Juliana Paes: A dona do pedaço

Juliana Paes volta a protagonizar uma novela do horário mais nobre da TV como “A Dona do Pedaço”

Madura para encarar trabalhos desafiadores, Juliana Paes sabe que sua missão é muito mais que entreter

Juliana Paes está em sintonia com um novo personagem. Ela é assim, se entrega por inteiro, entra em conexão, dorme pouco, abre mão do que quer para si, mas não deixa a peteca cair quando o assunto é família. Seu bom humor e jeito atencioso continuam intactos. No ar em “A Dona do Pedaço”, novela que estreou na TV mês passado, a atriz encara mais um desafio de ser protagonista do horário nobre. Uma mulher simples, batalhadora, dona de si e empoderada, mas também muito espontânea, assim é a personagem Maria da Paz. Qualquer semelhança da atriz com a personagem é mera coincidência, afinal quem não se lembra de Ritinha em “Laços de Família”, há exatos 19 anos, quando ela iniciava sua carreira na televisão? Foi buscando seu espaço, degrau por degrau, personagem por personagem, que hoje ela é considerada uma das melhores atrizes de sua geração. Já encarou “Gabriela”, de Jorge Amado, em sua segunda versão e não deixou que críticas maldosas atrapalhassem seu desempenho na trama. Cheia de brasilidade, Juliana ocupa o espaço que merece, de reconhecimento e respeito. Um ser humano incrível que acima de tudo se dedica à arte de interpretar. Em meio ao empoderamento feminino, a força da mulher, a luta pela igualdade, nossa entrevistada de julho não poderia ser outra, pois Juliana representa muito bem esse quadro. Uma mulher serena que serve de inspiração para a nova geração.

REVISTA REGIONAL: “A Dona do Pedaço” é mais um trabalho que repercute com muito sucesso em sua carreira, ainda mais por ser protagonista novamente no horário nobre da TV. Como você se sente com todos esses acontecimentos?

JULIANA PAES: Não estou dormindo, nem vendo ninguém, na verdade estou tentando me adaptar, o Walcyr (Carrasco, escritor) falou: ‘Já estou sabendo que você quase caiu de cama, não vou diminuir a quantidade de cenas, se prepara porque tudo que eu vi, amei e vou escrever mais’, não sei se é bom ou ruim, mas eu tenho um volume de cenas como nunca tive antes. A Maria da Paz leva toda a história. Nem como Bibi Perigosa (A Força do Querer, 2017) eu gravei tanto. Estou trabalhando muito, muito mesmo, a minha personagem está em todos os cenários, estou fazendo bolos, não tem dublê, sou eu mesma que faço, fiz tantos bolos nessa novela que eu já sei de cor e salteado, de olhos fechados, mas hoje (entrevista feita no final de maio) consegui uma folga das gravações pra vir a São Paulo, foi extraordinário, não choveu canivetes, mas a carga horária de trabalho tem sido de dez a doze horas por dia.

O que você já aprendeu com a Maria da Paz?

Ela tem esse jeito doce e amoroso com as pessoas e existe um pouco do lúdico nessa história porque esse carinho, esse amor e o desejo de dar certo estão na fórmula desses bolos também. Eu não sou de ir pra cozinha, mas quando vou é pra fazer sobremesa, claro que fazer bolo comum, de banana, sempre foi fácil pra mim, mas eu tive aulas de culinária um pouco mais avançada, eu diria. Existem segredos e jeitos de fazer o manejo que são mais profissionais, como por exemplo, quebrar o ovo com uma mão só, dar um toque diferente no brigadeiro pra ele ficar mais cremoso, colocando uma colherzinha de creme de leite. Eu nunca soube, mas sempre untei o bolo colocando a manteiga e a farinha, mas você sabia que dá pra fazer só colocando papel toalha? Na hora eu pensei ‘não vai dar certo, vai grudar’, não gruda, se você distribuir a massa direitinho e colocar na temperatura certa, depois que você vira o bolo, arranca o papel toalha, sai direitinho, não fica aquele excesso de farinha em volta pra você confeitar, eu tive que fazer.

E como é ser a “Dona do Pedaço”?

Eu me sinto a dona do pedaço quando consigo dar conta de muitas coisas ao mesmo tempo, tipo: gravar, chegar em casa e tomar conta da merenda das crianças, fazer o dever de casa, contar historinhas, colocá-las para dormir, deitar e ainda conseguir assistir a um filme. Hoje eu me arrebentei! Eu me cobro muito! Ser mãe é viver com parcela de culpa sempre, você pode ser a mais analisada do mundo, pode fazer a terapia que for – eu nunca fiz terapia estou querendo -, mas nunca sobra tempo, mas sempre temos a sensação de que faltou algo, não fui naquela reunião, e agora? Os meus filhos estão naquela fase que precisamos estar juntos, é dever de matemática, hoje em dia os deveres são diferentes dos nossos. Outro dia eu fui fazer um dever, expliquei e ele não entendeu nada do que eu estava falando, está tudo muito diferente, eles precisam desse acompanhamento, mas têm a compensação, aos finais de semana eu levo pra praia, fico em casa com eles, nesses dias de chuva cancelaram as gravações e eu fiquei o dia inteiro livre, em casa, pintando e bordando, fizemos um cineminha com pipoca, brincamos. Eu tento compensar o tempo todo, mas nesse caso sou como todas as outras mães.

Você costuma acompanhar os capítulos da novela pra saber se é necessário mudar algo na personagem?

Eu não gosto de rever cenas, principalmente no começo porque é um momento de compor, de criação, prefiro ter a surpresa porque quando você assiste pode surgir crítica do tipo ‘aquela cena não ficou boa, eu vou fazer melhor’, eu não gosto de ficar assistindo antes, é uma cilada e você pode cair na pegadinha da vaidade.

Aos 40 anos e com vários personagens na carreira, poderia dizer que essa é a melhor fase da sua vida?

Eu me sinto na minha melhor fase. Essa idade é muito especial e louca, porque quando eu era novinha acreditava que aos 40 anos de idade eu já estaria…como posso dizer? Não cansada, mas mais reservada, talvez. Acreditava que quando estivesse com essa idade, estaria trabalhando menos, cuidando da minha casa, dos meus filhos, mas nunca trabalhei e estive tão produtiva como agora, não me sinto mais bonita, mas mais madura pra fazer tudo. Claro, a nossa pele não tem o mesmo viço de quando tínhamos 20 anos, mas a forma do meu rosto está muito mais bonito hoje. Eu me preocupo menos se a sobrancelha está fora do lugar, não tenho nenhuma preocupação de levantar uma coisa ou outra, gosto das minhas marquinhas e até o que foi caindo estou gostando, está tudo bem, mas não tem a ver com ‘estou me achando linda de morrer’, não, percebo os meus defeitos e a beleza que já me deixou, mas é uma idade que me faz sentir e ter menos cobrança comigo mesma, me sinto muito mais bonita do que quando tinha 20 anos.

Antigamente você se achava mais insegura, talvez?

Não era insegurança não, eu cobrava uma perfeição que não existe, tinha que estar tudo muito certinho e hoje acredito que o perfeito não tem graça, que tem quer ter uma coisinha errada, uma ruguinha que dá um charme, sabe? As pessoas não precisam ter os dentes ou o nariz perfeito para serem lindas, só a maturidade pode trazer esse olhar, que é mais condescendente comigo mesma. O meu peito não é mais o mesmo porque eu amamentei, mas por que eu amamentei? Porque tive dois filhos. Essa condescendência faz com que a gente se sinta linda principalmente quando olho para os meus filhos e penso: ‘cara, eu sou a dona do pedaço na minha casa’.

Assim como a sua personagem você também batalhou pra chegar onde está hoje, foram vários trabalhos até aqui…

Eu tenho essa energia de gostar das pessoas, de contagiá-las positivamente, nesse sentido talvez a personagem se refira a mim, mas por outro lado, “A Dona do Pedaço” fala com todas as mulheres. O Walcyr (Carrasco, autor) foi muito feliz porque essa história vai conversar com todas as mulheres que são donas de si, que se fizeram pelo próprio esforço, que são a razão do próprio sucesso, que passaram por dificuldades na vida, mas mesmo assim não esmoreceram, são donas de suas histórias, não têm medo de ser aguerrida, de cair na luta, de trabalhar não importa com o que, dona das próprias rédeas. É muito bom que o empoderamento esteja acontecendo e tem tudo a ver com a Maria da Paz.

Anteriormente você interpretou uma bandida, a Bibi Perigosa, em “A Força do Querer” e agora vive essa mulher que corre atrás, não depende de homem, é empoderada. Como você desenvolveu o processo de criação?

Eu gosto muito do processo criativo antes de começar a novela, é a parte mais saborosa. Quando começo fazer o bolo e a entender como são as mãos dessa mulher, como ela se comporta, como era quando menina, vamos colocando num caldeirão de ideias e criando o corpo do personagem, mas eu preciso puxar uma sardinha que é muito importante, 50% do trabalho do ator está na equipe que é a caracterização, quando entra o figurino, o cabelo e a maquiagem, porque uma vez que você coloca a roupa do personagem, se olha no espelho e vê outra figura, imediatamente é outra linha, outro corpo que está em você e isso me ajuda de uma maneira que eu não sei te explicar. Os dias de prova de figurino são de pura concentração, porque eu sei que vou achar o personagem definitivamente, já os de maquiagem e cabelo, eu fico mais quietinha, nem mexo tanto no celular, é uma viagem que eu já vou assim: ‘agora estou entendendo essa mulher’. Se o cabelo dela é assim é porque não tem muito tempo pra arrumar, é um trabalho de elaboração, uma cocha de retalhos que a gente vai fazendo e quando entra a caracterização, as primeiras cenas vão finalizando esse bordado final. Esse é o meu processo.

Com mais uma protagonista na conta, as pessoas não fazem ideia do quanto você batalhou para estar aqui, e ainda assim continua uma pessoa com o coração humilde, característica que poucos artistas conseguem manter.

Existe muito retorno das pessoas, dos fãs quando me escrevem nas redes sociais e me sinto muito grata. Comecei minha trajetória na emissora e hoje tenho 20 anos de carreira, aos poucos fui galgando degrau por degrau, isso me fez ter consistência do que batalhei pra conquistar e chegar aonde cheguei. Quando batalhamos pra conseguir o que queremos, sabemos quem somos, de onde viemos e isso nos traz uma consciência. Eu sei quem fui, e saber do meu passado me direciona para um futuro de simplicidade e humildade. Eu venho de uma família muito simples, muito humilde, muito pé no chão, eu não consigo achar que a minha profissão é glamourosa, entendo que as pessoas vejam assim porque existe todo um mistério que é divertido, mas muito pouco do que vivemos aqui dentro é glamourizado. Nós trabalhamos muito, agora mesmo a Camila Coutinho, uma super influencer entrou no camarim e lá estava eu com uma quentinha na frente, atracada com uma caixinha de isopor e eu falei: ‘isso a Globo não mostra’. Cadê o glamour? Não tem essa. Eu sempre achei muito chato as pessoas que se sentem descoladas das outras profissões porque são artistas, nosso trabalho é como qualquer outro profissional. Eu não consigo acreditar que somos descolados em nenhum quesito, o que temos de diferente é a visibilidade, temos uma vitrine o tempo todo, e eu nem consigo enxergar como bônus, na verdade é muito difícil porque são expectativas que precisamos atender o tempo todo, mas por outro lado, o bônus da minha profissão é poder viver personagens diferentes, estar cada dia num lugar com uma equipe, e não fechada num lugar, ônus e bônus, o que as pessoas julgam como grande bônus, pra quem vive, às vezes, não é.

No final do ano você teve um problema na garganta e precisou fazer um tratamento específico, já está tudo bem?

Quando você descobre calos ou cistos vocais, é como se fosse uma cicatriz e por mais que cuide e tenha disciplina e faça os exercícios, a cicatriz fica, eu preciso fazer continuamente terapia vocal. Eu chego ao trabalho e levo comigo o meu tubinho na bolsa e faço os exercícios, mas é algo que vou ter que cuidar. É como o jogador de futebol, sempre vou ter que fazer fisioterapia antes e depois das gravações. Quando somos jovens, pulamos, dançamos, corremos e nada acontece, mas depois de um certo uso, muito grito, abuso, eu tive esse acidente e agora tenho que fazer fisioterapia pro resto da minha vida, mas está tudo perfeitamente normal dentro desse quadro, que é natural. Outro dia a minha fonoaudióloga falou assim: ‘Juliana, o músculo do corpo envelhece e o das cordas vocais também, todos os atores deveriam fazer fisioterapia vocal a vida inteira’.

Você é mãe de dois meninos, mas como é ter que ensinar conceitos de respeito e igualdade entre os gêneros, já que vivemos num país machista e preconceituoso?

É uma missão, uma tarefa complicada, porque não educamos filhos sozinhos, têm pessoas em volta que são parte da formação da mentalidade de uma criança, e essa parte é mais difícil, tem o que eles assistem na televisão, no tablet – e olha que eu só deixo mexerem aos finais de semana, tem o que o avô fala – que é de uma geração anterior do tipo: ‘menino não chora’, desci a escada correndo pra dizer que menino chora sim, e, às vezes, o próprio marido… É engraçado como temos que usar esse movimento para educar, que é uma palavra pretensiosa… Eu procuro educar com muito amor porque não acredito no pé na porta, mas acredito na palavra doce e amorosa, mas, às vezes, chegar para o homem e falar: ‘deixa ele rebolar, dançar do jeito que ele quiser, escolher a cor que ele preferir, ser como ele quer ser’, a frase que eu mais falo em casa é ‘deixa ele se expressar’, porque existem vetores que dificultam a criação num mundo que ainda quer ser patriarcal. É uma missão diária, mas a nossa geração é muito responsável e tem que estar muito atenta a isso. Outro dia o Antônio falou assim: ‘mamãe eu não fiquei com pena da Maria Clara porque menina é forte igual menino’ por dentro eu me derreto, eu vi que ele está percebendo, são pequenas vitórias que nós temos que comemorar mesmo.

Passa pela sua cabeça aumentar a família?

Não! Na verdade, se alguém esquecer uma cestinha com uma menininha lá em casa estou querendo (risos), mas o processo de gravidez, de enjoar, os primeiros meses do bebê, ficar sem dormir, eu não consigo pensar nessa parte, deleguei pouco e vivenciei muito essa experiência, ela está bem recente na minha cabeça. A doação é um caminho, eu tenho experiência na minha família, essa pessoa é muito especial, mas você precisa estar num momento de pura dedicação e ser muito mais responsável com o filho adotivo do que com o próprio filho, porque é um chamado divino de Deus quando você decide trazer essa criança pra si. A dedicação tem que ser 100%, tem que ficar de olho o tempo todo, o grande desafio da minha vida é criar os meus filhos, hoje não existe nada mais difícil do que criar seres humanos, passar valores para a cabecinha de uma criança e a gente também erra, não sabemos como falar e, às vezes, falamos coisas erradas pra criança, temos que pedir desculpas, eu peço muitas desculpas para os meus filhos porque eu prometi alguma coisa e não consegui cumpri, porque prometi que ia chegar cedo, mas por causa do trabalho não consegui, criei expectativas nelas. Nós vivemos numa sociedade machista e eu tenho dois meninos, tento criá-los para que sejam feministas, mas não é fácil. Eu tenho medo de ter mais um filho, dois já são uma grande missão de uma vida inteira, é muito difícil.

Você comentou que uma das coisas que você sente falta é levar seus filhos na escola. O que você acha das mães que abrem mão do trabalho por conta dos filhos? Num futuro próximo, pretende diminuir o ritmo e fazer participações especiais para poder se dedicar mais à família?

Eu já pensei nessa possibilidade, até que ponto vale a pena eu viver essa loucura? Essa correria insana? Chega uma fase da vida que eu começo a ponderar, será que eu preciso mesmo? Estou com planos de diminuir o ritmo sim. Eu acho que todas as escolhas são válidas e possíveis, nós temos que ser felizes com as escolhas que fazemos, estou feliz com esse projeto, mas estou nessa levada há muito tempo, o próximo ano será de descanso, vou dar atenção para os meus filhos porque prometi depois da última novela, mas não consegui, não cumpri.

Mas o que de fato te faz aceitar um projeto como esse, que fez com que você não cumprisse a sua promessa de ficar um tempo quietinha?

Na verdade, passei um ano bem tranquila, fiz alguns filmes, não fiquei num trabalho a longo prazo como a novela, o que me deu a oportunidade entre um projeto e outro de viajar, buscar os meus filhos na escola, ficar com a minha família, cuidar da casa, do jardim, eu tive essa chance. Quando o escritor falou sobre o personagem fiquei muito tentada e gostei da Maria da Paz logo de cara.

texto/entrevista: Ester Jacopetti

foto: Sergio Baia