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Brasil sedia a primeira escola LGBT do mundo com o objetivo de gerar mais conhecimento sobre a cultura gay e combater a homofobia

foto: Microfoto

“A ideia é que a juventude gay, além de não ser reprimida, aprenda a se expressar melhor principalmente fora daqui, porque quanto mais os jovens se expressarem mais vão contribuir para levar conhecimento sobre o universo gay para a sociedade. E a gente acredita que: mais conhecimento, menos homofobia”, explica Deco Ribeiro, idealizador e diretor do Projeto Escola Jovem LGBT, apontando ainda que o preconceito esteja ligado à ignorância. “Quanto menos ignorância tiver sobre o assunto, menos preconceito vai ter”, completa.

A Escola Jovem LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) foi inaugurada em março deste ano e atende atualmente a 30 alunos, de 15 a 25 anos. A ideia do projeto nasceu da união de amigos gays que desde 2001 mantinham contato virtual através do site do Grupo E-Jovem de Adolescentes Gays, Lésbicas e Aliados, fundado por Deco Ribeiro, no mesmo ano. A partir de 2003 o grupo passou a organizar encontros no mundo real para atuar efetivamente junto à comunidade gay e já conta com 22 núcleos em mais de 20 cidades espalhadas por 11 Estados brasileiros, sendo um dos principais organizadores da Parada Gay de Campinas.

Aprovado pelo Ministério da Cultura (MinC), o Projeto Escola Jovem LGBT foi inserido no programa Pontos de Cultura, cujo objetivo é promover o intercâmbio e a valorização de diversas culturas. Para isso, o projeto será patrocinado durante três anos pelo MinC, recebendo contribuição de R$ 60 mil ao ano, valor esse que, segundo o diretor da escola, vem sendo primordial na compra de computadores, cadeiras, aluguel do espaço e custeio de professores. Além disso, os alunos que moram longe da escola recebem uma bolsa mensal de R$ 100,00 para gastos com transporte.

Na primeira escola do gênero no país, os alunos têm cursos que variam de três a seis meses e se dividem nas modalidades Artística, Cênica e Gráfica, sendo respectivamente neste semestre: Dança, Web-TV, e Fanzine, que de acordo com o jornalista Breno Agnes Queiroz, professor da disciplina, é um tipo de informativo feito por meio de recortes, desenhos, textos e animações gráficas, e que serve para divulgar informações, trocar ideias e expor os pensamentos. “Com as ‘zines’ nós conseguimos reinterpretar contextos e transmitir uma nova mensagem”, explica. As edições do material estão em fase de finalização e, assim como o conteúdo de Web-TV gravado pelos alunos, estuda-se distribuí-los em escolas e outros Pontos de Cultura, já que a ideia desses materiais é divulgar a cultura LGBT à comunidade em geral.

Nos próximos semestres o Ponto Cultural vai oferecer aulas de Música, Performance Drag Queen, Teatro, Cinema, Revista e Criação Literária. Segundo a direção, o principal objetivo dos cursos é fornecer as ferramentas necessárias para os jovens conhecerem a cultura LGBT e levá-la a todos, seja através dos ‘zines’, como das revistas e livros que pretendem publicar até 2012. Além disso, a escola está montando um espetáculo de dança e teatro sobre a “Revolta de Stonewall” e que vai circular o Estado de São Paulo, mostrando como o movimento gay passou a ser encarado nos EUA a partir de 1969.

Estratégia contra a homofobia

Se no início o público gay almejava visibilidade social, de acordo com Deco Ribeiro, agora é a hora de mostrar a cultura LGBT. “Uma vez que todos já sabem que os gays existem, agora é preciso falar a que viemos, o que a gente pensa. A escola é aberta ao público justamente para fazer esse intercâmbio de conhecimentos, senão não teria sentido”, explica, acrescentando ainda que o diálogo com a sociedade é o melhor caminho e serve como estratégia de combate à homofobia, ou seja, intolerância devido à orientação sexual.

E para manter a segurança e integridade física dos alunos, o projeto já ofereceu curso de defesa pessoal específico para homossexuais, no qual aprenderam técnicas da arte marcial japonesa ninjutsu, que deve ser usada para garantir a sobrevivência em eventuais situações que caracterizem homofobia. A Galera E-Jovem, formada por agentes jovens de saúde, está sendo uma das formas de o Projeto Escola Jovem LGBT atuar junto à comunidade local e consequentemente serem respeitados ou não serem vítimas de preconceito.

De acordo com o diretor do Ponto de Cultura LGBT, a população que está mais vulnerável ao preconceito é justamente a juventude. “Os mais velhos conseguem se virar um pouco mais, por terem independência. Já os adolescentes ainda contam muito com o apoio da família e de outras instituições como a escola. E se ele quiser ter uma conversa é normal ele procurar apoio dos professores e dos pais. Neste caso, essas instituições também contribuem para aumentar a homofobia, pois os jovens se veem, de repente, sem apoio. Isso é um dos grandes motivos que estimularam a criação do Grupo e da escola”, justifica.

Casos como o de Anderson Rogério Arruda, que integra o projeto após ter deixado a cidade de Cacoal, Rondônia, em função das constantes discriminações, inclusive de familiares, mostram que o preconceito ainda é uma realidade entre os LGBTs até mesmo dentro de casa. Por outro lado, a relação da drag-queen Juana, Coordenadora de Cultura do Grupo E-Jovem, com sua mãe representa o contrário. “Sempre tivemos uma convivência muito legal. A gente se ajuda e não há preconceito. Ela só fala para eu tomar cuidado, como todas as mães”, conta.

Para Deco Ribeiro, a cultura dos LGBT’s precisa ser compreendida. Só assim o público gay terá o respeito e reconhecimento que almejam como membros da sociedade. “As pessoas precisam conhecer e reconhecer essa Cultura Gay para terem menos preconceito. Aceitar não é obrigatório, mas respeitar é no mínimo humano, porque se você vive em sociedade você precisa respeitar os outros”, conclui.

MAIS: A Escola Jovem LGBT fica à rua José Camargo, 382 – bairro Nova Europa – Campinas. No momento as vagas estão completas.

LINK: www.e-jovem.com

texto Valdenir Apollo