Uma homenagem a todos os pais através dos médicos

A homenagem de Dia dos Pais deste ano da Revista Regional ressalta o médico, personagem fundamental na batalha contra o novo coronavírus

 

No ano em que a pandemia do novo coronavírus obrigou o mundo a ser menos egoísta e mais empático, a se isolar e rever conceitos sociais e morais, os profissionais de saúde à frente no combate à covid-19, principalmente os médicos, também tiveram as suas imagens transformadas perante às pessoas.

Antes vistos como frios e até insensíveis, hoje o mundo os vê como heróis e, principalmente, pessoas com sentimentos. Para comemorar o Dia dos Pais, a Revista Regional decidiu, por meio da figura médica, homenageá-los e conversou com quatro profissionais de especialidades diferentes. Nos bate-papos descontraídos, eles falaram um pouco mais sobre a paternidade e o amor pelos filhos e pela medicina.

Luiz Mestieri com os filhos Giovanni e Anna

Pai do Giovanni, de quatro anos e da recém-nascida Anna, o endoscopista Luiz Mestieri sempre viveu a medicina dentro de casa. Filho de um cirurgião, decidiu ser médico pela convivência com o pai. Atualmente, atende em clínica própria, além de fazer emergências nos hospitais Monte Serrat e Unimed, em Salto, São Camilo, em Itu, e Regional, em Sorocaba.

Apesar de não estar no front, dr. Luiz tem trabalhado muito e se surpreendeu com o movimento da clínica durante a pandemia. “Achei que teria uma queda de exames no consultório, mas foi ao contrário. As duas primeiras semanas foram mais tranquilas, mas depois a parte de exames normalizou. Encaro da seguinte maneira: muitos não deixaram de se cuidar e outros passaram a se cuidar mais por medo de adoecer”, comenta.

A pandemia mudou também um pouco da rotina em casa, com a família e, principalmente, com o filho Giovanni, que sentiu um pouco o fato do pai chegar em casa e primeiro fazer a higienização completa antes do tradicional abraço carinhoso. O lado positivo é que, apesar de estar com muito trabalho, o tempo que fica em casa é maior e isso aproximou ainda mais a família. “O tempo que conseguimos ficar juntos tem sido bem mais aproveitado. A gente gasta energia, corre, pula e faz todas aquelas brincadeiras de moleque. Viro criança de novo, vou brincar de luta, viro super-herói, ninja. O fato de a Anna ter nascido recentemente também nos uniu ainda mais e é muito bom ver o cuidado do Giovanni com a irmã”, conta.

Outro fator que deve ser levado em consideração neste momento pandêmico, de acordo com dr. Luiz é a relação médico e paciente. Para ele, por muitos anos o médico teve autoridade, importância e talvez até uma idolatria, que foi desaparecendo com o tempo, mas ainda assim ficou aquela imagem de frieza. “A pandemia trouxe algo importante: caiu o mito do médico vilão e mostrou que ele é um ser humano como qualquer outra pessoa. Estamos vivendo esse estresse junto com o paciente”, afirma.

O ortopedista Flavio Garcia e a pequena Helena

Pai da Helena, de seis anos, o ortopedista e traumatologista Flávio Garcia Ramos, sócio-proprietário da Ortolife Indaiatuba, também vê esse olhar humanizado para os médicos como um ponto positivo do caos pandêmico. Para ele, a sociedade passou a respeitar ainda mais os profissionais, além de reconhecer o trabalho médico, principalmente os que estão expostos diretamente com acometidos pela doença. “Percebo que as pessoas passaram a valorizar muitas coisas que antes não eram dimensionadas”, explica.

Assim como todos os entrevistados, dr. Flávio afirma que as rotinas de trabalho e da família foram alteradas e poder ficar mais tempo com a filha tem sido extremamente positivo e dá um certo conforto ao atual momento. “Sou um pai babão e a paternidade, na minha opinião, é o melhor sentimento na vida de um homem. Muitas vezes paro e fico apenas observando e admirando a beleza da minha filha”, confessa.

PAI HERÓI

O cirurgião vascular e angiologista Renato Ribeiro sempre se imaginou salvando vidas. Quando criança sonhava em ser bombeiro para cuidar do próximo e enfrentar incêndios, mas com o passar do tempo se identificou com a medicina. Sua vida sempre foi voltada aos estudos e formação profissional e o ritmo de trabalho intenso foi deixando a paternidade em segundo plano. Tudo mudou após conhecer a esposa, Geovanna, se casarem e planejarem a gravidez.

Renato Ribeiro com os gêmeos Enzo e Enrico

Segundo dr. Renato, o fato de ser pai o assustava um pouco, “pois ser filho é muito mais fácil”. Ao descobrir a gravidez dos gêmeos Enzo e Enrico, de seis anos, a mistura de sentimentos como alegria, medo, amor e susto o dominou e ele nunca mais foi o mesmo. “Ser pai foi a oportunidade que Deus me deu de me tornar uma pessoa melhor, experimentar um amor incondicional que até então eu não podia imaginar. É ter a sabedoria de escutá-los, aconselhá-los e muitas vezes dizer não para eles. Aprendo todos os dias com os meus filhos”, declara.

Dr. Renato atende em consultório próprio, mas também em UTI e pronto socorro e está ali na linha de frente, ajudando a cidade a combater os casos de coronavírus. Mesmo assim, fez uma série de adequações à agenda, reduziu plantões, espaçou os horários de consulta na clínica, tudo a fim de tentar diminuir a exposição e preservar ao máximo a família e também priorizar o tempo com eles.

“Quando estamos todos juntos, brincamos de tudo, jogamos, assistimos a filmes, andamos de bicicleta. Além disso, ajudo nas lições de casa e até tento dar uma mãozinha em alguns afazeres domésticos”, brinca.

O cirurgião e emergencista Adriano Vendimiatti é filho de uma enfermeira, foi praticamente criado em hospital e naquele ambiente sempre a ouvia elogiando e admirando os bons médicos com quem trabalhava. Assim nasceu a vontade de ser o herói da sua mãe e ser médico também. Anos depois, o sonho foi realizado e eles chegaram a trabalhar juntos.

Adriano Vendimiatti com os filhos Miguel e Isabella

Dr. Adriano passa 90% do seu tempo trabalhando dentro do hospital, operando ou na emergência, em Indaiatuba e Campinas. Estar no front para ele mudou apenas em duas coisas: o risco de contrair o vírus e o volume de trabalho, pois o número de pacientes atendidos nos últimos meses aumentou muito. “Alas e salas que antes eram para cuidar de determinadas doenças, ou até mesmo para cirurgias eletivas, hoje são prioridade de covid-19. Estamos trabalhando cada vez mais no mesmo intervalo de tempo”, afirma.

Apesar da pandemia e do alto fluxo de trabalho, dr. Adriano tem conseguido ficar mais tempo com os filhos Miguel, de seis anos e Isabella, que fará três anos em outubro, que assim como todas as crianças tiveram a rotina muito alterada, estão trancados em casa ocupando o tempo com televisão e tablet. “Minha esposa, Carina, se desdobra para criar brincadeiras e atividades para gastar a energia deles. Acho que todas as crianças estão mais tensas nessa pandemia. Elas são esponjas que absorvem muito bem o ambiente ao redor, então temos que tomar cuidado com o que levamos para casa, e não estou falando de coronavírus”, alerta.

Por isso, toda folga que tem foi priorizada para a família, o que ele considera ótimo, pois os aproximou ainda mais. “Ser pai é ter o privilégio de poder participar da formação de um ser humano, desde uma sementinha até um adulto completo. Não existe nada mais sublime, então precisamos aproveitar ao máximo e nos atentar para não deixar a rotina do dia a dia nos engolir e perder momentos tão importantes”, enfatiza.

O menino que sonhava em ser o herói da sua mãe hoje se transformou no herói de jaleco de toda uma comunidade. Além do dia a dia no front, dr. Adriano usa suas redes sociais para disseminar informações corretas sobre o novo coronavírus e alertar a população dos riscos da covid-19.

“Esse novo olhar da sociedade para o médico me deixa muito feliz. Acho que se tinha alguma dúvida de que nós, médicos do SUS, suávamos a camisa para merecer nossos salários isso não existe mais. A saúde no Brasil é precária, e uma boa estratégia dos governos é jogar os usuários do SUS contra os profissionais, assim ambos não se unem para reivindicar melhorias. A covid-19 nos igualou e as pessoas entenderam que também somos vítimas quando o SUS está ruim. A pandemia é uma lente que amplia tudo, o bom e o mal. Mas é muito bom ser reconhecido pelo que fazemos e espero que isso continue”, finaliza.

(reportagem de ALINE QUEIROZ)