O futuro da Moda pós-pandemia

Com semanas de moda e coleções canceladas pela pandemia, o setor vive uma de suas maiores crises

As consequências desse período da pandemia ainda são incertas, mas especialistas apontam alguns possíveis caminhos para o setor

 

Especialistas em moda ouvidos pela Revista Regional acreditam que a atual crise causada pela pandemia do novo coronavírus vai impactar o setor mais pela questão comportamental do que estética.

 

“Haverá mudanças significativas no nosso comportamento, que trará grandes transformações e revolução no pensamento vigente. Vamos rever valores e mudar hábitos como cidadãos e como consumidores”, afirma a estilista e professora de Moda, Fátima Lucia Cruz, de Salto. Para ela, essas mudanças, na verdade, já vinham ocorrendo, mas foram aceleradas nesse período da pandemia. “Há tempos estamos observando mudanças no comportamento dos consumidores. Existe um apelo por menos consumo ou um consumo mais consciente. Comprar menos e optar por produtos mais duráveis será uma prática cada vez maior, vamos comprar com mais cuidado”, observa a estilista.

 

Manita Menezes, professora e doutoranda na área de Moda, tem o mesmo raciocínio: “Geralmente, depois de uma grande depressão, a moda volta mais exagerada. Depois do inverno vem o verão e as cores bem vivas, por exemplo. Mas acredito que desta vez não vai ser só isso. Acho que vai haver uma mudança no consumo, na forma de consumir”. “[Essa mudança] Já estava em curso, mas acredito que agora vai se intensificar. Nos últimos 15 anos começou um movimento contra fast fashion, mas de um jeito tímido. Agora a curva vai ser mais intensa”, defende a docente.

 

Fátima acredita que a moda será impactada de maneira “irreversível” pela atual crise causada pela pandemia. “Considerada uma atividade não essencial, a moda está num dos setores que mais estão sofrendo com a pandemia, ficando atrás apenas do setor de turismo e aviação. Como é um setor que emprega muito, haverá impactos sociais muito grandes, principalmente entre as mulheres, que representam a grande maioria da mão de obra.”

 

A estilista faz também um alerta importante aos empresários do setor: “Neste momento, as empresas podem amenizar os impactos, pois o consumidor está atento ao posicionamento que elas estão tomando diante da pandemia e não vão perdoar deslizes: é o momento de respeito, solidariedade e sinceridade. As pessoas estão morrendo e o consumidor quer saber qual a posição da empresa diante de tamanha catástrofe e esta posição independe do tamanho ou do faturamento dela. O consumidor também quer saber como a marca está tratando seus funcionários, qual o cuidado com a cadeia produtiva e com os seus clientes. O simples fato de não se abrir o comércio e ficar em casa já marca o seu posicionamento. A Vogue Itália, no mês de abril, publicou a sua capa toda branca, numa atitude de respeito às pessoas que estão morrendo”.

 

Quanto às novas tendências, Fátima prefere não arriscar muito, pois considera esse momento “único e, por isso, vai ser completamente diferente de outros momentos da história”, mas acredita que haverá mudanças. “Estamos mais em casa, o ‘home office’ está mudando nossos hábitos e, com isso, muda o estilo, vamos precisar de roupas com design confortável, tecidos inteligentes e fáceis de cuidar.”

 

A moda sustentável, que já vinha se tornando uma realidade antes da pandemia, inclusive com várias grifes internacionais engajadas em questões socioambientais, deve ser mantida no pós-pandemia. “Não só mantida, como reforçada, com toda certeza! Tendências como Slow Fashion e a Moda Autoral valorizam o design que é pensado com mais cuidado, e o consumidor já percebe os efeitos. O conceito Upcycling, por meio da economia circular, reaproveita produtos recolocando-os na cadeia produtiva e dando um novo significado nas marcas que estão em alta. No setor produtivo, podemos observar as mudanças nos calendários das coleções. Algumas confecções, que lançavam cinco coleções no ano, estão reduzindo para duas. Manter cinco coleções é uma loucura e gera uma pressão enorme por consumo, que muitas vezes não se concretiza. Com isso, há promoções que banalizam os produtos e todo mundo perde. Perde o confeccionista que corre para produzir várias coleções, perde o lojista que fica sufocado e precisa desovar esse produto antes da próxima coleção e que se desvaloriza, e perde o consumidor final que se sente enganado, pois paga um preço x pelo produto, mas um mês depois o mesmo é vendido pela metade do preço”, observa Fátima.

 

A estilista, assim como outros especialistas do setor, acredita totalmente num consumidor menos consumista, no estilo “menos é mais”. “O sucesso das coleções cápsulas comprova, com criações de peças atemporais e coordenadas entre si, que essa é uma tendência. E não estão distantes do grande público, pois muitas marcas populares já estão lançando coleções cápsulas de olho nesse consumidor que está cada vez maior e mais exigente”, ressalta. Para ela, “o novo luxo será você consumir produtos locais com mão de obra local. Você saber de onde vem, quem faz e como é feito o produto que você consume”. “Seremos mais cuidadosos com aquilo que consumimos”, sentencia. Fátima vai além, e decreta o fim do fast fashion nos próximos ciclos: “Talvez ainda demore um tempinho, mas acho que o fast fashion está com os dias contados”. “Existe um movimento global de conscientização nesse sentido. Recomendo assistir a um filme que tem um poder transformador: ‘The TrueCost’, do diretor Andrew Morgan. Ele fala do custo real da moda descartável”, indica.

 

Segmento pode passar por uma grande transformação

“O que vestiremos irá mudar…”

 

Fabio Bueno, coordenador do curso de Moda do Ceunsp-Salto (Ceuntro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio), destaca que o cenário atual, desencadeado pelo novo coronavírus, prediz uma forte mudança nas prioridades e no consumo em todos os segmentos e em vários sentidos. “Todo o setor de Moda foi impactado, vemos uma pausa brusca no setor varejista que não consegue expor as roupas presencialmente e teve que se readequar ao meio online, os eventos de moda foram cancelados, impactando vários estilistas, modelos, maquiadores e outros profissionais. A insegurança do consumidor que reduziu as compras durante o período prevendo recessão que acontecerá corrobora impactos grandes no setor que terá uma redução de demanda e necessidade de alteração na cadeia produtiva têxtil, as marcas de moda terão que se adaptar para manterem-se estáveis nos próximos anos, isso afetará o número de coleções e quantidade de criações por coleção”, alerta.

 

Para ele, as alterações no comportamento do consumidor influenciarão muito as criações de moda no período pós-pandemia. “As marcas terão que criar roupas mais perenes, que sejam versáteis e que serão menos substituídas pelo consumidor. Estilistas precisarão se atentar às mudanças psicológicas e comportamentais que acontecerão devido à pandemia, tanto no sentido de adequar as criações às necessidades físicas das pessoas, quanto ressignificar e repensar a moda para superar essa crise”, aconselha.

 

Em várias épocas e situações opressoras e difíceis que a sociedade passou, a moda refletiu as preocupações emergentes e um posicionamento sobre os assuntos. Para Fábio, “o ato de se vestir é político e cultural. A escolha das estampas, das cores e modelo de roupa que escolhemos determina uma comunicação com a sociedade. Então, em um momento tão impactante, é normal que as criações sejam muito influenciadas pelas mudanças bruscas que essa pandemia fez a sociedade passar, mudou a forma como nos comunicamos, nos relacionamos, trabalhamos e vivemos, com isso o que vestiremos também vai mudar.”

 

Devido à crise e à redução do poder de compra das pessoas, as escolhas de grande parte do público, segundo Fábio, muitas vezes “terão que ser mais versáteis e atemporais”. “O consumo das pessoas será voltado em um curto-médio prazo às escolhas que atendam mais às necessidades do que aos desejos das pessoas. As marcas e estilistas que aliarem versatilidade, estética em itens customizados e acessíveis às expectativas do seu público-alvo terão melhor desempenho nesse novo mercado, para o consumidor muitas vezes o ‘menos’ será necessário”, prevê.

 

Questionado sobre como será o mercado de luxo no período de volta à “normalidade”, Fábio lembra que este segmento sofreu queda nas vendas e produção com o início da pandemia, já que as vendas eram focadas na experiência de excelência no varejo. “Várias marcas estão se reposicionando e outras criaram ações de responsabilidade social, o brand equity das marcas será impactado através da relação de como a empresa se posicionou perante a sociedade durante esta pandemia. Isso pode ser visto nas grandes marcas italianas que fizeram doações e apoiaram a região da Lombardia, que engloba Milão, ponto focal da moda no mundo”.

 

Fábio ressalta que o conceito de luxo vem da percepção de exclusividade e de alto padrão de qualidade. “As marcas que atendem esse mercado deverão consolidar esses fatores através de autenticidade, diferenciação e responsabilidade. Por exemplo, através da rastreabilidade da produção, o ‘feito à mão’, o artesanal, o único terá um significado mais empático que reforçará as marcas que se sintonizarem a essa expectativa”, define.

 

Para o chamado fast fashion, ele acredita numa “mudança da lógica das marcas que trabalham nesse modelo”. “O impacto nesse segmento foi grande durante esse período, as marcas terão que pensar em meios de vender as peças que ficarão fora de moda rápido. As novas coleções em um curto-médio período terão que ser adaptadas para uma oferta mais consciente. Assim como todo o restante do mercado, as marcas que acharem soluções criativas de venda e criações sincronizadas com o momento do seu público se sairão melhor no mercado”, adverte.

 

reportagem de Renato Lima

foto: AdobeStock e Agência Fotosite/SPFW