O humor como aliado

“Uma das saídas para lidarmos com as adversidades da vida é usar o bom humor. Uma forma de amenizar o que é inevitável”

Escolhi um tema mais ameno, em tempos difíceis, pois precisamos afrouxar um pouco as tensões. Levar os acontecimentos do dia-a-dia com bom humor é um caminho saudável. Então vamos lá! Como isso acontece?

Pense naquele pequeno ser que você era no início: você chorava, berrava quando tinha fome, calor, frio. Mas quando nada incomodava vinha alguém fazer graça e você sorria. Uns diziam que era apenas reflexo, outros diziam, que lindo, que simpatia, um bebê risonho. Nascemos com esse potencial de ver graça nas coisas.

Quando crescemos um pouco e nos damos conta que não somos mais os reis do castelo e que tudo não gira mais ao nosso redor, temos que nos deparar com o que chamamos de realidade. Aí vem a nossa primeira depressão. O que Winnicott chama de depressão reativa. Reagimos com desilusão de percebermos que não somos o centro do mundo e que existe uma realidade que não vai nos atender em tudo que queremos e a hora que queremos.

Então, uma das saídas para lidarmos com aquilo que não controlamos, as adversidades da vida, é usar o bom humor. Uma forma de amenizar o que é inevitável.

Então, buscar soluções para um problema com mais leveza, não se desligando da realidade, e utilizando os recursos internos para dar conta dele, mesmo que estejamos frustrados, é uma saída saudável.

Vocês já repararam como as pessoas choram e riem nos velórios? Pois é! Essa é a nossa capacidade de aliviar momentos difíceis, de grande sofrimento. Não falo aqui de deixar de sentir, e sim, de aliviar um pouco a situação por um momento. Senão podemos entrar em colapso.

Já viram também quantas piadinhas chegam pelo whatsapp, facebook, satirizando diversos acontecimentos trágicos, ou menos trágicos, mas que nos causam revoltas ou tristezas? Dizemos que o brasileiro é criativo. Rimos das charges.

Mas há um perigo nisso tudo que é quando o humor pode levar as pessoas a utilizarem o mecanismo de evasão da realidade. Vão empurrando com a barriga, levando na brincadeira, e não dando importância para um problema que é preocupante. Para o psicanalista Jacques Stifelman, esse tipo de humor tem a função de proteger uma ação que você precisa ter com relação à realidade e não tem. É negativo, pois isso vai ser cobrado depois de você. Segundo Stifelman, “toda suspensão de contato com a realidade via humor ou não vai depois ou deixar a pessoa perseguida pela depressão ou deprimida pela perseguição, mas ela não escapa da realidade, uma hora a conta vem”.

Por outro lado, aquele que é sério demais está afundado de realidade, não sabe amenizar e levar na esportiva. Normalmente é o chato. É o outro extremo de quem brinca demais, sendo muito pesado e escuro.

O humor pode estar também a serviço da manipulação e da apropriação da autoridade. Este é o lado negro do humor. Muitas vezes usados por governos totalitários.

Tem situações nas quais vemos algo muito absurdo e rimos porque é tão absurdo que parece irreal, e dizemos rindo: “Isso só pode ser brincadeira!” Não acreditamos que pessoas possam ser tão sórdidas e desumanas.

De qualquer forma, vale muito aquele ditado: “Rir ainda é o melhor remédio!”

Astrid Da Ros é psicóloga/psicanalista Winnicottiana e escreveu este texto especialmente para esta seção da Revista Regional. Para entrar em contato com Astrid, o endereço é: rua Acre, 26, bairro Brasil, Itu (tel.: 11-4023-2805).

 foto: BIRF