Brasileiros da região enfrentam a pandemia no exterior

 

Revista Regional conversou com vários brasileiros que estão nesse momento de crise global vivendo em países da Europa e nos EUA; eles contam como enfrentam a pandemia longe da terra natal e as preocupações com o futuro e o Brasil

 

 

Talvez nossa geração nunca tenha imaginado fazer parte de um dos capítulos mais marcantes da história recente do planeta. Estamos vivendo e escrevendo a história mundial. Ainda não sabemos para onde essa crise sanitária irá nos levar, mas é certo que no futuro nossos filhos e netos olharão o passado através dos livros e e-books de história e aprenderão muito com o que estamos vivenciando nesse momento.

 

 

A pandemia do novo coronavírus fechou fronteiras e congelou as atividades econômicas e sociais de praticamente todo o planeta. Alguns países com mais ou menos restrições. Mas nenhum ser humano deixou de ser afetado pelas consequências dessa crise. A Revista Regional contatou diversos brasileiros da região que estão nesse momento vivendo fora do Brasil, em países da Europa e nos EUA. Eles contaram como estão encarando a pandemia e enfrentando a quarentena longe da terra natal.

 

 

O fotógrafo Renatto Athayde está quase dois anos em Nova York

O fotógrafo Renatto Athayde é um deles. Há quase dois anos morando no bairro do Brooklyn, em Nova York, o brasileiro viu de perto os efeitos da pandemia na maior cidade americana, uma das mais atingidas pelo vírus em todo o mundo. “As informações por aqui não são de fácil acesso como no Brasil, não costumamos assistir à televisão, então muitas vezes ficamos sabendo em sites locais, vizinhos ou amigos. Lembro-me de que quando ficamos sabendo sobre a covid-19 na China, não achávamos que se tornaria uma pandemia e isso veio a se agravar muito rapidamente por aqui. Um dos primeiros boroughs (espécie de distrito de NY) afetados e isolados foi Rochester. Foi quando começamos a nos preocupar com o vírus, porém, a essa altura, ele já tinha se espalhado rapidamente”, conta Renatto.

 

 

Os restaurantes foram os primeiros comércios afetados na cidade, mudando a rotina de muita gente, inclusive a do próprio Renatto, já que, além de fotógrafo, ele também trabalha como bartender em um estabelecimento local. A exemplo do Estado de São Paulo, apenas mercados, farmácias, comércios considerados essenciais não foram fechados em Nova York (até o momento da entrevista concedida à Revista Regional, em meados de abril).        

 

 

A crise econômica, gerada pela pandemia, afetou em cheio a vida de muitos imigrantes, como conta o brasileiro: “Nova York tem muitos imigrantes, muitos estão sem emprego e sem reserva financeira, e isso está causando alvoroço, pois muitas pessoas querem voltar aos seus países e não estão podendo. Um verdadeiro caos!”, desabafa o fotógrafo. Segundo ele, a comunidade brasileira é uma das mais afetadas, com muitos conterrâneos vivendo lá sem documentação e, consequentemente, sem auxílio do governo.

 

Além da crise econômica, eles enfrentam o medo de serem infectados e de dependerem do sistema de saúde norte-americano, que é bem diferente do brasileiro. “Não tive contato e nem conheço nenhum brasileiro que foi infectado até o momento. Eu evito sair ao máximo nesse caos, pois a medicina nos EUA é algo bem complicado, os valores a serem pagos são muito altos, então, para quem não possui convênio médico, é quase impossível (ter tratamento)”, ressalta. 

 

Thiago Kaizer vive na divisa da Suécia com a Dinamarca

Do outro lado do Atlântico, a Europa é outro continente mais atingido pela pandemia. E lá estão milhares de brasileiros, inclusive da nossa região. O saltense Thiago Kaizer está há oito meses vivendo em Malmö, no sul da Suécia, a 20 minutos de Copenhague, capital da Dinamarca. Ele conta que o país teve o primeiro caso de covid-19 registrado no final de janeiro, no entanto, a rotina da população seguiu normalmente até o dia 13 de março, data em que a Dinamarca aderiu à quarentena. Já a Suécia não está em quarentena como os demais países europeus, apenas adotou alguns pacotes de auxílio de renda e suspensão de determinados impostos. “Mas a população sueca, temendo a pandemia vista nos demais países da Europa, aderiu à quarentena. Então, muitos restaurantes e bares estão abertos, porém sem clientes. As pessoas estão evitando contato, elas ainda saem para as ruas, mas mantêm distância”, explica Thiago.

 

Elaine Kaizer e o marido Renan Buzzi são de Salto, mas vivem atualmente na Europa

Não muito longe da Suécia, em Londres, está a irmã de Thiago, Elaine Kaizer. A capital inglesa foi outra localidade bastante afetada pela pandemia. Vendo de perto a situação crítica enfrentada pelos londrinos, Elaine se preocupa com os brasileiros que deixou na terra natal, e tenta de todas as formas conscientizar o maior número de pessoas em seu país para os riscos da doença. “Temos (ela e o marido Renan Buzzi) falado com nossos amigos e divulgado alguns números no meu Facebook para conscientizar os colegas brasileiros sobre o risco do vírus e a necessidade de manter o distanciamento e, se possível, o isolamento social. Infelizmente, muitos ainda permanecem desacreditados. Acredito que, quanto mais falarmos sobre o tema, maiores são nossas chances de conscientizar a população”, observa.

 

A exemplo do governo brasileiro, no início da pandemia, o premiê britânico Boris Johnson também duvidava da gravidade do vírus (nesse caso, ele foi infectado e chegou a ser internado numa UTI, recuperando-se dias depois). Elaine conta que até o mês de fevereiro, o foco na Inglaterra, inclusive da mídia local, estava direcionado para a Itália e a Espanha, países que eram naquele momento epicentros da pandemia. “Parecia que a Inglaterra estava protegida contra o coronavírus. Inclusive, a empresa onde eu trabalho tem operações nesses dois países e o CEO da companhia convidou alguns funcionários de lá (da Itália e Espanha) para ficarem em Londres durante o pico da contaminação. Porém, em março, as coisas começaram a mudar por aqui”, lembra.

 

Com as fronteiras fechadas, os vôos para o Brasil também foram cancelados e Elaine e o marido Renan não puderam vir a Salto, onde passariam a Páscoa em família. Enquanto isso, na empresa, o número de funcionários com sintomas da doença começava a preocupar o casal. Foi então que Elaine decidiu, em 13 de março, adotar o trabalho remoto, visando blindar a saúde dos profissionais que não poderiam trabalhar de casa, como o departamento de call center. A brasileira se lembra de um momento marcante e emocionante naquele dia. “Naquela última sexta-feira de trabalho, o clima na empresa estava péssimo. Nossos colegas espanhóis e italianos foram enviados de volta aos seus países para ficar juntos de suas famílias. E o contato físico, que não é algo comum entre os britânicos, foi necessário naquele dia. Abraçamos uns aos outros em despedida e desejamos nada mais do que saúde!”, recorda. Uma semana depois da despedida na empresa, o governo britânico anunciava o isolamento social obrigatório no país. “Desde então, estamos em casa, com exceção de mercado, não saímos para mais nada”, afirma a saltense.

 

A onda de solidariedade que uniu toda a Europa durante a pandemia também acontece na Inglaterra. “No começo, a falta de informação e o baixo número de exames gerou pânico na população. Mas rapidamente a ordem se instaurou, com a comunicação alinhada por parte do governo, divulgando medidas de proteções econômicas e humanitárias. Agora, vemos uma onda de solidariedade, por exemplo, em casa recebemos vários comunicados de pessoas e ONGs oferecendo ajuda e várias empresas fazendo campanhas para arrecadação de fundos e alimentos. Além disso, toda quinta-feira à noite temos a chance de encontrar nossos vizinhos para os aplausos de agradecimento aos profissionais da linha de frente. Como não podemos nos aglomerar, cada um fica no portão da sua casa aplaudindo. É um momento emocionante!”, conta.

 

Elaine comenta que continua preocupada com familiares e amigos que deixou no Brasil, por causa da maneira como o governo local tem enfrentado a pandemia. “Estamos com muito medo da contaminação sair do controle no Brasil. Tememos por nossa família e amigos. Temos feito diversas postagens nas redes sociais na tentativa de conscientizar o povo brasileiro sobre os riscos e prevenção da covid-19, pois o vírus é, infelizmente, mais do que uma gripe. Mas, infelizmente, ainda tem muita gente que não acredita. Por exemplo, eu recebi ligações de amigos questionando o número de mortos da Inglaterra, pois eles não acreditam mais nos jornais brasileiros. Além disso, é decepcionante ver nosso país sendo destaque negativo nos principais jornais do Reino Unido. Temos medo disso afetar a abertura da fronteira entre Inglaterra e Brasil e, assim, atrasar ainda mais nossa viagem”, finaliza.

 

A modelo ituana Letícia Georgiou em Istambul, na Turquia

Ainda na Europa, a modelo ituana Letícia Georgiou está há três meses na Turquia. Todo ano ela passa uma temporada em Istambul, onde participa de campanhas e desfiles. A exemplo dos outros países, a cidade decretou quarentena logo após registrar o primeiro caso de covid-19, em 11 de março. “Desde então, eu me vejo numa montanha russa de emoções. Estou morando com meu namorado (o também brasileiro Lucas Mascarini), ainda bem!, e agradeço por sua paciência comigo, pois sou workaholic, preciso trabalhar para não enlouquecer. Tive que começar a fazer yoga. É o que tem me ajudado muito mentalmente e fisicamente. Além disso, testamos receitas na cozinha, lemos e vemos Netflix”, comenta a ituana.

 

Letícia lembra que logo no início da pandemia, ela já saía de casa para ir ao mercado usando máscara, o que causava estranheza nos turcos. “No começo, eles (os turcos) achavam estranho nos ver usando a máscara, até chegaram a rir da nossa cara. Mas, as coisas, infelizmente, começaram a piorar no país e, desde a semana passada (por volta de 10 de abril), é regra, e sem máscara você não entra em lugar nenhum”, explica. Porém, quase todas as lojas da capital encontram-se fechadas. “A Taksim Square, que é o ponto turístico mais visitado em Istambul, está deserta. E todo final de semana temos a quarentena forçada, ninguém pode sair de casa, quem sair levará uma bela multa e ainda uma bronca. Todos estamos nos sentindo enjaulados. Meus pais gostariam que estivesse em casa e eu também, mas não imaginei que tudo isso tomaria esse rumo. Estou presa aqui, todos os voos cancelados”, desabafa a modelo.

 

Convivendo com a piora da pandemia na Europa, Letícia aconselha os brasileiros da sua região: “Na minha opinião este não é o momento para ficar argumentando o que poderia ser feito no passado, quem deveria estar na presidência neste momento e toda essa briga que não vai levar a nada. O povo tem que ficar em casa! Tem que usar máscara! Parem de espalhar fake news! Se cada um fizer a sua parte, podemos conter isso juntos. A situação é real e caótica, muitos estão morrendo, até mesmo sozinhos em casa. O que me preocupa muito é o fato de o Brasil já ter mais mortes (em abril) do que a Turquia, sendo que aqui já foram realizados mais de 450 mil testes e aí um pouco mais de 60 mil. Usem máscara, lavem as mãos e fiquem em casa!”.

 

NA ALEMANHA

 

A Alemanha vivia até abril uma situação mais confortável do restante da Europa, com a possibilidade de reabrir a economia em maio. Um dos motivos seria a eficiência com a qual o governo alemão encarou a pandemia logo que notificou o primeiro caso, fez o rastreamento do paciente zero e sequenciou o código genético do coronavírus que estava sendo disseminado no país.

 

Claus-Peter e o marido Hélio deixaram Itu hoje vivem em Berlim

Por lá, a Revista Regional localizou o psicólogo Claus-Peter Willi, que morava em Itu com o marido Hélio e os filhos, até três anos atrás. Embora eles estivessem acompanhando a evolução da epidemia da covid-19 desde o início, em janeiro, na China, Claus conta que passaram a ter uma atenção maior quando a questão tornou-se dramática na Itália e, a partir do sul da Alemanha, a situação ficou epidêmica por todo o país. “Sentimos a situação mais complicada a partir do fechamento das escolas em 16 de março, aqui em Berlim. Notamos também que os supermercados passaram a estar mais cheios e alguns itens como papel higiênico e de higiene pessoal sumiram das prateleiras. O contato com os vizinhos, que já não era tão grande dada o distanciamento que o berlinense já mantém, se tornou maior e quase não os vemos pelas áreas comuns do prédio em que moramos”, conta o psicólogo.

 

Ao contrário do Brasil, na Alemanha a maioria dos cidadãos é a favor do distanciamento social e passou a apoiar de forma maciça o atual governo. “Vimos pelos noticiários aqui e ali algumas críticas quanto à recomendação de distanciamento social, mas 70% da população alemã aprovam as medidas do governo central. Interessante que houve um aumento da taxa de aprovação da coalizão que dirige o país a níveis de 2017, ou seja, se hoje houvesse eleição a coalizão obteria 55% dos votos. O Partido Liberal, representante do empresariado, obteria apenas 5%. Há que se acrescentar que, por força da própria Constituição de 1949 (pós-Segundo Guerra Mundial), o grande mote é o apoio social à população, ou seja, o Estado existe em função do povo! Isto faz toda a diferença neste momento de crise, pois recursos imensos, da ordem de 1 trilhão de euros foram disponibilizados para que todo o sistema econômico e social não desmorone. Dinheiro de impostos arrecadados e que sempre retornam ao povo. Aqui a questão de corrupção nos diversos setores do sistema é praticamente inexistente”, pontua.

 

Apesar das restrições, Claus-Peter, Hélio e os filhos garantem que vivem praticamente de forma normal, porém atentos à evolução da crise. “Agradecemos a cada dia por estarmos em um país que, sem cessar, nos impressiona quanto à sua função de respeito ao cidadão”, conclui.

 

A ituana Fabiana Pierre Curi Magnusson também está morando na Alemanha, porém em Stuttgart, há um ano e quatro meses. Desde o dia 17 de março, ela e a família estão se adaptando à quarentena. O marido (Luiz Magnusson) está em home office e o filho (Miguel) sem ir à escola. No início, Fabiana conta que percebeu que algumas pessoas sentiram mais do que as outras, sofrendo por ter que ficar em casa, e também com muitas mensagens desanimadoras nas redes sociais. “Agora está tudo mais calmo, parece que as pessoas estão mais conformadas e menos assustadas com a situação. Nos supermercados e nas ruas muitas pessoas usam máscara e a maioria cumpre a recomendação de dois metros de distância. O alemão já não é adepto de muito contato físico, agora mais ainda!”, comenta.

 

Fabiana, Luiz e o filho Miguel, de Itu para Stuttgart, na Alemanha

Fabiana conta que a família de um coleguinha de classe do seu filho foi infectada. “Pai, mãe e os dois filhos. Eles moram em um prédio em frente ao meu. O pai chegou a ficar alguns dias internado, com falta de ar, mas já está bem. Foi assim que confirmaram a doença, quando fizeram o teste dele no hospital. Tudo começou com o menino de sete anos”, explica, acrescentando que ela e o filho também podem ter sido contaminados. “Ainda não sei se eu e meu filho tivemos (a covid-19), pois quando esse coleguinha ficou doente, alguns dias depois meu filho ficou também. Depois de uma semana foi a minha vez. Mas tanto para mim quanto para meu filho a manifestação foi muito leve, então nos mantivemos em casa e não fizemos o teste. Meu marido não apresentou nenhum sintoma”. 

 

A exemplo de outros brasileiros que estão fora do país nesse momento, Fabiana também se preocupa com familiares e amigos que estão longe. “Todos que estamos vendo de longe a situação no Brasil e temos família aí, sentimos bastante preocupação. É triste que estejam usando a pandemia para jogos políticos, o momento deveria ser de união. Parece-me que o governo já esperava a pandemia, isso era muito claro que uma hora iria acontecer, mas acho que não esperava tamanha guerra ideológica. Na minha humilde opinião, o início da quarentena no Brasil foi muito precipitado. Deveriam ter feito um plano de ação, de controle dos infectados, de fechamento das coisas de uma forma mais branda. Foi muito brusco e aí acho que não vão conseguir segurar pelo tempo necessário, pois o desenvolvimento da pandemia no Brasil ainda está no início, pode durar muito tempo. Isso é preocupante”, alerta a ituana, lembrando que na Alemanha, depois do primeiro caso confirmado, demoraram dois meses para ser decretado o isolamento. “Foram isolando os casos e controlando até o momento em que a quarentena foi necessária porque o vírus se espalhou bastante. Por enquanto, a quarentena aqui se mantém até o dia 3 de maio (a entrevista foi feita em meados de abril). O Brasil é um país muito maior, com várias cidades que não foram afetadas, e com uma economia muito mais fragilizada. Aqui a própria Angela Merkel (chanceler alemã) já disse que será um verdadeiro milagre o que o governo conseguirá fazer economicamente para amparar a população. Não há como comparar a situação dos dois países, e acho que a recessão fará o brasileiro sofrer tanto quanto a pandemia. Isso é muito triste!”, finaliza Fabiana.

Reportagem de Renato Lima

 

Fotos: Arquivos pessoais