Carta ao pai

“O que nos deu com generosidade é hoje terna memória, lembranças das crianças que brincavam soltas pelo quintal, com seus bichinhos de estimação, gato, cachorro, porquinhos, crianças que descobriram o mundo confiantes da mão paterna que ampara e conduz seus passos”

Velho e querido pai,

Escrevo essas linhas cheias de saudades olhando aquele retrato em preto e branco pendurado bem a minha frente, lápis sobre papel, com seu perfil ainda jovem que mesmo depois de tantos anos (lá se vão mais de 20) de sua partida, não esqueço.

Pediram para escrever sobre o que aprendi com você, para uma página chamada “Lições de vida”.

Bem, com você, aprendi quase tudo, andar de bicicleta, andar a cavalo, correr pela chácara, reconhecer laranjas maduras para colher…

Aprendi o gosto pela leitura nas infindáveis histórias que me contava antes de dormir, um pedacinho por noite, com o suspense pelo final fazendo crescer minha curiosidade e atiçando a vontade de saber sempre mais…

Aprendi a ter modos à mesa, a fazer os deveres da escola e a escovar bem os dentes e os cabelos, a falar ‘porfavor’ e ‘muito obrigada’…

Desde cedo aprendi sobre os filósofos gregos e latinos, o fio da meada que você puxava, sentados nós dois na sala de visita, para ensinaro valor da verdade e da responsabilidade com minhas escolhas e ações.

Eram difíceis essas conversas e acho que algumas vezes você deve ter desanimado com minha “cara de paisagem”, com as reincidências e os longos silêncios da adolescente teimosa, cheia de certezas absolutas.

Pai, décadas passaram, você se foi, muitos também se foram, eu envelheci, venderam a casa de minha infância, minhas certezas da juventude se esvaneceram no embate da vida. De tudo, restou o que aprendi com você: ser fiel aos meus princípios e fazer sempre o melhor que me é possível.

Dos sete filhos, tive o privilégio de ser a primeira e todos nós o honramos a cada dia sendo o que você mais desejou que nos tornássemos: pessoas dignas!

O que nos deu com generosidade é hoje terna memória, lembranças das crianças que brincavam soltas pelo quintal, com seus bichinhos de estimação, gato, cachorro, porquinhos, criançasque descobriram o mundo confiantes da mão paterna que ampara e conduz seus passos. Lembranças das histórias encantadas a beira da cama, as surpresas em sete pacotinhos iguais para não fazer diferença entre nós, valiososexatamente pelo inesperado do gesto, o amor incondicional que nos fez fortes e unidos, isso tudo é seu legado para nós e, pode estar certo, saberemos entregá-lo aos seus netos e bisnetos.

Que essas poucas linhas soem aí na eternidade como as cantigas que cantava para eu dormir.

Durma em paz, pai… até qualquer hora.

Allie Marie Dias de Queiroz é secretária de Cultura de Itu e escreveu este artigo especialmente para a Revista Regional.

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