelos com mais 50, mesmo não tendo um corpo escultural e dentro dos atuais padrões de beleza impostos pela sociedade”, conta a coordenadora do Grupo de Mulheres Negras de Salto – Nyota, Aparecida de Fátima Herculano Dias.

Segundo dona Fátima, como é conhecida, as mulheres negras de antigamente não tinham oportunidades e muito menos chance de opinião. Hoje é o contrário e elas são diferentes, guerreiras e representantes de um povo. Lutam para combater o racismo e ter liberdade com direitos iguais.

Dona Fátima ressalta que a mulher negra, independentemente do reconhecimento histórico, sempre esteve presente nas lutas do seu povo. “A força da mulher negra nunca se esvaiu, de vez em quando se aquieta, parece que vai se apagar, mas aí a gente se lembra das que vieram antes de nós e que oportunizou a nossa história até aqui. Aí a força brota, a força que está contida dentro do ser supera a submissão e o medo, e ganha não apenas o empoderamento do ser mulher, mas do ser mulher negra, de continuar acreditando na vida, de que um mundo melhor é possível”, comenta.

Ao longo dos mais de dez anos de existência, o grupo teve um crescimento cultural muito grande. Conquistaram uma série de parceiros que se juntaram a elas para que suas vozes ganhassem ainda mais representatividade e força. Embora o desfile seja o mote, foi o que as moveu a ter outras atividades como palestras e oficinas temáticas nas escolas, rodas de conversas e exposições.

Nos colégios, são convidadas em datas específicas como o Dia da Consciência Negra e levam um pouco da cultura afro às crianças, reforçando a importância de cada item como a vestimenta, as cores, as comidas e os costumes. “Somos muito bem recebidas e as crianças se mostram muito interessadas. Passamos conhecimento e recebemos uma energia maravilhosa em troca. É uma maneira de passar um pouco mais sobre a nossa cultura às novas gerações, que levarão adiante nosso conhecimento”, afirma Fátima.

A abordagem da cultura afro nas escolas acontece de forma natural e conforme a idade das crianças. Para as menores, de uma forma lúdica que chame a atenção delas e para os maiores com histórias. O final é sempre um bate-papo que flui naturalmente, de forma aberta e que aborda todo tipo de tema, incluindo o preconceito.

Dona Fátima conta que esse assunto, muitas vezes, é trazido por alunos da terceira série do ensino médio, que contam experiências negativas que já passaram. De acordo com ela, nas rodas de conversas se ouve de tudo, principalmente adolescentes que afirmam já ter praticado algum ato de preconceito, por não saberem identificar o que estavam fazendo, até os que assumem que praticam porque são racistas e preconceituosos. “É dolorido ouvir, mas respondo que é um direito deles não gostar de negro e que ninguém é obrigado a gostar de todo mundo, mas gostar é diferente de respeitar e nós precisamos ser respeitados”, enfatiza.

Para dona Fátima, apesar de o racismo ser um tema que causa muita tensão e inquietação, é relevante demais para o povo negro e tem que ser levado em consideração e debatido. O racismo tem muitas facetas, vai além do preconceito e do xingamento. Racismo é discriminação, racismo institucional, racismo estrutural. A lista é longa. Nosso discurso é de igualdade social, é igualdade para todos. É um trabalho de formiguinha, que tem que ser constante, porque o preconceito existe, está aí e não diminuiu ao longo dos nossos dez anos de grupo. O racismo machuca, magoa, mata”, afirma.

“Fotografias que nos dão visibilidade”

Dona Fátima conta que a trajetória do Grupo de Mulheres Negras Saltenses – Nyota segue trajetória apoiada em registros orais e principalmente em imagens. “Fotografias que não dão visibilidades”, afirma em tom bem forte.

Imagem que integra o Projeto Cores Nyotas, da artista Pola Fernandez

Tais imagens são produzidas pela fotógrafa e artista Pola Fernandez, chilena radicada em Itu, que tem trabalhos focados na pesquisa e resgate da cultura africana, exatamente por meio da memória da mulher negra brasileira, representada pelo Grupo de Mulheres Negras Saltenses – Nyota.

Todo esse trabalho resulta em exposições, todas abertas ao público. No Projeto Cores Nyotas, por exemplo, Pola propõe uma nova forma de pensar a construção da identidade e formação das memórias ancestrais afrodescendentes, sendo o fio condutor dessa nova jornada a chita, um tecido que apresenta como marca característica a profusão de cores e ornamentos. E toda essa vitalidade é utilizada, segundo Pola, como recurso estético fundamental dos retratos, que remetem também a um processo de construção da identidade.

Já o Projeto ATAVOS tem a intenção de levar a cabo uma investigação visual de como se pode evidenciar uma ancestralidade perdida na ausência de uma árvore genealógica. Cada uma das integrantes do grupo escolheu uma foto antiga de uma suposta escrava que poderia ser a sua ancestral. A fotografia foi ampliada e colada ao lado para, assim, fazer a filmagem final.

Outro projeto, o Fios do Passado, foi realizado entre 2015 e 2016 e era composto por telas feitas com técnica mista de fotografia, bordado e colagem. Já o Projeto Navio deu continuidade ao exercício de vivência, reflexão e criatividade do grupo, a partir de um desenho antigo de um navio negreiro sobre o mar impresso sobre tecido, um grande painel artístico foi montado coletivamente com a aplicação de bordados com trechos do poema ‘Navio Negreiro’ do poeta Castro Alves, que mais sensibilizaram cada uma das integrantes do projeto.

texto ALINE QUEIROZ

fotos POLA FERNANDEZ