{"id":8956,"date":"2017-03-03T16:30:39","date_gmt":"2017-03-03T19:30:39","guid":{"rendered":"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/?p=8954"},"modified":"2024-01-26T11:35:35","modified_gmt":"2024-01-26T14:35:35","slug":"sonia-braga-especial-para-a-regional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/2017\/03\/03\/sonia-braga-especial-para-a-regional\/","title":{"rendered":"Sonia Braga especial para a Regional"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_10642\" aria-describedby=\"caption-attachment-10642\" style=\"width: 208px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Sonia-Braga_cred-Andre-Arruda_alta.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-10642 size-medium\" src=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Sonia-Braga_cred-Andre-Arruda_alta-208x300.jpg\" alt=\"\" width=\"208\" height=\"300\" data-id=\"10642\" srcset=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Sonia-Braga_cred-Andre-Arruda_alta-208x300.jpg 208w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Sonia-Braga_cred-Andre-Arruda_alta-104x150.jpg 104w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Sonia-Braga_cred-Andre-Arruda_alta.jpg 444w\" sizes=\"(max-width: 208px) 100vw, 208px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10642\" class=\"wp-caption-text\">S\u00f4nia fala das pol\u00eamicas no Brasil e do filme \u201cAquarius\u201d, onde interpreta a protagonista Clara<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Para os brasileiros, ela \u00e9 um mito. Considerada uma das melhores atrizes, mas n\u00e3o s\u00f3 da sua gera\u00e7\u00e3o, Sonia Braga, grande estrela do filme \u201cAquarius\u201d, de 2016, concedeu uma entrevista exclusiva ao site da Revista Regional. Interpretando na sua l\u00edngua materna, Sonia ficou feliz por poder falar portugu\u00eas num filme novamente. \u201c\u00c9 impressionante. \u00c9 um momento de alegria, numa hora de muita tristeza. N\u00f3s estamos vivendo em momentos estranhos com esse filme. Porque ao mesmo tempo que temos a alegria de ter feito, \u00e9 um momento em que a Clara representa essa mulher, brigando pelo direto que tem, e tentando provar que tem esse direito\u201d, concluiu. Consciente das mudan\u00e7as que vem acontecendo no Brasil, em especial sobre os diretos das mulheres, Sonia acredita que a m\u00eddia as trata, como se fosse nos anos 40, e critica o preconceito que ainda persiste. \u201cUma mulher de 60 anos com um garoto de 20 \u00e9 imposs\u00edvel, mas um homem com uma menina dessa idade, n\u00e3o tem o menor problema. Uma mulher que toma frente, sua posi\u00e7\u00e3o diante da sociedade, \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o uma regra\u201d, explica ela, ressaltando que a ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica pode ser um caminho para essas mudan\u00e7as. J\u00e1 sobre o grupo de pessoas exclu\u00eddas, a atriz tamb\u00e9m revelou sua opini\u00e3o sobre o assunto. \u201cA tens\u00e3o \u00e9 clara. O que eu posso dizer \u00e9 que os movimentos existem e existiram antes, mas muito calados. Por isso com a chegada da internet, eles tiveram a oportunidade de se organizar. Eu apenas espero que haja mais justi\u00e7a para todos, e que n\u00f3s possamos ter um Brasil mais justo\u201d, pontuou, mas falou que a luta deveria ser de todos. \u201cEssa divis\u00e3o me incomoda demais, porque todas as nossas lutas teve uma uni\u00e3o, uma unifica\u00e7\u00e3o quando fomos para Diretas J\u00e1. O Brasil tornou-se um pa\u00eds democr\u00e1tico. E corremos o risco de perdermos essa democracia que \u00e9 t\u00e3o jovem\u201d, finalizou. Apesar de n\u00e3o falar sobre pol\u00edtica abertamente, a atriz declarou que sua personagem serviu como voz para dizer o que ela, como cidad\u00e3 est\u00e1 sentindo no momento. \u201cEu estava precisando destas palavras, desse posicionamento, que eu j\u00e1 estava tendo como cidad\u00e3, mas sem uma plataforma. Tem uma cena muito bacana do filme, que \u00e9 sobre o c\u00e2ncer dela. Quando ela se encontra com os empres\u00e1rios, ela comenta que teve a doen\u00e7a, e que hoje ela prefere dar do que ter. \u00c9 um pouco do que estamos sentindo atualmente. Vamos pra rua\u201d, estimulou a atriz. Nesta entrevista coerente, Sonia diz o que pensa. Leia, reflita e tire suas pr\u00f3prias conclus\u00f5es, sobre esta mulher que tem um papel importante, n\u00e3o s\u00f3 na dramaturgia brasileira, mas como formadora de opini\u00e3o e, principalmente, como cidad\u00e3 brasileira. Enjoy!<\/em><\/p>\n<p><strong>REVISTA REGIONAL: De volta ao cinema nacional, voc\u00ea interpreta Clara, uma jornalista e escritora aposentada que mora de frente para o mar no Aquarius, \u00faltimo pr\u00e9dio de estilo antigo na cidade. O que voc\u00ea usou como refer\u00eancia para interpret\u00e1-la?<\/strong><\/p>\n<p>SONIA BRAGA: Quando eu recebi o roteiro do Kleber (Mendon\u00e7a Filho, diretor) fiquei muito impressionada, porque realmente foi o melhor trabalho, que eu j\u00e1 li na minha vida. Ele \u00e9 inteiro e completo. A hist\u00f3ria, imediatamente se juntou com a minha alma, com o meu corpo, e na realidade, ele me deu uma voz novamente. Quer dizer, todas as palavras que estavam ali, naquele roteiro, era uma voz para a Sonia, para a cidad\u00e3 na qual eu me tornaria na tela. Eu estava precisando destas palavras, desse posicionamento, que eu j\u00e1 estava tendo como cidad\u00e3, mas sem uma plataforma. Com o \u2018<strong>Aquarius\u2019 <\/strong>eu encontrei, n\u00e3o s\u00f3 essa possibilidade, mas um grupo inteiro de pessoas, que s\u00e3o meus amigos, numa cidade impressionante, com um movimento art\u00edstico social e pol\u00edtico, incr\u00edvel. Quando eu cheguei em Recife pra fazer o filme, eu sa\u00ed de l\u00e1, uma pessoa com muitos amigos. E de verdade, eu cresci muito. Da cidade, eu s\u00f3 n\u00e3o fiquei com o sotaque, porque nasci em S\u00e3o Paulo, e toda vez que eu volto, a \u201cporta aberta\u201d volta tamb\u00e9m (risos). Tem uma cena muito bacana do filme, que \u00e9 sobre o c\u00e2ncer dela. Quando ela se encontra com os empres\u00e1rios, ela comenta que teve a doen\u00e7a, e que hoje ela prefere dar do que ter. \u00c9 um pouco do que estamos sentindo atualmente. Vamos pra rua.<\/p>\n<p><strong>As mulheres t\u00eam cada vez mais lutado por seus direitos. Como voc\u00ea enxerga essa mulher na m\u00eddia, nos dias de hoje?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que a m\u00eddia, ainda trata a mulher, como se fosse anos 40. Uma mulher de 60 anos, nessa \u00e9poca era muito velhinha. A minha av\u00f3, por exemplo, se eu n\u00e3o me engano, faleceu com essa idade. Mas n\u00e3o podemos esquecer que muita coisa mudou. O ser humano se envolveu de uma maneira incr\u00edvel, e dentro da sociedade, a mulher tomou uma posi\u00e7\u00e3o mais forte, muito mais presente. Eu acho que, na realidade, a ind\u00fastria n\u00e3o acompanha muito isso, em termos de rela\u00e7\u00e3o, entre homem e mulher, por exemplo. Vou ser mais explicita. Uma mulher de 60 anos com um garoto de 20 \u00e9 imposs\u00edvel, mas um homem com uma menina dessa idade, n\u00e3o tem o menor problema. Uma mulher que toma frente, sua posi\u00e7\u00e3o diante da sociedade, \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o uma regra. Isso tudo ainda precisa de um acerto da sociedade, da ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica, das artes com as mulheres. Algumas est\u00e3o se tornando roteiristas, e revelando tudo isso, mas ainda existe um caminho para percorremos. A minha personagem conseguiu abrir espa\u00e7o para essa discuss\u00e3o. \u00c0s vezes, essas mulheres existem, mas elas n\u00e3o s\u00e3o protagonistas.<\/p>\n<p><strong>A briga n\u00e3o \u00e9 apenas das mulheres, mas de grupo de pessoas exclu\u00eddas, desfavorecidas, homossexuais. Voc\u00ea acredita que esse cen\u00e1rio tamb\u00e9m est\u00e1 mudando?<\/strong><\/p>\n<p>A tens\u00e3o \u00e9 clara. O que eu posso dizer \u00e9 que os movimentos existem e existiram antes, mas muito calados. Por isso, com a chegada da internet, eles tiveram a oportunidade de se organizar. Mas eu tamb\u00e9m acredito que existam sim, algumas dificuldades, mesmo com a tecnologia. Eu apenas espero que haja mais justi\u00e7a para todos, e que n\u00f3s possamos ter um Brasil mais justo. Espero que as crian\u00e7as, e eu venho dizendo desde sempre, que elas e os brasileiros consigam cumprir seus destinos, mas desde o ber\u00e7o. Elas precisam ser cuidadas, alimentadas, as m\u00e3es, as mulheres. Como eu j\u00e1 disse, existe a Delegacia da Mulher, mas precisamos da cl\u00ednica feminina tamb\u00e9m. S\u00e3o coisas espec\u00edficas, que precisam ser lidadas. Mas tem uma coisa: essa divis\u00e3o me incomoda demais, porque todas as nossas lutas, teve uma uni\u00e3o, uma unifica\u00e7\u00e3o quando fomos para Diretas J\u00e1. O Brasil, tornou-se um pa\u00eds democr\u00e1tico. E corremos o risco de perdermos essa democracia que \u00e9 t\u00e3o jovem.<\/p>\n<p><strong>Em algum momento voc\u00ea ficou de fora de algum trabalho por ser \u201cA Sonia Braga\u201d &#8211; uma grande atriz? <\/strong><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei dizer, se teve algum papel que eu n\u00e3o fiz. \u00c9 uma resposta que na realidade, eu n\u00e3o tenho. Tem uma coisa que eu falo, e que as pessoas ficam meio assim na hora. \u00c9 que eu n\u00e3o sou muito atriz. O ator de teatro, se ele realmente n\u00e3o trabalha, sofre muito. \u00c9 um pouco diferente. O ator se ele n\u00e3o est\u00e1 trabalhando no cinema, no teatro ou na televis\u00e3o, ele sofre muito, mas na realidade, eu n\u00e3o sofro. Gosto de ficar andando e tirando fotografias, participando da vida, de uma maneira que \u00e9 um pouco observar. Talvez, por isso, e em consequ\u00eancia disso, eu esteja pronta para determinados personagens, porque estou muito mais ligada \u00e0 vida, do que ao cinema, a essa linguagem. Estou como observadora da vida. \u00c9 muito dif\u00edcil para mim saber se alguma vez eu n\u00e3o fui chamada. Acho que algu\u00e9m precisa responder por mim.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><strong>Existe uma frase do filme que ficou muito famosa: \u201cQuando a gente n\u00e3o gosta, \u00e9 velho, quando gosta, \u00e9 vintage\u201d. Se n\u00f3s n\u00e3o nos renovamos, a sociedade se incomoda. Como \u00e9 essa coisa do velho e do novo conviverem juntos?<\/strong><\/p>\n<p>Eu morei um tempo no Rio de Janeiro, e quando voltei para S\u00e3o Paulo, nos anos 60, eu j\u00e1 frequentava muito o Centro da cidade. Eu passeava na Esta\u00e7\u00e3o da Luz. Essa parte da cidade, para mim, sempre foi um lugar muito importante, porque \u00e9 hist\u00f3rica. \u00c9 o valor da nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria. \u00c9 onde n\u00f3s aprendemos a conviver com o futuro, inclusive a segui-lo, sem cometer os erros do passado. \u00c9 interessante no facebook, e algumas pessoas me criticaram muito, de eu ter comprado um apartamento no Centro do Rio de Janeiro. Mas quando elas viajam para a Europa, sempre est\u00e3o em frente a um pr\u00e9dio antigo, posando no Centro da cidade. O primeiro lugar que elas v\u00e3o, \u00e9 para Downtown, porque \u00e9 lindo, \u00e9 chique. N\u00f3s perdemos isso. O Centro do Rio foi destru\u00eddo, n\u00e3o existe mais, est\u00e1 acabado. Veja bem, como \u00e9 poss\u00edvel uma cidade que poderia ser muito saud\u00e1vel, ter criado um lugar como a Barra da Tijuca, que \u00e9 um lugar muito feio, onde tem um shopping center, que colocaram a Est\u00e1tua da Liberdade na frente?! \u00c9 um tipo de gosto, que o m\u00ednimo que eu posso dizer, n\u00e3o \u00e9 o meu. N\u00e3o \u00e9 nem a quest\u00e3o do vintage e do velho, mas a preserva\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. N\u00f3s s\u00f3 temos uma hist\u00f3ria. Essa \u00e9 que a verdade. N\u00e3o estou falando em paix\u00e3o pela biografia, mas ter certo respeito, para poder contar e continuar. Uma coisa que n\u00e3o existe no Brasil, por exemplo, que \u00e9 um pa\u00eds perfeito, \u00e9 trem. O transporte p\u00fablico n\u00e3o funciona como deveria. No Rio, os trens que funcionam para os sub\u00farbios, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 humano. Essas quest\u00f5es sempre me preocuparam muito. Eu n\u00e3o sei nem de onde surgiram essas preocupa\u00e7\u00f5es, mas acho que foi desde quando eu comecei a observar. Quando eu morava em S\u00e3o Paulo, eu ia trabalhar de \u00f4nibus. Eram muito lotados, e eu percebia que era muito dif\u00edcil de chegar ao trabalho, no Centro da cidade, onde eu trabalhava na Cagesp. Era um centro de armaz\u00e9m, alguma coisa assim. Eu tinha uns 14, 15 anos, mas eu j\u00e1 observava, e desenvolvi esse grande amor por ter esse Centro da cidade, uma hist\u00f3ria. Quando se destr\u00f3i um pr\u00e9dio, voc\u00ea est\u00e1 destruindo um pouco daquele bairro. Hoje em dia, n\u00e3o existem mais bairros, ele acabou. Normalmente, os encontros s\u00e3o feitos em shopping centers. Existiu uma \u00e9poca no Rio, e eu n\u00e3o sei se voc\u00ea sabe desse movimento, mas coisa desse tipo n\u00e3o permanece na m\u00eddia durante muito tempo. Nos anos 80, eu saia com a minha fam\u00edlia, para varrer as pra\u00e7as. N\u00f3s cham\u00e1vamos de \u201cmovimento loucos varridos\u201d. Mas n\u00e3o pertenc\u00edamos a nenhuma funda\u00e7\u00e3o, \u00e9ramos n\u00f3s da fam\u00edlia, cada um como cidad\u00e3o, que queria as pra\u00e7as, as praias limpas. O princ\u00edpio era o seguinte: Os lugares que est\u00e3o limpos, n\u00e3o geram viol\u00eancia. N\u00f3s compr\u00e1vamos vassouras, sacos de lixo, e sa\u00edamos com esse princ\u00edpio, e n\u00f3s tamb\u00e9m lev\u00e1vamos um grupo de chorinho para tocar para a gente. Fica a proposta.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><strong>Voc\u00ea falou um pouco sobre tecnologia, e o filme foi bastante divulgado na internet, e ganhou repercuss\u00e3o na \u00e9poca de Cannes. Como voc\u00ea encara essa divulga\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 muito interessante, porque eu sou da \u00e9poca em que \u2018<strong>O Beijo da Mulher Aranha\u2019 <\/strong>(1985), por exemplo, e n\u00f3s fomos para o Oscar e tal, de vez em quando chegava um telegrama (risos). Entende?! Ent\u00e3o, \u00e9 interessante ver esses dois momentos na minha vida, que tem essa impress\u00e3o de que eu fiquei longe do Brasil. Mas esse agito que aconteceu na internet foi maravilhoso. Hoje em dia, quando eu quero publicar uma nota, eu coloco no facebook. Porque sou eu que estou escrevendo, \u00e9 a minha verdade, e at\u00e9 para desmentir alguma not\u00edcia. S\u00e3o as minhas palavras. \u00c9 uma coisa muito bacana que est\u00e1 acontecendo. Quanto a ajudar ao filme ou n\u00e3o, \u00e9 o nosso trabalho, e n\u00f3s temos muito orgulho, foi muito bom. Tudo que est\u00e1 escrito ali \u00e9 verdade.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea fez \u201cTieta\u201d (1996) e depois n\u00e3o apareceu mais no cinema como protagonista. Em algum momento sentiu-se tra\u00edda por ter ficado tanto tempo fora?<\/strong><\/p>\n<p>Vou te contar uma hist\u00f3ria. Eu fiz \u201c<strong>A Moreninha\u201d <\/strong>(1970), \u201c<strong>Mesti\u00e7a\u201d, \u201cA Escrava Indom\u00e1vel\u201d <\/strong>(1973), \u201c<strong>Dona Flor\u201d <\/strong>(1976), e \u201c<strong>Gabriela\u201d <\/strong>(1983). Quando eu estava terminando Gabriela, eu tinha um namorado que era da equipe. Eu comentei com ele que gostaria de fazer um filme com um papel pequeno, tipo uma participa\u00e7\u00e3o especial, porque eu nunca participo do filme. Estou sempre me maquiando, trocando de roupa, e nunca estou no set de filmagem. Eu n\u00e3o visito o set, porque as pessoas ficam muito t\u00edmidas, porque n\u00e3o \u00e9 o meu lugar. O jornalista quando visita, percebe que existe um ambiente que \u00e9 estranho. Existe uma intimidade com as pessoas, que n\u00e3o \u00e9 a sua. Eu tive um encontro com o Hector Babenco (diretor), que queria falar comigo. Ele disse que nem sabia como me propor, mas gostaria que eu fizesse uma pequena participa\u00e7\u00e3o no filme dele. Era uma cena da varanda e tchau. Mas eu perguntei se eu poderia participar do set, e ele disse que sim. Fiz um filme, no qual participei da grava\u00e7\u00e3o, num dia. Coisa boa \u00e9 fazer cinema. Mas em \u201c<strong>Aquarius\u201d<\/strong> eu tinha a responsabilidade de n\u00e3o ficar nenhum dia doente, e nem faltar. Mas foi emocionante receber esse roteiro. Eu estou com 66 anos, mas acho que qualquer atriz ficaria feliz em receber esse roteiro, em qualquer idade. \u00c9 precioso, porque me devolveu um rosto. Tem uma hist\u00f3ria em Niter\u00f3i, em que eu fui com a minha irm\u00e3 ao shopping center, h\u00e1 um tempo atr\u00e1s, e uma mo\u00e7a ficou dizendo que me conhecia de algum lugar. Da\u00ed ela perguntou se eu havia trabalhado no shopping (risos). Se voc\u00ea n\u00e3o estiver na televis\u00e3o, n\u00e3o importa se fez \u201c<strong>Gabriela\u201d, \u201cA Dama da Lota\u00e7\u00e3o\u201d <\/strong>(1978), \u201c<strong>Dona Flor\u201d, \u201cTieta\u201d<\/strong>.&nbsp; Se voc\u00ea trabalhou tanto tempo, vai perdendo o seu rosto, vai se afastando no barquinho e vai embora, desparece mesmo. \u201c<strong>Aquarius\u201d <\/strong>devolveu o meu rosto para o Brasil. Devolveu-me a minha l\u00edngua m\u00e3e. Fazer um filme inteiro em portugu\u00eas \u00e9 impressionante. \u00c9 um momento de alegria, numa hora de muita tristeza. N\u00f3s estamos vivendo em momentos estranhos, com esse filme. Porque ao mesmo tempo em que temos a alegria de ter feito, \u00e9 um momento em que a Clara representa essa mulher, brigando pelo direto que tem, e tentando provar que tem esse direito.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><strong>Sua personagem, durante uma entrevista, \u00e9 questionada se prefere ouvir m\u00fasicas no MP3 ou discos, mas como voc\u00ea prefere?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 como a Clara mesmo diz: \u201cO importante \u00e9 ter m\u00fasica\u201d. Eu tinha uma cole\u00e7\u00e3o muito grande, porque sou dessa \u00e9poca que a Clara viveu. Mas como eu comecei a viajar muito, os meus discos ficaram no Brasil e, infelizmente, inclusive alguns documentos que eu tinha, ficou na casa de um amigo, que teve uma enchente. Eu perdi muita coisa. Mas eu tenho um disco do Tom Jobim, que fica num lugar especial, que ele assinou para mim. Essa \u00e9 a mensagem da garrafa, na qual ela se refere no filme. Eu dei para o Kleber, uma trilha sonora em vinil, de \u201c<strong>Dona Flor<\/strong> <strong>e Seus Dois Maridos\u201d. <\/strong>Depois ele me mandou uma foto com os dois filhos e o disco. \u00c9 a mensagem da garrafa.<\/p>\n<p><em>&nbsp;entrevista\/texto: ESTER JACOPETTI<\/em><\/p>\n<p><em>foto: Andr\u00e9 Arruda<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para os brasileiros, ela \u00e9 um mito. Considerada uma das melhores atrizes, mas n\u00e3o s\u00f3 da sua gera\u00e7\u00e3o, Sonia Braga, grande estrela do filme \u201cAquarius\u201d, de 2016, concedeu uma entrevista exclusiva ao site da Revista Regional. 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