O Mago voltou

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Consagrado no Brasil e no mundo, Paulo Coelho tem sua obra publicada em mais de 150 países e traduzida em 71 idiomas. Entre seus maiores sucessos estão “O alquimista”, considerado o livro brasileiro mais vendido de todos os tempos, e “O diário de um mago”. Nascido no Rio de Janeiro, em 1947, trabalhou como diretor e autor de teatro, jornalista e compositor, antes de se dedicar à literatura. Suas parcerias musicais com o legendário Raul Seixas resultaram em clássicos do rock brasileiro. Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 2002, ocupa a cadeira 21. É casado desde 1979 com a artista plástica Christina Oiticica.

No final de julho, Coelho retornou às suas origens com o lançamento do livro “O Aleph”. De maneira franca e surpreendente, o autor, que já vendeu 135 milhões de exemplares, revela na nova obra como suas dúvidas de fé o levaram a sair à procura de um caminho de renovação e crescimento espiritual. “Quando tinha 22 anos, comecei a me dedicar ao aprendizado da magia. Passei por diversos caminhos, andei à beira do abismo, escorreguei e caí, desisti e voltei. Imaginava que, quando chegasse aos 59 anos, estaria perto do paraíso e da tranquilidade absoluta que penso ver nos sorrisos dos monges budistas. Mas a busca da paz tem seu preço, e me pergunto: até onde estou disposto a chegar?”, questiona o autor.

Nessa nova jornada para se reaproximar de Deus, o mago resolve começar tudo de novo: viajar, experimentar, se reconectar às pessoas e ao mundo. Relutante a princípio, Coelho entende que é o momento de deixar a acomodação de lado e voltar a ser peregrino, abrindo-se para o mundo e para novas experiências. E, assim, entre março e julho de 2006, guiado por sinais, ele visita diversos continentes – Europa, África e Ásia – lançando-se em uma jornada através do tempo e do espaço, do passado e do presente, em busca de si mesmo.

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Paulo Coelho percorreu seu terceiro caminho sagrado, depois da transformadora peregrinação a Santiago de Compostela, em 1986, e do perturbador Caminho de Roma, três anos depois. “A viagem não foi para encontrar a resposta que estava faltando na minha vida, mas para voltar a ser rei do meu mundo. Estou de novo conectado comigo e com o universo mágico à minha volta. É isto que faz a vida interessante: acreditar em tesouros e milagres”, explica.

Ao longo da viagem, ele foi, pouco a pouco, saindo do seu isolamento, se despindo do ego e do orgulho e se abrindo à amizade, ao amor, à fé e ao perdão, sem medo de enfrentar os desafios inerentes à vida. O escritor pôde reconhecer a sabedoria contida nas palavras de seu guia espiritual, J., que o incentivou a sair da acomodação: “Nossa vida é uma constante viagem, do nascimento à morte. A paisagem muda, as pessoas mudam, as necessidades se transformam, mas o trem segue adiante. A vida é o trem, não a estação”.

Nesta entrevista, o escritor fala sobre “O Aleph” e suas experiências nessa fascinante viagem, que resultou no novo livro.

Em “O Aleph”, o senhor menciona que em 2006 estava passando por um momento de questionamento de sua fé. O que desencadeou essa crise?

A fé não é algo estático, mas uma dinâmica constante. Um famoso místico alemão já disse que muitas vezes ele estava com muita fé antes de atravessar uma rua, e quando chegava na outra calçada toda a sua devoção havia desaparecido. Portanto, eu não chamaria isso de crise, mas de um comportamento normal, com altos e baixos. Uma fé que se cristaliza perde o seu sentido e se transforma em fanatismo. A fé cresce quando é alimentada pela dúvida e pelos questionamentos interiores. Deus é verbo,  Deus é ação – e nosso contato com Ele, que chamamos de “fé”, também faz parte dessa ação. Ou seja: minha busca espiritual passa por um questionamento diário, e é isso que a faz mais forte, mesmo que em determinados momentos – como em 2006 – esse período se prolongue por muito tempo.

Em determinado momento, o senhor chega a dizer que não se sentia mais perto de Deus. Como se sente hoje em relação a isso?
O fato de não me sentir perto de Deus em determinados momentos jamais significou que Ele não estivesse ao meu lado todo o tempo. Era apenas uma questão de reconhecer isso – algo de que nunca duvidei. Ou seja, o ser humano, com suas limitações, cria suas fantasias, mas a alma desse mesmo ser humano diz: “Está bem, curta seu momento de fraqueza, mas você sabe que é uma bobagem. Deus jamais lhe abandonou e jamais lhe abandonará”. Com o passar do tempo, essa realidade se impõe.
No começo da sua carreira, títulos como “O diário de um mago” e “O alquimista” mostravam bastante seu fascínio pela busca espiritual. Em

“O Aleph”, o senhor chegou a pensar que “livros sagrados, revelações, manuais e cerimônias” podiam parecer coisas absurdas e sem efeito duradouro.  O senhor não teve medo de expor esses questionamentos?
Depois que escrevi “O diário de um mago” e fiz a peregrinação a Santiago de Compostela, tive a revelação mais importante da minha vida: o extraordinário reside no caminho das pessoas comuns. Em 1986 eu vinha havia quase 20 anos acreditando nos “segredos, revelações, etc.”, e foi aí que J., meu mestre, deixou bem claro: olha à sua volta, tudo o que estava oculto está revelado. Dediquei “O diário de um mago” ao meu guia, com as seguintes palavras: “Quando começamos a peregrinação, eu achei que havia realizado um dos maiores sonhos da minha juventude. Você era para mim o bruxo D. Juan, e eu revivia a saga de Castañeda em busca do extraordinário. Mas você resistiu bravamente a todas as minhas tentativas de transformá-lo em herói. Isto tornou muito difícil nosso relacionamento, até que entendi que o extraordinário reside no caminho das pessoas comuns. Hoje em dia, esta compreensão é o que possuo de mais precioso na minha vida, me permite fazer qualquer coisa e irá me acompanhar para sempre”.

A Transiberiana foi sua terceira peregrinação. De que maneira ela se assemelha ao Caminho de Santiago de Compostela?
O Caminho de Santiago era um movimento importante no espaço físico: eu partia do ponto A, chegava ao ponto B, e durante essa viagem encontrava e absorvia tudo o que estava diante de mim. O Caminho de Roma (1989) foi uma peregrinação no tempo: precisei ficar 70 dias no mesmo lugar (nesse caso, Lourdes, na França) e, embora as coisas não “acontecessem” como em uma viagem normal, o fato de não poder me mover além de certos limites obrigou minha alma a ver as mesmas  coisas de maneira diferente. O Caminho de Jerusalém, que incluiu a Transiberiana, onde procurei sintetizar toda a experiência ali adquirida, fez com que eu me movesse não apenas no espaço físico, mas também no tempo, trazendo o passado ao presente e levando o presente ao passado. Nunca imaginei que conseguiria escrever a respeito, mas depois de quatro anos amadurecendo a ideia, e sabendo que a melhor maneira que tenho para sedimentar minhas experiências é através da escrita, finalmente consegui.
“O Aleph” é um retorno ao livro em primeira pessoa. Quais as diferenças entre escrever ficção e não ficção?
É muito mais difícil escrever não ficção, porque o autor não tem outra escolha a não ser expor publicamente sua alma. Isso nem sempre é agradável, mas é necessário. Como dizia Jesus, “a verdade vos libertará”.
Em uma frase, o Aleph é um ponto que contém todo o espaço e todo o tempo. Mas o que representa o Aleph para o senhor? É apenas um ponto físico ou precisa também ser um encontro de energia?
É muito difícil resumir isso em uma frase. Mas eu diria que o Aleph “é”.

Hilal, que surgiu em sua viagem e é citada no livro, foi seu amor em uma vida passada, mas ela o descreve como seu amor nesta vida. Como o senhor lidou com isso?
Eu estou casado há 30 anos com a mesma mulher, e isso me dá muito mais tranquilidade para enfrentar esse tipo de situação. Também  conta o fator idade: o amor exige uma relação apaixonada e madura, que tenho hoje em dia com Christina. Hilal, quando a conheci, tinha 21 anos (embora parecesse mais velha). Conversamos por e-mail recentemente: ela pressentiu que eu estava escrevendo sobre nossa experiência e voltamos a ter contato. Não perguntei sobre sua vida afetiva, mas tenho certeza de que é uma questão de tempo até que ela encontre a pessoa que Deus colocou em sua vida.

texto Marcela Cerqueira e Gustavo Pinheiro