O renascimento do Mercadão

O prédio do Mercado Municipal é datado de 1905 e é tombado como patrimônio histórico

Um ano de restauro devolve a Itu o histórico prédio do Mercado Municipal. A cidade ganha um espaço revitalizado, que promete a recuperação de uma vida gastronômica e noturna no centro histórico

 

O Mercadão de Itu é um dos pontos turísticos e cartões postais da cidade. Entretanto, há muitos anos tornou-se apenas mais um local de comércio, sofrendo o descaso de várias gestões municipais. Em julho de 2018, o atual prefeito Guilherme Gazzola anunciou o restauro do prédio histórico, utilizando recursos do Dade (Departamento de Apoio ao Desenvolvimento dos Municípios Turísticos), do governo estadual, que chegou a R$ 4,5 milhões.

Com a obra pronta, a Prefeitura aguarda apenas um documento do Estado para inaugurá-lo, possivelmente antes do Natal. “Estamos só dependendo de um documento de reprogramação do governo do Estado, do Dade, mas trata-se de uma medida burocrática que em breve será resolvida”, explica Gazzola.

O Mercadão Municipal de Itu foi inaugurado em 14 de maio de 1905 e logo tornou-se um ponto contato entre fornecedores rurais e citadinos. Muito se ouve que o projeto é de Ramos de Azevedo – mesmo arquiteto do Mercadão de São Paulo – porém, segundo pesquisas feitas recentemente pelo diretor de Patrimônio Histórico de Itu, dr. Emerson Ribeiro Castilho, não há registros históricos que atestem essa autoria, já que a ficha catalográfica, elaborada em colaboração do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo) e Secretaria de Cultura, só consta dados gerais. “Segundo consta na ficha catalográfica, o Mercado Municipal de Itu é do início do século XX e foi inaugurado na data de 14 de maio de 1905, correspondendo aos anseios posteriormente propostos pelo então Código de Posturas da cidade, de 1907”.

 

Como o mercado fica ao lado da Igreja de Santa Rita, o museólogo ressalta que a capela foi primordial nos processos social e histórico desse entorno. “A capela de Santa Rita, pela proximidade, tomada pelos comerciantes e frequentadores do mercado, como ente de devoção através das práticas religiosas e culturais, acabou por perenizar a presença da procissão desta santa em Itu e, desta forma, contribuiu na preservação da edificação mais antiga no centro histórico. Esta reunião de fatores históricos propiciou não só a preservação da própria capela e do seu entorno, mas também de todo o patrimônio imaterial expresso”.

Nos anos de 1960 houve movimentos de expansão populacional quadruplicando o número de habitantes e ressignificando o uso do centro urbano de Itu. Trinta anos depois, a edificação foi incluída nos registros e inventários de tombamento praticados pelo Condephaat, com apoio do Iphan e da Secretaria Municipal de Cultura, com grau de proteção 1, definindo-o como patrimônio. “Este espaço hoje responde a significados específicos para a cultura ituana e, concomitantemente, corresponde a significados de valor patrimonial tanto para São Paulo como para o país, por estar registrado e localizado em área de entorno do Iphan, assumindo caráter de atrativo turístico e valor de memória nos três níveis de acautelamento patrimonial”, explica Emerson.

 

O restauro do mercado devolve o prédio ao seu projeto original, as portas abertas posteriormente para a rua Santa Cruz foram fechadas; na fachada lateral oposta, os boxes – abertos para fora – foram mantidos, assegurando aspectos de convivência de décadas já estabelecidas.

 

O Mercadão será reaberto com boxes e bancas para comércio variado, com espaços destinados através de licitação e com o desejo de que ele faça nascer uma vida gastronômica e noturna na cidade.

 

O desejo de recuperar o orgulho do ituano sempre foi o desejo de Gazzola, e ele afirma que revitalizar o Mercadão faz parte disso: “Mexer no orgulho da cidade é mexer na própria história. Restaurar o Mercadão é uma obra fantástica, que remete à infância, à juventude e à história de Itu. Estamos devolvendo para o centro sua importância e valorização”, afirma.

 

Os comerciantes que já trabalhavam no local retornarão por um prazo determinado e, posteriormente, passarão por licitação. Esses espaços serão destinados a comércios em geral e terão limites para cada ramo. “Eu vejo uma Itu renascendo, valorizando a região central, tanto no aspecto econômico quanto no cultural”, finaliza o prefeito.

 

ESCLARECIMENTO

Em razão da matéria publicada no site e na Revista Regional de dezembro, em que o museólogo Dr. Emerson Castilho afirma que não há registros, até o momento, que atestem a autoria do projeto do Mercadão de Itu pelo arquiteto Ramos de Azevedo, o historiador divulgou o seguinte esclarecimento, após a repercussão da reportagem. Nela, Castilho ressalta que se posicionou na entrevista apresentando suas pesquisas pessoais e não institucionalmente como diretor de Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura e do Patrimônio Histórico da Estância Turística de Itu. Veja na íntegra:

“Como resultado de pesquisas realizadas em arquivos, jornais de época, universidades, trabalhos acadêmicos e órgãos de tombamento não foi possível localizar uma fonte que determine a autoria do projeto arquitetônico do Mercado Municipal de Itu, isso até o presente momento apurado. Lamentavelmente, os arquivos da Câmara Municipal de Itu acabaram queimados na década de 1970 deixando uma lacuna informacional; e segundo a ficha catalográfica de tombamento do Condephaat atribui ao arquiteto francês Louis Amirat como responsável pela obra, possivelmente ocupou o cargo de mestre de obras. Em Itu, a tradição oral atribui a autoria do projeto ao arquiteto campineiro Ramos de Azevedo ou ao seu escritório de arquitetura. Ramos foi atuante na região neste período, destacando-se como responsável pelo projeto de reedificação da fachada da atual Igreja Matriz Nossa Senhora da Candelária, podendo, assim, também ser o autor do projeto do Mercado Municipal. Como a história do patrimônio é construída dia a dia, aguardamos que futuras fontes possam garantir a informação de nossa tradição oral. As informações publicadas na edição de dezembro da Revista Regional abordando o assunto, o museólogo Dr. Emerson Castilho se posiciona apresentando suas pesquisas pessoais e não institucionalmente como diretor de Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura e do Patrimônio Histórico da Estância Turística de Itu.”

(matéria de Gisele Scaravelli)

 

foto: Setimo Catherini, c. 1930/Livro “Memória de Itu”