Laranjas de Sóller

“Parei pra pensar que a perfeição na culinária, assim como na vida, pode estar aí. Justamente nessa junção equilibrada do salgado com o doce, do cítrico com o suave”

Eis que um amigo português, sabendo de meu costume de misturar frutas a pratos salgados, num dia desses me chamou na rede social para me contar que em visita ao Vall de Sóller, na Espanha, experimentou uma delícia típica desta região espanhola, onde dizem o sol ter um brilho especial –inclusive para as frutas, como as laranjas.

Antes de me alegrar, ele foi logo ressaltando que tal receita só tem validade com os ingredientes in natura de lá mesmo de Sóller, afinal laranjas tão doces e firmes como aquelas são impossíveis de encontrar em outro canto do planeta. Claro que para me deixar morrendo de vontade, ele passou a receita completa da tal fantástica salada agridoce, com laranjas doces como o mel (dos laranjais do Vall de Sóller) e figos maduros, ambos caramelizados, acrescidos de queijo fresco de cabra –mas marroquino-, regados com um molho extraordinariamente peculiar, feito com licor de anis, alho, azeite virgem, pimenta do reino e vinagre. Cada colherada desta iguaria -simples e rica- deve juntar o doce da maioria dos itens com o salgado do queijo marroquino. Tudo muito bem equilibrado. Algo, segundo ele, estupendamente perfeito.

Parei pra pensar que a perfeição na culinária, assim como na vida, pode estar aí. Justamente nessa junção equilibrada do salgado com o doce, do cítrico com o suave. Assim como o homem perfeito deva ser firme e flexível, forte e sensível, sério e alegre. Paulo Coelho tem uma oração que costuma fazer, das tradições de antigos povos europeus, que expressa bem isso. Nela, pedimos a Deus e aos anjos para que possamos ser macho e fêmea, duro e suave. É a exata perfeição que devemos ter para lidar com a rotina diária, com o trabalho, com as mazelas da vida. Já parou pra pensar quantas vezes temos que ceder ao nosso lado mais sensível para conquistar ou acertar algo? Assim como muitas vezes temos que ser firmes, fortes e justos em outras decisões.

Estão aí homem e mulher num equilíbrio perfeito, assim como a salada do Vale de Sóller. Talvez valha a pena usarmos mais frutas doces em nossas refeições salgadas, assim como mais delicadeza feminina em algumas decisões. Talvez o mundo esteja precisando justamente disso, de receitas como essa do meu amigo europeu. Bom apetite!

 Renato Lima é o editor responsável da Revista Regional e escreveu este artigo especialmente para a seção Lições.