Cultura de luto: Itu perde Lourdes Sioli

Foto de Lourdes Sioli publicada na Regional em janeiro deste ano, por ocasião de uma entrevista sobre seu livro “Anos Dourados”

Faleceu em Itu, na madrugada de hoje, 24 de maio, a acadêmica professora Maria de Lourdes Figueiredo Sioli, aos 80 anos. Nascida em Amparo, a 13 de janeiro de 1939, mudou-se para Itu em 1952, formando-se professora no Instituto de Educação Regente Feijó. Era pedagoga formada pela Faculdade de Lins e Administradora Escolar (PUC-SP). Atuou como professora e diretora de escolas da rede estadual paulista onde se aposentou. Foi professora universitária e coordenadora em escolas de Itu.

Em 1989 se tornou a primeira secretária Municipal de Cultura e Turismo de Itu, desenvolvendo amplo projeto de estruturação de departamentos culturais, dentre eles a EMIA Manolo Santoro, a Biblioteca Infantil, o Museu e Arquivo Histórico Municipal de Itu, revitalizou a Biblioteca Pública Municipal e o Museu de Arte Sacra Padre Jesuíno do Monte Carmelo.

Dentre as associações culturais foi a criadora da Academia Ituana de Letras, à qual pertenceu desde 1993, ocupando a Cadeira nº 28, tendo por patrono o Regente Feijó. Presidiu a Academia entre 2005 e 2008. Criou também o Instituto de Estudos do Vale do Tietê (Inevat), da qual foi a primeira presidente (1993). Foi ainda presidente da Associação Cultural Vozes de Itu por oito anos, momento em que o grupo valorizou de maneira notável a música de raiz brasileira e a mergulhou na pesquisa e divulgação música dos compositores de Itu.

Participou do grupo fundador do Instituto Cultural de Itu (1999) e do Museu da Música – Itu, no qual ocupava a função de Curadora, desde 2007. Ao completar 80 anos, em janeiro de 2019, lançou o livro “Anos Dourados”, reunião de crônicas e memórias.

Foi também vereadora da Câmara Municipal de Itu entre 1994 e 1996.

Viúva de Dante Sioli, deixou irmãos, os filhos Ana Luiza, Ana Beatriz e Dante, genros, netos e um bisneto. O enterro se dará às 17h de hoje, dia 24 de maio, no Cemitério Municipal de Itu. A Academia Ituana de Letras, o Coral Vozes de Itu e o Museu da Música decretaram luto de três dias em memória de sua grande incentivadora

Colaboradora da Revista Regional

Nesses 16 anos de Revista Regional, por diversas vezes, Lourdes Sioli colaborou com a publicação. Como homenagem, REGIONAL relembra, abaixo, uma das crônicas publicada nas páginas da revista:

“A Menina da Vitrine”

Fiquei ali, parada diante da vitrine, maravilhada com tudo aquilo que via! Eram abelhas, besouros e borboletas flutuando no espaço colorido, sapinhos e lagartas simpáticas mostrando sua graça, mil bloquinhos, caixinhas secretas, diários e canetas que me atraiam de maneira assustadora! No mesmo instante surgiu a menina que vive dentro de mim e pôs-se a eleger isto ou aquilo, como se tudo quisesse levar para si… Mas como, pensei, se no tempo dela nada disso havia?!

Como em tão pouco tempo este material, antes só chamado de escolar, tornou-se tão lindo, multicolorido e atraente?! Acalmei a menina e, afastando-me daquele perigo, pensei que as crianças de antes não passavam por situações como essa, de verdadeira

tentação, nem os pais pelo dissabor de não poderem satisfazer o desejo de seus filhos… É que nada disso existia!

Lembrei-me de que em casa a vida era muito simples, o orçamento apertado e meus pais, ambos professores, foram realmente bons administradores para dar conta dos quatro filhos que encaminharam. Por esta razão nada nas compras era desnecessário e muito menos supérfluo. Tão pouco havia supérfluos como agora, a nos tentar em toda parte.

Nunca me esqueci do primeiro caderno de espiral que vi quando tinha uns sete anos, lá na Cooperativa Agrícola de Mococa, onde papai era gerente. Devia ser horrível, mas fiquei encantada com ele! Era todo cinza com uma etiqueta branca para colocar o nome e a espiral de ferro, que com o tempo enferrujava… pena que na época não sabia deste detalhe e sonhava com tal caderno. Na hora em que papai voltava da Cooperativa, corria recebê-lo sempre na esperança de que me surpreendesse com o caderno cinza… Quando me formei e comecei a trabalhar já havia coisas atraentes e sempre comprava, mas nunca esqueci o tal caderno!

Pobres crianças de agora, que nem de leve sonham com um caderno cinza de espiral de ferro que enferruja com o tempo, mas com tantas e tantas tentações que maldosamente frustram seus desejos, matando assim aos poucos o mais lindo… que é sonhar! (texto de MARIA DE LOURDES FIGUEIREDO SIOLI)

foto: Gisele Scaravelli/Arquivo Revista Regional