Assim é a vida da gente

“(...) é bom lembrar que enquanto assistimos ao outro é sempre mais fácil julgar. Difícil é colocar em prática o nosso tribunal interno”

Grata surpresa. A novela das seis da Rede Globo de Televisão, que termina neste mês de março, é um oásis no meio de tanta areia novelística. Foge de certos clichês e transfere o foco das ações. Isso mesmo. As cenas carregam consigo um sentido mais amplo do que realmente é apresentado objetivamente.

O centro são as relações sociais e emocionais dos personagens. Não somente a trama, ou a preocupação em rotular o bom ou o mau. Mas, sim, o que se desenrola por dentro das personagens. Não são poucas as cenas de trocas de experiências. Esqueça a costumeira dicotomia que contagia a maioria das telenovelas.

O que está em nítido destaque em “A vida da gente” é justamente o que corre por trás e por dentro das atitudes de cada um. Todos podem se identificar com a trama. Talvez não com a situação em si. Talvez não com a relação amorosa em triângulo de jovens que um dia foram irmãos de criação. Talvez não com o fato de o rapaz casar com a irmã da mãe de sua filha, após ela entrar em coma. Não são situações cotidianas, de fato, para muitos. Mas o que fazem questão de destacar, a autora Lícia Manzo e o diretor Jayme Monjardim, são as relações interpessoais e humanas. Erros e acertos. Decisões acertadas e nem tão acertadas assim. Os caminhos e descaminhos da vida. Opções tomadas dentro de um contexto, que muda, e muda sempre. E mudando o tecido social, muitas vezes as escolhas parecem deslocadas. Desfocadas. Sem sentido. Chegam a parecer errôneas. E quando tentamos consertar, aí então parece que a bagunça aumenta. Em termos gerais, porque errar ou acertar é parte integrante do pacote completo da vida. Distinguimos um do outro enveredando por ambos os caminhos. E aprendemos que o certo é aprender. Mesmo que seja errando. No folhetim não há espaço para julgamento, apensa resultados.

É simples notar isso no texto. Em dado momento, os comentários em muito se dividiram entre favoráveis ou contrários às atitudes e opções do personagem Rodrigo (Rafael Cardoso). Ainda casado decidiu viver o romance com Ana (Fernanda Vasconcellos), que acabara de sair do coma. E acabou perdendo o casamento com Manu (Marjorie Estiano), após um flagra. Certo ou errado, nós mesmos erramos e acertamos.

Contudo, apesar de aprovar ou reprovar, não se pode negar que em muitos momentos nos encontramos em encruzilhadas. E precisamos escolher qual sentido seguir. Seja no amor ou na área profissional, nossas escolhas nos reservam consequências. Boas ou ruins. O que hoje nos parece adequado, amanhã pode não ser.

A novela mostra muito do que acontece dentro de cada um sem se preocupar em rotular quem está correto ou incorreto. Isso porque a vida é assim mesmo. Ela acontece enquanto tomamos nossas decisões. E é construída a partir delas. E é bom lembrar que enquanto assistimos ao outro é sempre mais fácil julgar. Difícil é colocar em prática o nosso tribunal interno.

Julgamento e atitude disputam nosso tempo. E às vezes esquecemos que assistimos às decisões alheias. Não são as nossas. Mas julgamento e atitude também disputam o tempo do outro.

Mais do que os fatos ocorridos, o esforço em fazer o melhor para si mesmo. Mais do que se identificar com o problema, se relacionar com a necessidade de escolher sempre. Mais do que concordar ou discordar, enxergar que nós mesmos erramos e acertamos, às vezes tudo ao mesmo tempo. Perceber que tudo tem consequências, boas ou ruins. E mais, ver que as coisas nem sempre são pretas ou brancas. Aliás, existe uma gama imensa de tons cinzas entre uma e outra. Enfim, essa é a vida da gente.

 

Lincoln Franco, jornalista com formação, especialização e mestrado em Comunicação Social e diretor de Jornalismo da Prefeitura de Indaiatuba, colaborou com esta edição.

foto: Divulgação/TV Globo