E o pai?

“…o pai deve e pode ter atributos maternais, e a mãe pode e deve ter atributos paternais, sem que isso ameace a identidade de cada um no processo”

Na nossa cultura a família ainda é o núcleo de formação do ser humano. Seja ela constituída por um casal homo ou heterossexual. Cada um dos parceiros exercerá as funções, um a materna e o outro a paterna, de acordo com sua disponibilidade pessoal. Na verdade, independente de ser a mãe ou o pai biológico, alguém na vida da criança deverá assumir esses papéis. Eles são papéis diferentes e muito importantes para o desenvolvimento do sujeito que crescerá ali.

A mãe, ou a substituta dela, será responsável pelos cuidados iniciais do bebê, procurando atendê-lo nas suas necessidades, respeitando sempre seus movimentos espontâneos. Isto quer dizer que a mãe não deverá atravessar e invadir seu bebê com as suas próprias necessidades. Ele deve ser alimentado quando tem fome, agasalhado quando tem frio e pego no colo quando solicita. Dessa maneira ela vai favorecer a formação de seu pequeno permitindo que ele desenvolva suas características pessoais próprias, e não as que a mãe deseja, estando ele de posse das suas vontades, não havendo assim uma interrupção no seu modo natural de ser.

O pai, ou o substituto dele, começa desde cedo a exercer suas funções. Inicialmente dando apoio e sustentação à mãe para que ela possa se dedicar integralmente ao seu bebê. Aos poucos, ele vai entrando na vida da criança, ou como auxiliar da mãe, ou como pai mesmo, introduzindo na vida dela a noção de realidade, quebrando a bolha que envolve a mãe e o bebê. É ele quem vai estabelecer as regras, os limites, e fazer a contenção da criança que usa de toda sua instintividade e energia vital, nesse momento com toda sua onipotência, querendo fazer todas as experiências e achando que pode tudo. Dessa maneira o pai prepara, paulatinamente, o filho para viver em sociedade, dando os parâmetros de realidade, importantes para ele lidar com as frustrações. Pois, se lhe é permitido tudo, ele não aprenderá a lutar pelo que deseja. Nesse sentido, com a ajuda de um pai forte, que é respeitado, amado, temido e odiado também, cria-se a base para a capacidade de buscar e construir no âmbito social. Quem tem tudo na mão não sabe o valor de conquistar e de se superar.

Mas não se deve confundir pai forte com pai tirano. Se a criança é exageradamente contida na expressão de sua agressividade, ela ficará travada na sua relação com o mundo e terá dificuldades de lutar e acreditar que a sua força possa levá-lo a alcançar algo bom. O que poderá torná-lo passivo.

Por outro lado, se não lhe é dado o devido enquadre, essa força poderá ser usada destrutivamente, contra si mesmo, ou contra os outros, com abuso de poder.

É importante pensar nos pais como portadores dessas duas dimensões, a do proporcionar um desenvolvimento sadio da personalidade da criança e a prepará-la para realizações na vida. Assim, o pai deve e pode ter atributos maternais, e a mãe pode e deve ter atributos paternais, sem que isso ameace a identidade de cada um no processo.

Se é a mãe quem prepara os filhos para a vida em família com todo seu afeto e carinho, é o pai que, como detentor da “lei”, os torna capazes de viver em sociedade, como sujeitos de plenos direitos e deveres, prontos para trabalhar, construir e correr atrás de seus sonhos.

 texto: Astrid Da Rós, psicóloga – Psicanalista Winnicottiana. Consultório: rua Acre, 26 – bairro Brasil. Tel.: (11) 4023-2805 e 4022-7849. 

foto: BIRF