{"id":7444,"date":"2015-12-04T10:26:46","date_gmt":"2015-12-04T13:26:46","guid":{"rendered":"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/?p=7444"},"modified":"2024-01-26T11:35:55","modified_gmt":"2024-01-26T14:35:55","slug":"tarcisio-meira-identidade-em-movimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/2015\/12\/04\/tarcisio-meira-identidade-em-movimento\/","title":{"rendered":"Tarc\u00edsio Meira: identidade em movimento"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_7447\" aria-describedby=\"caption-attachment-7447\" style=\"width: 384px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/TARCISIO-MEIRA-OK-10-FOTO-GAL-OPPIDO.jpg\" rel=\"attachment wp-att-7447\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-7447 \" src=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/TARCISIO-MEIRA-OK-10-FOTO-GAL-OPPIDO.jpg\" alt=\"\" width=\"384\" height=\"256\" srcset=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/TARCISIO-MEIRA-OK-10-FOTO-GAL-OPPIDO.jpg 640w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/TARCISIO-MEIRA-OK-10-FOTO-GAL-OPPIDO-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 384px) 100vw, 384px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-7447\" class=\"wp-caption-text\">Tarc\u00edsio Meira est\u00e1 na pe\u00e7a \u201cO Camareiro\u201d, em cartaz em S\u00e3o Paulo<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em uma longa conversa, Tarc\u00edsio Meira faz uma reflex\u00e3o sobre os 60 anos de carreira, sendo 20 longe dos palcos, e 80 de uma vida com muitas experi\u00eancias e hist\u00f3rias que renderiam um bom livro. Protagonizou, ao lado de Gl\u00f3ria Menezes, sua esposa desde ent\u00e3o, a primeira novela da televis\u00e3o brasileira, exibida em 1963. \u201cAtrevo-me a dizer que foi um elemento agregador na quest\u00e3o do nosso pa\u00eds. Ajudou a criar uma identidade nacional. As novelas foram muito importantes\u201d, argumenta. Conhecido por interpretar personagens marcantes, o ator \u00e9 considerado at\u00e9 hoje, um dos principais nomes da dramaturgia brasileira, que escreveram n\u00e3o s\u00f3 sua hist\u00f3ria, mas deixaram sua marca na import\u00e2ncia da arte de representar. \u201cFiz personagens que foram importantes para as pessoas. Personagens dos quais elas sentem saudades\u201d, comentou. De volta aos palcos, ele interpreta Sir, um ator \u00e0 beira de um colapso, como ele mesmo descreve. \u201cUma figura humana que passa por uma crise de sa\u00fade, de exaust\u00e3o, um trabalho muito dif\u00edcil e desafiador\u201d, revelou Tarc\u00edsio, que tamb\u00e9m diz sentir o peso da idade. \u201cFazer 80 \u00e9 uma carga muito pesada. \u00c9 uma dificuldade muito grande, ter que lidar com um personagem como este\u201d. Casado h\u00e1 exatos 52 anos com Gl\u00f3ria, muitos perguntam sobre o segredo de um casamento t\u00e3o duradouro. Com sorriso nos l\u00e1bios, mas sem a pretens\u00e3o de agradar com uma resposta de contos de fadas, Tarc\u00edsio revela que essa hist\u00f3ria aconteceu de uma maneira impensada e indesejada. \u201cQuer dizer, voc\u00ea n\u00e3o deseja ter um casamento duradouro, mas ter um bom casamento. Se ele durar, \u00e9 um passo circunstancial, mas n\u00e3o tem nada a ver com nada\u201d. J\u00e1 sobre a quest\u00e3o de estar em \u00f3tima forma, ele diz de forma melanc\u00f3lica, que morrer\u00e1 antes de Gl\u00f3ria. \u201cN\u00e3o vou sofrer a aus\u00eancia dela. Vou sofrer a minha aus\u00eancia desde agora, desde hoje. Quando voc\u00ea chega numa certa idade, voc\u00ea pensa: Tantos amigos foram embora, eu tenho que ir tamb\u00e9m. Est\u00e1 chegando a minha hora\u201d, concluiu com um olhar tristonho, mas conformado. A grande certeza que temos \u00e9 que podemos festejar a volta deste grande ator ao teatro e, quem sabe, em breve na televis\u00e3o, como ele mesmo disse. Portanto, aproveite para conhecer um pouco mais sobre como pensa e vive essa lenda da televis\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p><strong>REVISTA REGIONAL: \u201cO Camareiro\u201d conta o drama de uma companhia de teatro esfacelada pela guerra e tamb\u00e9m sobre a dificuldade de se fazer escolhas, sobre continuar ou desistir, cumprir sua miss\u00e3o ou desertar. O senhor acredita que a pe\u00e7a toca no lado mais ef\u00eamero do of\u00edcio do ator, da arte e da interpreta\u00e7\u00e3o? \u00a0<\/strong><\/p>\n<p>TARC\u00cdSIO MEIRA: Essa \u00e9 uma quest\u00e3o bem dif\u00edcil de responder, porque \u00e9 muito complexa, mas acredito que o nosso trabalho, na verdade, n\u00e3o \u00e9 muito simples. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 muito dif\u00edcil! Qualquer personagem tem sua complexidade, porque o ator precisa buscar a verdade, para conseguir mostr\u00e1-la no palco, especificamente, tudo que ele realmente \u00e9. Podemos at\u00e9 mostrar partes de um todo, mas ele precisa ser completo, bem compreendido, conhecido e verdadeiro. No meu caso, exijo e busco a verdade dos meus personagens, mas quando n\u00e3o o encontre, fujo deles. Todos os trabalhos que fiz at\u00e9 hoje nenhum deles foi f\u00e1cil. O Sir \u00e9 muito dif\u00edcil de interpretar, porque ao mesmo tempo, ele \u00e9 pr\u00f3ximo e muito distante de mim. Ele \u00e9 um ator shakespeariano, o que n\u00e3o \u00e9 o meu caso. Sou um ator de televis\u00e3o, teatro e cinema. Um ator que sabe, talvez, falar muito mais com os olhos do que atrav\u00e9s das express\u00f5es ou das palavras. Ali\u00e1s, elas sempre foram menos importantes, mas n\u00e3o somente pra mim. Lembro-me de quando fiz \u201cGrande Sert\u00e3o: Veredas\u201d (1985) com o Avancini (Walter, diretor) um trabalho muito bonito. N\u00f3s tivemos uma professora de pros\u00f3dia, para falar exatamente como o Guimar\u00e3es Rosa escreveu, que era como as pessoas falavam no interior do norte de Minas. Era uma linguagem muito dif\u00edcil de compreender. Havia uma maneira muito especial de falar. Perguntei para o Avancini como far\u00edamos, porque percebi que ningu\u00e9m entenderia nada. Ele disse que n\u00e3o, que as pessoas entenderiam sim! Mas a quest\u00e3o \u00e9 que nem eu estava compreendendo (risos). Ele disse que a hist\u00f3ria contaria muito mais que a palavra, que ela n\u00e3o era t\u00e3o necess\u00e1ria, mas caso ela contribu\u00edsse, \u00f3timo! Se n\u00e3o, eles compreenderiam do mesmo jeito, porque a hist\u00f3ria estava sendo contada de uma maneira ou de outra. O que eu n\u00e3o poderia fazer \u00e9 mascarar o Guimar\u00e3es. Depois descobri que o diretor tinha toda raz\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A atriz Regina Duarte comentou durante uma entrevista, que seu maior medo era ficar longe da televis\u00e3o e dos palcos. Por isso, ela terminou se reinventando dirigindo no teatro. Em algum momento passou pela sua cabe\u00e7a trabalhar nas coxias?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, mas j\u00e1 participei de algumas produ\u00e7\u00f5es, mas por uma circunst\u00e2ncia tola qualquer, mas n\u00e3o porque eu tivesse o desejo de produzir algo. Simplesmente aconteceu naturalmente, mas nunca tive o desejo de dirigir. Na verdade, o meu desejo \u00e9 continuar atuando, sendo o ator que sempre fui.<\/p>\n<p><strong>O espet\u00e1culo aborda a quest\u00e3o da arte em tempos \u00e1ridos. O senhor acredita que o texto se mant\u00e9m atual neste sentido, da arte de perder espa\u00e7o na dureza do mundo? O senhor acredita que a tecnologia est\u00e1 cada vez mais presente na vida das pessoas, e elas est\u00e3o deixando de aproveitar o que \u00e9 de fato real?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, acredito no contr\u00e1rio. \u00c0s vezes sou prolixo (risos) porque tenho muitas experi\u00eancias acumuladas e, por isso, de vez em quando fico buscando na mem\u00f3ria. Uma vez, eu estava num est\u00fadio e antigamente as c\u00e2meras eram muito problem\u00e1ticas, eram feitas \u00e0 base de martelo e prego. N\u00e3o tinha a tecnologia que temos hoje. Elas pifavam muito, ent\u00e3o quando cheg\u00e1vamos a gravar oito ou dez horas por dia, fic\u00e1vamos mais de cinco horas parado esperando consertar. Acontecia muito! Os engenheiros desciam com suas chaves de fenda para tentar arrumar as c\u00e2meras ou substitu\u00ed-las. Uma vez eu estava num cen\u00e1rio e n\u00e3o tinha o que fazer. Peguei uma revista para ler, n\u00e3o me recordo do nome, mas hoje em dia ela n\u00e3o existe mais. Uma revista muito boa, com \u00f3timos artigos e havia um ensaio muito interessante de uma pessoa que eu n\u00e3o conhecia. Esqueci o nome dele, mas \u00e9 conhecid\u00edssimo! Comecei a ler e n\u00e3o conseguia mais parar. Eram umas cinco p\u00e1ginas e deu tempo de ler tudinho. Ele falava sobre a cibern\u00e9tica, sobre a modernidade e como o mundo seria a cada dia, daqui para frente. Ele dizia que o mundo est\u00e1 construindo m\u00e1quinas cada vez mais maravilhosas, completas e capazes de tudo. Lembrei o nome dele, Arthur C. Clarke, que escreveu \u201c2001: Odisseia no Espa\u00e7o\u201d (1968). Segundo ele, essa evolu\u00e7\u00e3o aconteceria em 2070, o que n\u00e3o est\u00e1 muito longe. Ser\u00e1 o dia em que o \u00faltimo homem deixar\u00e1 de trabalhar sobre a face da terra, porque ele ter\u00e1 criado m\u00e1quinas, capazes de criar outras, que substituir\u00e3o todo o trabalho humano. Todo esse conserto, digamos assim, ser\u00e1 feito apenas por uma \u00fanica superm\u00e1quina, detentora de todo o conhecimento e toda habilidade humana, e at\u00e9 a sensibilidade. Neste dia, nos tornaremos parceiros de m\u00e1quinas. Nenhum homem voltar\u00e1 a trabalhar. Ele entrar\u00e1 numa fase de lazer e de grande enriquecimento espiritual e cultural. O homem perguntar\u00e1 para a m\u00e1quina: Deus existe? A m\u00e1quina responder\u00e1: Agora existe! (risos). Impressionante! Eu li esse ensaio h\u00e1 muitos anos e cai de costas. Arthur Clarke fez romances maravilhosos.<\/p>\n<p><strong>S\u00e3o 60 anos de carreira, tanto na televis\u00e3o, como no cinema e no teatro. Sabemos que ser\u00e1 uma miss\u00e3o dif\u00edcil, mas o senhor conseguiria selecionar alguns personagens, que foram importantes durante os anos de profiss\u00e3o? Saberia dizer quais foram os mais marcantes?<\/strong><\/p>\n<p>Realmente \u00e9 um pouco dif\u00edcil, mas tem muitos personagens que foram importantes. Juan Gallardo (Sangue e Areia, 1967) uma novela de Vicente Blasco Ib\u00e3nez, adaptado por Janete Clair. \u00c9 claro que \u201cO Tempo e o Vento\u201d (1985) foi muito marcante, eu fiz o Capit\u00e3o Rodrigo Cambar\u00e1. \u201cA Escalada\u201d (1976, Ant\u00f4nio Dias). Fiz tamb\u00e9m uma s\u00e9rie (Desejo, 1990) com a Vera Fisher em que eu interpretava o Euclides da Cunha. E claro, \u201cGrande Sert\u00e3o\u201d, em que eu interpretei Guimar\u00e3es Rosa. Essa foi uma hist\u00f3ria muito marcante para mim. Fiz evidentemente \u201cIrm\u00e3os Coragem\u201d (1970, Jo\u00e3o Coragem). Outro personagem muito importante foi Don Jeronimo Taveira (A Muralha, 2000).<\/p>\n<p><strong>O senhor comentou sobre todos esses personagens, mas diria que \u201cIrm\u00e3os Coragem\u201d, por ter um impacto maior na m\u00eddia, foi o melhor?<\/strong><\/p>\n<p>Esse foi um momento muito marcante, porque foi a primeira novela que n\u00e3o era s\u00f3 rom\u00e2ntica, mas de aventura tamb\u00e9m. Da\u00ed em diante, come\u00e7ou a atrair os homens que passaram a assistir \u00e0s novelas. \u201cIrm\u00e3os Coragem\u201d deu um ponto a mais de ibope do que o jogo de decis\u00e3o entre Brasil e It\u00e1lia numa Copa do Mundo. Incr\u00edvel! 93% do ibope. Hoje em dia, quando assistimos a uma novela, e alcan\u00e7amos 39 pontos, batemos palma. Outros tempos e outros p\u00fablicos tamb\u00e9m, apesar de eu acreditar que as pessoas n\u00e3o mudam muito.<\/p>\n<p><strong>Sua \u00faltima pe\u00e7a foi em 1996 (E Continua&#8230; Tudo bem) ao lado da Gl\u00f3ria (Menezes). Porque o senhor ficou tanto tempo longe dos palcos? Hoje n\u00f3s temos muitos atores da sua gera\u00e7\u00e3o, como a Laura Cardoso de volta ao teatro. Como \u00e9 ver seus colegas de profiss\u00e3o voltarem aos palcos?<\/strong><\/p>\n<p>Eu realmente n\u00e3o sei dizer o porqu\u00ea, nem sabia que tinha ficado tanto tempo longe do teatro. Quando me falaram dos anos, tomei um susto, mas n\u00e3o foi por nada n\u00e3o. Talvez eu n\u00e3o tenha lido um texto que me interessasse mais, ou um grupo que me encantasse. A Gl\u00f3ria fez muito mais teatro do que eu. Eu me dediquei mais ao cinema e \u00e0 televis\u00e3o, al\u00e9m de muitos seriados tamb\u00e9m. Voc\u00ea comentou sobre a Gl\u00f3ria. Ela est\u00e1 com 80 anos tamb\u00e9m, est\u00e1 um pouquinho na minha frente. N\u00f3s dois estamos em S\u00e3o Paulo, fazendo teatro ao mesmo tempo, com pe\u00e7as diferentes. \u00c9 algo muito raro e curioso. N\u00e3o me lembro de ter acontecido com nenhum outro casal de atores. Mas voltando \u00e0 sua pergunta: j\u00e1 n\u00e3o sou mais crian\u00e7a. Vou completar 80 anos de idade, interpretando Rei Lear de Shakespeare. Fazer 80 \u00e9 uma carga muito pesada. \u00c9 uma dificuldade muito grande, ter que lidar com um personagem como este. O Sir, como \u00e9 chamado por todos, n\u00e3o tem 80 anos, talvez 60 ou 70, ele n\u00e3o era jovem, mas estou enganando um pouco. Com um pouco de dificuldade, mas com o maior prazer e alegria em faz\u00ea-lo. \u00c9 muito dif\u00edcil, porque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o encontro crucial de um ator, com um personagem, mas de um ator com um personagem que \u00e9 ator, e que faz um personagem. S\u00e3o momentos diferentes. \u00c9 um ator \u00e0 beira do colapso. Uma figura humana que passa por uma crise de sa\u00fade, de exaust\u00e3o, um trabalho muito dif\u00edcil e desafiador. Tive o atrevimento de aceitar o convite porque foi feito pelo Ulisses (Cruz, diretor) a quem eu conhe\u00e7o e respeito muito. \u00c9 um espet\u00e1culo muito bom e s\u00e9rio que vai agradar \u00e0s pessoas que o assistirem. O que mais me atraiu neste personagem foi sua riqueza, sua humanidade. Os atores est\u00e3o sempre \u00e0 procura da verdade, mas se ele n\u00e3o encontra, vai em busca. A nossa profiss\u00e3o \u00e9 um pouco da constante. Esse personagem me fascinou e me conquistou, valeu muito a pena conhec\u00ea-lo.<\/p>\n<p><strong>O senhor comentou que quer continuar atuando, mas diria que a volta da sua gera\u00e7\u00e3o ao teatro \u00e9 por falta de espa\u00e7o na televis\u00e3o? Como lida com essas quest\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o acredito que tenha alguma rela\u00e7\u00e3o, porque a Laura \u00e9 uma atriz de teatro. Ela sempre fez muito bem. N\u00f3s estamos sempre \u00e0 procura de bons trabalhos e bons personagens. Os que surgem s\u00e3o muito bons. Na verdade, s\u00e3o todos pap\u00e9is especiais. Normalmente os personagens exigem muito dos atores, inclusive os que eu fiz, exigiram muito de mim. Construo e simplesmente tenho que ler e acreditar, caso contr\u00e1rio n\u00e3o dar\u00e1 certo. Preciso saber como ele chegar\u00e1 ao p\u00fablico. \u00c9 um pouco cansativo. Exige muito de mim e dos demais colegas tamb\u00e9m, especialmente do Kiko (Mascarenhas) que faz um protagonista absoluto. Ele est\u00e1 em cena o tempo todo. \u00c9 um camareiro com v\u00e1rios atores e atrizes. O nosso espet\u00e1culo tem a magia de mostrar a coxia do teatro. \u00c9 uma febre de desafios de novas ideias acontecendo nesta pe\u00e7a, nesta montagem.<\/p>\n<p><strong>Neste per\u00edodo que o senhor ficou longe, dedicando-se apenas \u00e0 televis\u00e3o, do que mais sentiu saudades dos palcos? Consegue mensurar esses sentimentos? Ali\u00e1s, o que o senhor tira de todos esses anos?<\/strong><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tiro nada de tudo isso. Deixo tudo l\u00e1 (risos). Passaram-se muitos anos e muitas hist\u00f3rias foram escritas. Acredito que tudo tenha valido a pena e valer\u00e1 o que vier. \u201cVoc\u00ea foi feliz? Valeu a pena?\u201d. Essa \u00e9 uma fala da pe\u00e7a (risos). Eu sempre senti muitas saudades e gosto muito do teatro! N\u00f3s somos egressos do teatro. Fazemos televis\u00e3o, mas n\u00f3s somos emprestados. Eu comecei a minha carreira no teatro. Houve uma \u00e9poca, evidentemente que era muito mais dif\u00edcil, n\u00f3s t\u00ednhamos que lutar para conseguir um dinheirinho. Lut\u00e1vamos com muita dificuldade para conseguirmos seguir em frente. Hoje tudo anda mais facilmente, mas para voltar ao teatro, me faltava uma jun\u00e7\u00e3o de coisas boas. Uma boa pe\u00e7a, um bom diretor, um bom produtor, bons colegas. Quando isso aconteceu, n\u00e3o tinha como n\u00e3o fazer.<\/p>\n<p><strong>Foram muitos os personagens que fizeram sucesso, n\u00e3o s\u00f3 por sua bel\u00edssima atua\u00e7\u00e3o, mas por deixar as mulheres suspirarem pelo senhor. Como \u00e9 ser considerado um gal\u00e3, mesmo aos 80 anos de idade?<\/strong><\/p>\n<p>Ao longo da minha vida inteira, colecionei muitos amigos e amigas. Fiz personagens que foram importantes para as pessoas. Personagens dos quais elas sentem saudades. Tanto os homens quanto as mulheres. Fiz muitos amigos. As pessoas veem em mim um amigo. Sinto-me feliz e muito agradecido pela aten\u00e7\u00e3o delas. Procuro atend\u00ea-las da melhor maneira poss\u00edvel. Eles s\u00e3o muito carinhosos, o que \u00e9 normal, porque me conhecem desde que nasceram. \u00c9 normal que me vejam com certa intimidade, mas nem sempre rom\u00e2nticas, eu diria&#8230;<\/p>\n<p><strong>O senhor e a Gl\u00f3ria j\u00e1 est\u00e3o casados h\u00e1 52 anos e as pessoas gostam de falar do amor de voc\u00eas dois. Qual seria o segredo para manter um casamento t\u00e3o duradouro como o de voc\u00eas?<\/strong><\/p>\n<p>A Gl\u00f3ria costuma dizer que n\u00e3o existe segredo, porque se houvesse ela ganharia muito dinheiro. \u00c9 verdade! Essa hist\u00f3ria aconteceu de uma maneira impensada, indesejada. Quer dizer, voc\u00ea n\u00e3o deseja ter um casamento duradouro, mas ter um bom casamento. Se ele durar, \u00e9 um passo circunstancial, mas n\u00e3o tem nada a ver com nada. Ningu\u00e9m faz for\u00e7a para durar um casamento. Ele dura porque as pessoas casadas se amam, se gostam de verdade e n\u00e3o sabem viver de outra maneira sen\u00e3o com. Eu n\u00e3o sei viver de outra maneira, sen\u00e3o com a minha mulher. Nem consigo imaginar a hip\u00f3tese. Mas eu j\u00e1 sei que vou morrer antes da Gl\u00f3ria, porque n\u00e3o tenho a mesma sa\u00fade que ela tem. N\u00e3o vou sofrer a aus\u00eancia dela. Vou sofrer a minha aus\u00eancia desde agora, desde hoje. Quando voc\u00ea chega numa certa idade, voc\u00ea pensa: Tantos amigos foram embora, eu tenho que ir tamb\u00e9m. Est\u00e1 chegando a minha hora. Eu tenho certeza que vou antes da minha mulher, porque uma vez, n\u00f3s fizemos um exame e perguntei para o m\u00e9dico como a Gl\u00f3ria estava. Ele disse que ela est\u00e1 \u00f3tima, com uma sa\u00fade de ferro! Eu nunca a vi gripada! Ela vai longe! N\u00e3o acho que eu esteja t\u00e3o bem assim, gostaria de estar melhor, mas como diz o meu personagem, tenho que ir em frente, em frente, em frente, e n\u00e3o posso parar em nenhum desv\u00e3o. Por outro lado, fumei e tenho heran\u00e7a do cigarro, o que foi p\u00e9ssimo. O pior exemplo que eu dei na minha vida. Fumei muito! At\u00e9 que algu\u00e9m me ajudou e me mandou uma carta, dizendo que eu estava dando mau exemplo. Mas fumei muito e muitas pessoas passaram a fumar por causa do personagem.<\/p>\n<p><strong>A hist\u00f3ria de amor entre o senhor e a Gl\u00f3ria \u00e9 muito bonita. Se ela tivesse que ser retratada por algum escritor, quem o senhor gostaria que falasse sobre a vida de voc\u00eas dois?<\/strong><\/p>\n<p>Nossa hist\u00f3ria \u00e9 muito comum. Acredito que ningu\u00e9m gostaria de escrev\u00ea-la. Somos pessoas comuns e muito simples. N\u00e3o acredito que seja uma hist\u00f3ria interessante, \u00e9 banal. Talvez fosse interessante, do ponto de vida, dos momentos marcantes da nossa carreira, independente de n\u00f3s dois. N\u00f3s temos alguns fatos ocorridos, como, por exemplo, a primeira novela di\u00e1ria (\u201c2-5499 Ocupado, 1963) de Dulce Santucci, que foi important\u00edssima. Ou novelas que vieram a seguir, e que realmente transformaram a cabe\u00e7a das pessoas deste pa\u00eds. De repente, existiram novelas que foram para outros lugares distantes, que o Brasil inteiro acompanhava aquela hist\u00f3ria ao mesmo tempo. Atrevo-me a dizer que foi um elemento agregador na quest\u00e3o do nosso pa\u00eds. Todos ao mesmo tempo, torcendo pelo mesmo personagem. Isso ajudou a criar uma identidade nacional. As novelas foram muito importantes, porque elas trouxeram o Jornal Nacional, justamente para quem n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de ler um jornal.<\/p>\n<p><strong>Assim como o senhor est\u00e1 com trabalho no teatro, pensa em voltar para a televis\u00e3o em breve? O que os f\u00e3s podem esperar?<\/strong><\/p>\n<p>Estou contratado da emissora h\u00e1 quase 50 anos, e parece que eles t\u00eam um projeto para mim, que come\u00e7a ainda este ano, mas n\u00e3o tenho muitos os detalhes.<\/p>\n<p><em>\u00a0texto: Ester Jacopetti<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0fotos: Gal Oppido e TV Globo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em uma longa conversa, Tarc\u00edsio Meira faz uma reflex\u00e3o sobre os 60 anos de carreira, sendo 20 longe dos palcos, e 80 de uma vida com muitas experi\u00eancias e hist\u00f3rias que renderiam um bom livro. 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