Esperança e encantamento

“O Brasil que até hoje demos conta de conhecê-lo não é, sob a minha ótica, o Brasil que de fato existe – e clama por ser visto, reconhecido e valorizado”

O editor desta revista, pelo Facebok, me manda uma mensagem. Nela, um convite. Pede-me ele que escreva um artigo que fale um pouco sobre o que eu penso de um Brasil do futuro, das Olimpíadas e daquele sentimento que se convencionou chamar-se de “complexo de vira-latas”, um certo desvio do destino que parece ter nos encaminhado para a rabeira dos bons acontecimentos históricos. Opcionalmente, além das Olimpíadas (em 2016), vou acrescentar, por conta própria, mais dois grandes eventos esportivos que também irão acontecer no Brasil: a Copa das Confederações (em 2013) e a Copa do Mundo (em 2014).

Terminada a Olimpíada de Londres, os resultados teimosamente pareceram dar, mais uma vez, razões àqueles que acham que somos mesmo um país fadado ao insucesso. Nossa colocação final, não obstante um ou outro excepcional resultado de um ou outro esporte – individual ou coletivo -, foi bastante decepcionante. A primeira pergunta, inevitável pelas circunstâncias atuais que determinam que seremos o próximo país a sediá-la, talvez seja mesmo: valerá a pena investir tanto para que passemos vergonha em território próprio?

À primeira vista, tendo a considerar que a resposta melhor a ser dada seja um retumbante não. Que muito melhor seria investirmos para que melhorássemos o nosso IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Mas não penso tão cartesiana e dicotomicamente assim. Por óbvio que torço e trabalho para que a nossa Educação, a nossa Cidadania e a nossa Democracia melhorem, mas acho que as coisas não devem ser tão excludentes assim. Há um Brasil generoso, pulsante, talentoso e ávido por ser (re)descoberto. O Brasil que até hoje demos conta de conhecê-lo não é, sob a minha ótica, o Brasil que de fato existe – e clama por ser visto, reconhecido e valorizado.

Não há uma outra maneira para esses brasileiros, que precisam ser desescondidos, desesconderem-se que não seja por meio de políticas públicas – entendendo aqui políticas públicas pelo conceito mais contemporâneo, aquele que sabe que uma boa gestão é aquela em que todos os setores da sociedade devem estar inseridos nela e imbuídos dos melhores ideais e das melhores e mais éticas práticas.

Sendo assim, o esporte, por ter a imensa capacidade de ser agrupativo, aglutinador e por também ser uma potente ferramenta inclusiva, socialmente falando, merece, sim, um olhar carinhoso e fraterno da sociedade brasileira. Os três grandes próximos eventos esportivos para cá destinados possuem o ímã capaz de atrair a esfera pública, o mundo corporativo e a sociedade civil organizada. Decerto que sempre haverá de pairar sobre eles (os eventos) a dúvida sobre a lisura no trato das altas somas financeiras que os envolvem.

Penso que vale a pena arriscar. O povo brasileiro já deu reiteradas amostras do quão íntegro e valioso é – e se assim não fosse, temo que nossa situação social e política estaria bastante mais precarizada. E esse povo brasileiro, quer seja pelo esporte, pela cultura ou pela sua elogiada e invejada diversidade, merece um futuro menos bandalheiro, mais decente, com representantes governamentais, elite corporativa e entidades sem fins lucrativas mais capazes, mais eficientes e mais eficazes.

Pelo mesmo Facebook, nos dias em que recebi o convite para rabiscar essas mal-traçadas linhas, circulava uma foto-montagem que simulava a parte central da bandeira brasileira. Proponho que, ao invés de Ordem e Progresso, o povo brasileiro, artista&arteiro como só nós sabemos ser, escreva nela: Esperança e Encantamento. Somos capazes, suficientemente capazes, de merecê-los. E de sentí-los.

 Marcos Pardim, 49, é escritor, agente cultural e gestor público por formação acadêmica.

 foto: Microfoto