Aprendendo com os mais novos

O período de férias pode ser um ótimo momento para curtir mais os pequenos e aprender muito com eles

Rigidez excessiva e preocupação demais são sinais que o adulto não está deixando fluir sua criança interior

 

Quando uma criança faz muita bagunça uma velha frase vem à tona: “brincadeira tem hora”. No caso dos adultos também tem, mas de forma oposta. É preciso reservar um momento para voltar à infância, ou até mesmo vivenciá-la, de forma positiva, na maior parte do tempo. Afinal, não dá para levar a vida a sério 24 horas por dia. De acordo com a psicóloga da Unimed, Luana Viana Ciancalio, é natural que, com o passar dos anos, a criança existente em cada um seja reprimida em virtude das responsabilidades assumidas. Além disso, a sociedade exige um amadurecimento cada vez mais precoce. “A garotada tem agendas lotadas de compromissos, o que faz diminuir o tempo das brincadeiras, próprias da idade”, comenta Luana.

Mas o que é ser criança? “Essa palavra vem do latim infans, que quer dizer ‘aquele que não fala’, ou seja, não apto a possuir desejos e opiniões. Hoje em dia, o conceito mudou; a infância é percebida, agora, como uma fase de alegrias e brincadeiras”, afirma. Esse período é considerado transitório e exige cuidados. Os acontecimentos naturais desta época incluem o desenvolvimento físico, psicológico, cognitivo, emocional e social da criança. Entretanto, atualmente os pais parecem não permitir este processo.

Um pouquinho da infância

Quais características pueris um adulto poderia cultivar em sua vida, para que ela fosse levada de forma mais ‘leve’? Dentre os traços mais marcantes das crianças, a forma lúdica de entender e de se portar diante de um mundo muitas vezes cruel deveria ser mantida por toda a existência. “Desde os primeiros meses de vida o bebê brinca. Os jogos possibilitam o desenvolvimento das habilidades motoras, cognitivas, afetivas e sociais, tendo a linguagem como sua principal dimensão”, afirma a psicóloga.

Após a infância, vem a fase da adolescência. Definida como um período de transição para a vida adulta, se caracteriza pela maturação física, emocional e social. Nesta época existe a necessidade de auto-realização dentro de um grupo e, no rol das pessoas significativas, que antes se limitava aos pais e professores, e agora engloba também os amigos e ídolos. Daí para a vida adulta, o aspecto principal de mudança está na postura assumida: o indivíduo, a partir de então, passa a ter um lugar na sociedade. Símbolos desse posicionamento são os ingressos na vida profissional, conjugal e parental. O pensamento torna-se mais pragmático, capaz de solucionar problemas e enfrentar desafios. “Sentir o peso dessa carga de responsabilidade não é fácil. Por isso, entre os 20 e os 40, há maior incidência de estresse, depressão e outras doenças psíquicas”, explica Luana.

O adulto de hoje já foi uma criança, que também passou pela construção da identidade e teve de conviver com sentimentos negativos: a frustração, o medo, a ansiedade. Por outro lado, conheceu vitórias e reforçadores positivos, e os dois tipos de experiência ficaram marcados no substrato inconsciente. Se o homem feito se sente muito rígido e sério, vale a pena o exercício de buscar essa criança. “Os adultos seguros de si e bem resolvidos são aqueles capazes de brincar como garotos, vez ou outra, sem se envergonharem”, garante Luana.

O lado negativo da criança que ‘vive’ no adulto se manifesta quando a pessoa não consegue lidar com as frustrações da vida. Basta lembrarmo-nos da época de infância, quando queríamos algo: fazer birra e chorar eram as táticas para se conseguir o desejado. Alguns marmanjos mantêm este traço de comportamento, tentando impor os seus desejos a qualquer custo. As dicas para despertar esse lado envolvem o exercício de encarar as obrigações e pressões diárias de uma maneira mais “light”: relaxamento, alegria, ações inusitadas como correr na chuva, sorrir, enfim, divertir-se são comportamentos bem-vindos.

 

foto: BIRF