Padre Fábio de Melo em entrevista exclusiva

Padre Fábio: “Eu acredito que a maneira mais eficaz de motivar o bem no mundo é a gente fazendo o bem acontecer em tudo aquilo que nos diz respeito”

O final de ano chegou e muitas pessoas aproveitam esse momento para fazer um balanço sobre a vida, virar a página, deixar o que de ruim aconteceu e pensar em novos projetos para o futuro. Mas por que essa vontade surge apenas nesse período? Conversamos com o padre Fábio de Melo, que teceu suas ideias sobre o conflito humano, o caminho para a felicidade, a importância da religião e como praticar o bem. “Eu acredito que nós deveríamos ter essa mística do fim de ano, todo fim de dia e que ela fosse uma espécie de juízo final e não o julgamento que nós recebemos do outro, mas um que nós nos oferecemos que é justamente a oportunidade de nos perguntar se a vida que estamos vivendo é a que merecemos, e quais seriam as peças que valeria a pena mexer nesse tabuleiro”, aconselha o padre, que também argumentou sobre a importância do perdão, um sentimento raro e complexo, mas que nunca é tarde para exercê-lo. “O perdão é sempre um benefício que nós recebemos toda vez que o aplicamos, é uma libertação para quem recebe, mas, sobretudo, para quem oferece, porque é uma oportunidade que nós temos de rearmonizar aquilo que a mágoa estava prejudicando”, explica. Entramos também num assunto que atualmente faz parte da vida cotidiana de boa parte da população mundial: as redes sociais. A importância de se quantificar a felicidade e bens materiais através da internet tornou-se uma necessidade constante. “Não é comum vermos pessoas demonstrando o quanto ficaram mais felizes porque se autoconheceram, ou se libertaram de relacionamentos abusivos, porque passaram a se entender um pouco mais, porque venceram o ciúme, porque conseguiram superar traumas de mortes. Essas conquistas silenciosas que são frutos do autoconhecimento estão muito mais ligadas do que necessariamente às conquistas materiais, mas nem sempre temos acesso porque o que é publicado é muito mais o resultado material que alcançamos na vida”, alerta.

REVISTA REGIONAL: A chegada do final de ano faz com que as pessoas reflitam sobre os acontecimentos, além de elas acreditarem na possibilidade de renovar as esperanças. Por que justamente apenas nesse período elas tomam essa consciência de que podem mudar algo na vida para serem felizes?

PADRE FÁBIO DE MELO: O fim de ano tem uma mística porque toda vez que nós estamos diante de um tempo que termina, que está sendo finalizado, naturalmente é conduzido ao questionamento de como nós vivemos aquilo que está sendo encerrado e como a gente se propõe a viver a fase que se inicia. Eu acredito que nós deveríamos ter essa mística do fim de ano, todo fim de dia e que ela fosse uma espécie de juízo final e não o julgamento que nós recebemos do outro, mas um que nós nos oferecemos que é justamente a oportunidade de nos perguntar se a vida que estamos vivendo é a que merecemos viver e quais seriam as peças que valeria a pena mexer nesse tabuleiro para que fosse melhor.

Para algumas pessoas, a religião ajuda a suportar os sofrimentos, os conflitos e as angústias, mas o quanto ela é importante e pode mudar de fato a vida das pessoas?

A religião será sempre importante na vida humana, na medida em que ela provocar e despertar a espiritualidade que é o resultado de uma vida religiosa. Espiritualidade é tudo que sopra sentido no coração, tudo aquilo que faz a gente perceber a vida na sua grandeza, na sua beleza e também com os seus sofrimentos. Quando o sofrimento é enfrentado por uma pessoa religiosa que está espiritualizada, ela se torna menos agressiva porque acaba tendo um significado. A espiritualidade nos permite descobrir o resultado espiritual do sofrimento.

O psicanalista Contardo Calligaris disse que a ideia de felicidade total virou um produto de mercado. Até que ponto ele pode estar certo nessa afirmação? De que maneira o autoconhecimento pode nos ajudar?

Sim, a felicidade tem sido muito propagada como produto de mercado, como um resultado da materialidade. A gente vê pelas pessoas que se fazem e se passam felizes pelas redes sociais sempre, porque estão conquistando alguma coisa, um carro, uma casa ou uma viagem. Dificilmente vemos alguém postando o resultado de uma felicidade, ou melhor, a felicidade como resultado de uma conquista que não passa pela materialidade. Não é comum vermos pessoas demonstrando o quanto ficaram mais felizes porque se autoconheceram, porque se libertaram de relacionamentos abusivos, porque passaram a se entender um pouco mais, porque venceram o ciúme, porque conseguiram superar traumas de mortes. Essas conquistas silenciosas que são frutos do autoconhecimento estão muito mais ligadas do que necessariamente as conquistas materiais, mas nem sempre temos acesso porque o que é publicado, o que é mostrado, é muito mais o resultado material que alcançamos na vida.

“Gentileza gera gentileza”, já dizia José Datrino, e algumas pessoas conseguem manter esse espírito vivo, mas de que forma elas podem praticar essa corrente do bem e contribuir para um mundo melhor? Como podemos inspirar as pessoas a praticarem o bem?

A gentileza é o resultado de uma alma elegante, educada, uma busca de todo dia, num mundo onde nós estamos cada vez mais estimulados para a grosseria, para as respostas rápidas, sem reflexão porque nós somos chamados para sermos muito mais reativos e menos reflexivos. A gentileza se mostra como um desafio dos nossos dias, exercer essas gentilezas nas pequenas coisas, em todas as situações. Eu acredito que a maneira mais eficaz de motivar o bem no mundo é a gente fazendo o bem acontecer em tudo aquilo que nos diz respeito. Eu tenho aqui, a parte de um mundo que está diante dos meus olhos e eu posso cuidar. Se eu cuido bem de tudo que está sobre a minha responsabilidade, o outro que me observar e me ver viver, acabará percebendo que é interessante viver assim. Eu acho que não são os discursos que mudam o mundo, mas os exemplos.

“Não há nada que não possa ser perdoado nem ninguém que não mereça ser perdoado”, frase do arcebispo Desmond Tutu. Perdoar não é uma tarefa fácil, mas qual o melhor caminho?

O perdão é sempre um benefício que nós recebemos toda vez que o aplicamos, é uma libertação para quem recebe, mas, sobretudo, uma libertação para quem oferece porque é uma oportunidade que nós temos de rearmonizar aquilo que a mágoa estava prejudicando. Todo ressentimento, todo processo de ódio que nós guardamos dentro de nós, acaba gerando muito mal estar emocional e perdoar é nos dar o direito e se conceder de não levar adiante o mal que nós estamos causando com o sentimento que alimentamos.

Atualmente os hábitos de consumo e a superficialidade proporcionada pelas redes sociais tomaram uma dimensão na vida das pessoas. Essa é uma evolução comum ou estamos perdendo nossa identidade?

O materialismo é justamente o excesso de matéria. É natural que onde há excesso de matéria possa também existir a carência de espírito que é o significado que nós podemos dar a tudo aquilo que é material. Estando carente de espiritualidade, a materialidade acaba se tornando oca, vazia e ela nunca vai preencher os espaços da nossa alma porque é de outra natureza. Eu acredito que hoje o consumismo, esse materialismo que é tão suscitado pelas redes sociais, acaba gerando em nós um prejuízo muito grande porque é como se nós não tivéssemos, ou melhor, somos muito estimulados para uma busca material e pouco estimulado para uma busca espiritual. Eu pessoalmente tenho cuidado de fazer com que as minhas redes sociais sejam sempre uma fonte de espiritualidade para quem está comigo, seja através do humor ou de uma reflexão que possa nos fazer pensar a maneira como vivemos, a maneira como sentimos e pensamos.

Nos últimos anos as pessoas têm destilado ódio nas redes sociais, e o fato delas poderem se esconder atrás de um computador, as deixam mais confortáveis. O que essa atitude gera na nossa vida?

As redes sociais acabaram se tornando para muitas pessoas um lugar de catarse, isto é, de purificação, e, por terem vergonha de purgar e purificar publicamente alguns sentimentos e algumas posturas, acabam recorrendo a perfis falsos, onde elas possam dizer o que gostariam de dizer, mas não teriam coragem se estivessem usando o próprio rosto. E assim nós terminamos abrindo uma caixa de Pandora muito perigosa porque as pessoas acabam exercendo através dessa catarse uma agressividade muito grande, que é completamente irresponsável, descompromissada com a verdade e, às vezes, é muito negativo, porque acaba criando e gerando um contexto de muita agressividade e de falsidade também. Eu sempre desejo que as pessoas desfrutem da satisfação de serem quem são. Que abram mão da hipocrisia, do medo, que retornem se precisarem retornar, que avancem se precisarem avançar, mas que não desistam de serem elas mesmas, que é assim que Deus nos quer, no eixo de nossa verdade. Se somos verdadeiros, nós temos muito mais chances de alcançar essa relação humana que tão facilmente chamamos de felicidade. Eu gosto de compreender a felicidade como algo mais profundo, porque a felicidade na forma como às vezes as pessoas falam dá a impressão de que temos que estar sempre sorrindo, satisfeito e não! A realização humana que comporta a felicidade também traz em si as dificuldades que nos ajudam a sorrir depois. É isso que eu

desejo, que nós sejamos uma geração mais realizada pra gente motivar essa que vai chegar, que está chegando a ser também.

entrevista a Ester Jacopetti

fotos: Alice Venturi