{"id":3635,"date":"2012-10-15T14:48:39","date_gmt":"2012-10-15T17:48:39","guid":{"rendered":"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/?p=3635"},"modified":"2024-01-26T09:46:46","modified_gmt":"2024-01-26T12:46:46","slug":"vida-de-palhaco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/2012\/10\/15\/vida-de-palhaco\/","title":{"rendered":"Vida de palha\u00e7o"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_3636\" aria-describedby=\"caption-attachment-3636\" style=\"width: 380px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/palha\u00e7o-Picol\u00e9-C.jpg\" rel=\"attachment wp-att-3636\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-3636 \" src=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/palha\u00e7o-Picol\u00e9-C.jpg\" alt=\"\" width=\"380\" height=\"288\" srcset=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/palha\u00e7o-Picol\u00e9-C.jpg 634w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/palha\u00e7o-Picol\u00e9-C-300x227.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 380px) 100vw, 380px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3636\" class=\"wp-caption-text\">Anderson Espindola, o palha\u00e7o Picol\u00e9, em foto de Vanessa Marchini<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>No m\u00eas das crian\u00e7as, reportagem especial mostra a rotina de palha\u00e7os da nossa regi\u00e3o. Seja no picadeiro, em uma festa ou at\u00e9 mesmo no hospital, eles continuam encantando multid\u00f5es<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Assim como seres encantados, personagens folcl\u00f3ricos, super-her\u00f3is e vil\u00f5es, eles marcaram a inf\u00e2ncia de muita gente. Seja no picadeiro, em uma festa ou at\u00e9 mesmo no hospital, os palha\u00e7os t\u00eam a nobre miss\u00e3o de levar alegria por onde passam. Por outro lado, o fasc\u00ednio por essa figura desajeitada e de alma pura n\u00e3o fica restrito \u00e0queles que assistem a uma apresenta\u00e7\u00e3o, e contagia tamb\u00e9m os seus int\u00e9rpretes. Isto porque, mais do que a maquiagem, roupas coloridas e o inconfund\u00edvel nariz vermelho, \u00e9 preciso uma boa dose de sensibilidade para encantar multid\u00f5es.<\/p>\n<p>Frequentemente, o primeiro contato com este universo acontece por acaso. \u201cN\u00e3o tive vontade: eu me descobri palha\u00e7o; ele est\u00e1 dentro de cada um. Talvez possa at\u00e9 ser poss\u00edvel aflorar este personagem por meio de t\u00e9cnicas, mas a verdade \u00e9 que a pessoa j\u00e1 nasce com este dom\u201d, opina o analista de sistemas F\u00e1bio Vit\u00f3ria Cantero, que h\u00e1 mais de 15 anos foi convidado \u201cpara quebrar um galho\u201d em um evento num posto de gasolina. Mesmo com dificuldades para se maquiar, ele subiu nos \u00f4nibus e conversou com todos como se fossem velhos amigos. Nascia, naquele dia, o palha\u00e7o Bot\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3638\" aria-describedby=\"caption-attachment-3638\" style=\"width: 284px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/palha\u00e7o-Bang-A.jpg\" rel=\"attachment wp-att-3638\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-3638 \" src=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/palha\u00e7o-Bang-A.jpg\" alt=\"\" width=\"284\" height=\"372\" srcset=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/palha\u00e7o-Bang-A.jpg 473w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/palha\u00e7o-Bang-A-228x300.jpg 228w\" sizes=\"(max-width: 284px) 100vw, 284px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3638\" class=\"wp-caption-text\">Irineu Guerreiro Jr., o palha\u00e7o Bang<\/figcaption><\/figure>\n<p>No in\u00edcio, houve certa estranheza \u2013 Bot\u00e3o admite ter ouvido trocadilhos como, por exemplo, \u201cestudou tanto para virar palha\u00e7o\u201d \u2013 mas, em pouco tempo, a iniciativa come\u00e7ou a render frutos e ele ganhou a companhia do irm\u00e3o. \u201cPor algum tempo, Daniel foi meu ajudante, mas houve um dia em que uma cliente precisava \u2018desesperadamente\u2019 de um palha\u00e7o, mas eu j\u00e1 tinha compromisso. Ela, ent\u00e3o, insistiu para que eu o mandasse. Tentei faz\u00ea-la desistir da ideia, mas n\u00e3o houve jeito: deixei-o na festa com o cora\u00e7\u00e3o na m\u00e3o. Quando voltei para busc\u00e1-lo, as pessoas tinham adorado. Era o in\u00edcio da dupla Bot\u00e3o e Colchete\u201d, recorda.<\/p>\n<p>Com a agenda lotada, os irm\u00e3os fundaram o projeto \u201cA Casa dos Palha\u00e7os\u201d (<a href=\"http:\/\/www.casadospalhacos.com.br\/\">www.casadospalhacos.com.br<\/a>) para recrutar e treinar outros profissionais. Embora cada palha\u00e7o tenha a sua pr\u00f3pria personalidade, a ideia \u00e9 adotar um comportamento padr\u00e3o quanto ao respeito \u00e0s crian\u00e7as, vocabul\u00e1rio, figurino, maquiagem e t\u00e9cnica. Nesse intervalo de tempo, foram v\u00e1rias apresenta\u00e7\u00f5es inesquec\u00edveis: a mais marcante delas, segundo Bot\u00e3o, aconteceu numa casa de repouso.<\/p>\n<p>\u201cMontamos um show onde eu n\u00e3o falava, pois estava sem voz. Vendo todos os idosos sem nenhuma express\u00e3o no rosto, o Colchete \u2018gelou\u2019. Ent\u00e3o, come\u00e7amos a imaginar que a plateia era formada por crian\u00e7as. Foi dif\u00edcil: n\u00e3o houve gargalhadas,\u00a0 nem gritos hist\u00e9ricos. As palmas foram t\u00edmidas, mas da\u00ed come\u00e7aram v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es de carinho: ganhamos uma cantata, onde pela primeira vez ouvi por completo a m\u00fasica \u2018E o palha\u00e7o o que \u00e9?\u2019. A can\u00e7\u00e3o foi entoada por um idoso que n\u00e3o enxergava, mas tinha uma voz rouca e profunda. No refr\u00e3o, as senhoras respondiam: \u2018\u00e9 ladr\u00e3o de mulher\u2019\u201d, conta o palha\u00e7o, que ficou arrepiado ao lembrar deste momento.<\/p>\n<p>Bem-humorado, F\u00e1bio assume que n\u00e3o tem nada em comum com o personagem, pois se considera \u201cuma pessoa bastante chata, detalhista e s\u00e9ria demais. Bot\u00e3o sou eu ao contr\u00e1rio\u201d, diverte-se. O analista revela que o palha\u00e7o o protege e \u00e9 maior do que ele. Nos momentos mais dif\u00edceis \u2013 como, por exemplo, o dia em que o av\u00f4 faleceu \u2013 nosso entrevistado acredita ter feito seus melhores shows. Bot\u00e3o tamb\u00e9m diz sentir uma energia diferente quando se apresenta para crian\u00e7as carentes. \u201cDa\u00ed tenho a plena convic\u00e7\u00e3o do por que sou palha\u00e7o: levar felicidade onde ela for desejada\u201d.<\/p>\n<p>Ele acredita que o artista deve procurar se reinventar. \u201cPalha\u00e7ada \u00e9 coisa s\u00e9ria. O formato e a linguagem mudaram e provavelmente algu\u00e9m que tentar subestimar a intelig\u00eancia de uma crian\u00e7a n\u00e3o vai ter sucesso. O segredo para encantar a plateia? Sei l\u00e1. Deve ser t\u00e3o bem guardado que eu ainda n\u00e3o vi a cara dele, mas eu s\u00f3 sei que olho no rosto de todo mundo e por algum motivo sou ouvido. Creio que n\u00e3o \u00e9 segredo, mas sim um dom e neste caso n\u00e3o deve ser desvendado, mas sim aproveitado e compartilhado, pois vem de Deus\u201d, finaliza.<\/p>\n<p><strong>Magia e coragem<\/strong><\/p>\n<p>\u201cSer palha\u00e7o \u00e9 algo m\u00e1gico: uma parte de voc\u00ea que n\u00e3o sabe dos seus problemas e nem o que \u00e9 tristeza. Mas tamb\u00e9m requer coragem para enfrentar seus medos, se expor e experimentar uma realidade totalmente diferente da de qualquer pessoa normal\u201d, conclui Anderson Espindola, o palha\u00e7o Picol\u00e9, um dos criadores da Oficina do Riso (<a href=\"http:\/\/www.oficinadoriso.com.br\/\">www.oficinadoriso.com.br<\/a>), cuja equipe faz shows e outras atividades recreativas em Itu e regi\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3640\" aria-describedby=\"caption-attachment-3640\" style=\"width: 288px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/palha\u00e7o-Bot\u00e3o-B.jpg\" rel=\"attachment wp-att-3640\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-3640 \" src=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/palha\u00e7o-Bot\u00e3o-B.jpg\" alt=\"\" width=\"288\" height=\"384\" srcset=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/palha\u00e7o-Bot\u00e3o-B.jpg 480w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/palha\u00e7o-Bot\u00e3o-B-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 288px) 100vw, 288px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3640\" class=\"wp-caption-text\">F\u00e1bio Vit\u00f3ria Cantero, o Bot\u00e3o; na foto, ao lado do irm\u00e3o \u201cColchete\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<p>Anderson conta que se sente feliz em por levar alegria para muitas pessoas, incluindo-se a\u00ed a sua fam\u00edlia. O filho adora, a ex-mulher trabalhou com ele por algum tempo e os pais se orgulham. Durante algumas \u201ccrises existenciais\u201d, o apoio daqueles que o cercam foi decisivo para que nosso entrevistado n\u00e3o desistisse. \u201cEm uma festa onde minha m\u00e3e estava presente, vi seus olhos brilharem: o carinho e admira\u00e7\u00e3o de seus coment\u00e1rios me emocionaram. Ent\u00e3o percebi que tenho uma gratid\u00e3o enorme por essa arte e sempre recebi mais dela do que dei\u201d, constata.<\/p>\n<p>Picol\u00e9 se lembra com carinho de uma apresenta\u00e7\u00e3o feita na Apae de Itu. \u201cTive o prazer de fazer um show de palha\u00e7o com fantoche: a simplicidade e o amor daquela turma s\u00e3o especiais. Sai com o cora\u00e7\u00e3o pleno e uma certeza: de ter recebido deles muito mais do que eu havia levado. Foi um momento aben\u00e7oado\u201d, recorda o palha\u00e7o, que tamb\u00e9m confessa ter chorado quando, depois de uma sintonia e envolvimento muito grandes, foi aplaudido de p\u00e9 pelos convidados de outra festa.<\/p>\n<p>O maior aprendizado foi sobre a expans\u00e3o dos pr\u00f3prios limites: quando coloca o nariz vermelho, Anderson diz aumentar essas fronteiras, que, segundo ele, s\u00e3o criadas pela sociedade, ao mesmo tempo em que desfaz \u201cla\u00e7os imagin\u00e1rios\u201d ao recorrer \u00e0 simplicidade e comicidade do rid\u00edculo. Dessa forma, atos simples \u2013 que fazem bem tanto para quem recebe quanto para os que o praticam \u2013 podem tornar a vida mais alegre, pois as pessoas est\u00e3o carentes e precisam sorrir.<\/p>\n<p>Mesmo com o avan\u00e7o da tecnologia e a consequente amplia\u00e7\u00e3o das op\u00e7\u00f5es de lazer, Picol\u00e9 acredita que a magia do contato direto com o p\u00fablico ainda existe: a possibilidade de poder se tocar, interagir, trocar experi\u00eancias e vivenciar a realidade \u00e9 algo imbat\u00edvel. \u201cO grande palha\u00e7o faz de um grande palco uma grande armadilha para conquistar sorrisos e gargalhadas. Ele tem tent\u00e1culos e faz de um simples gesto algo hil\u00e1rio. A\u00ed esta o segredo para se encantar sempre\u201d, sentencia.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, Anderson \u2013 que assim como Picol\u00e9 \u00e9 alegre e carinhoso, embora se considere mais t\u00edmido e cauteloso \u2013 tamb\u00e9m faz quest\u00e3o de deixar uma mensagem aos leitores de Regional. \u201cAconselho a todos que tem este sonho a vivenci\u00e1-lo, pois uma nova janela ser\u00e1 aberta, com outra perspectiva de ser e de ver a vida. A simplicidade, a pureza e a inoc\u00eancia est\u00e3o em nossos cora\u00e7\u00f5es: observe o exemplo das crian\u00e7as, o modo como elas se relacionam. Vamos fazer deste mundo uma grande festa. Seja feliz sempre\u201d.<\/p>\n<p><strong>Inspira\u00e7\u00e3o na telona<\/strong><\/p>\n<p>Em alguns casos, a inspira\u00e7\u00e3o pode vir do cinema. Foi o que aconteceu com Elisangela Budart Teochi, a palha\u00e7a Tutty. Depois de assistir ao filme \u201cPatch Adams: O Amor \u00e9 Contagioso\u201d \u2013 protagonizado por Robin Willians \u2013 ela e a palha\u00e7a Frutty (interpretada por Helena Nunes), come\u00e7aram a se apresentar em hospitais, para ajudar na recupera\u00e7\u00e3o de pacientes. Al\u00e9m dos shows semanais no Hospital S\u00e3o Camilo, a dupla tamb\u00e9m anima asilos, creches, escolas e ONGs.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3642\" aria-describedby=\"caption-attachment-3642\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/palha\u00e7o-Tutty-e-Frutty-A.jpg\" rel=\"attachment wp-att-3642\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-3642 \" src=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/palha\u00e7o-Tutty-e-Frutty-A.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"288\" srcset=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/palha\u00e7o-Tutty-e-Frutty-A.jpg 584w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/palha\u00e7o-Tutty-e-Frutty-A-300x246.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3642\" class=\"wp-caption-text\">Elisangela Budart Teochi, a Tutty, e Helena Nunes, a palha\u00e7a Frutty, se apresentam em hospitais, para ajudar na recupera\u00e7\u00e3o de pacientes<\/figcaption><\/figure>\n<p>Nossa entrevistada conta que frequentou cursos de teatro para superar a timidez e, quando est\u00e1 se apresentando, procura esquecer-se de todos os seus problemas para atingir seu objetivo: proporcionar momentos de alegria \u00e0 plateia, afinal de contas, um palha\u00e7o nunca se entristece. Elisangela agradece a Deus por ter lhe dado a personagem de presente. \u201cEu e a palha\u00e7a somos uma s\u00f3: diferentes e iguais ao mesmo tempo. A Tutty \u00e9 minha alma g\u00eamea\u201d, conclui.<\/p>\n<p>Quem tamb\u00e9m nutre um carinho muito grande por essa arte \u00e9 Irineu Guerreiro Jr., que h\u00e1 cerca de oito anos d\u00e1 vida ao palha\u00e7o Bang (<a href=\"http:\/\/www.palhacobang.com.br\/\">www.palhacobang.com.br<\/a>). A exemplo do que aconteceu com alguns de nossos outros entrevistados, o come\u00e7o foi meio sem querer. \u201cEstava desempregado e conversei com um primo, que j\u00e1 trabalhava na \u00e1rea. Numa manh\u00e3 de domingo, resolvi pintar a cara e sa\u00edem p\u00fablico. Foi uma experi\u00eancia m\u00e1gica, pois, naquele momento, senti algo diferente dentro de mim. Descobri que tinha um dom: sem nenhuma experi\u00eancia e apostando somente no improviso, eu levei v\u00e1rias pessoas ao riso\u201d.<\/p>\n<p>Aquilo que no in\u00edcio era somente uma distra\u00e7\u00e3o acabou ganhando contornos duradouros. Se antes ele tinha que trabalhar de segunda a segunda, com um jeans cortado, uma camiseta emprestada e o nariz, com o passar dos anos Irineu abriu uma empresa na \u00e1rea de eventos. Mas, at\u00e9 chegar aqui, ele enfrentou algumas dificuldades. \u201cAcredito que tudo tem a hora exata. Em maio de 2010, em um acidente caseiro perdi a vis\u00e3o esquerda, e junto o entusiasmo e a motiva\u00e7\u00e3o de continuar. Parei por um ano para tratamento: pensei em desistir, mas tive muito apoio. E n\u00e3o deixei de acreditar no meu sonho\u201d, ressalta.<\/p>\n<p>Irineu se mostra muito grato \u00e0 fam\u00edlia e reconhece que \u201csem eles, o Bang n\u00e3o existiria\u201d. Sua filha o acompanha nas apresenta\u00e7\u00f5es e \u00e9 respons\u00e1vel pela parte t\u00e9cnica \u2013 sonoriza\u00e7\u00e3o, ilumina\u00e7\u00e3o e efeitos \u2013 desde quando tinha nove anos. Embora o uso de t\u00e9cnicas teatrais ajude a melhorar a performance, ajudando, por exemplo, a se posicionar no palco e controlar a respira\u00e7\u00e3o, Bang acredita que tirar o sorriso de uma crian\u00e7a \u00e9 uma coisa divina.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o deixar que o fasc\u00ednio sobre a figura do palha\u00e7o se acabe, nosso entrevistado procura explorar um diferencial em seus shows: al\u00e9m de entreter, procura educar, tamb\u00e9m de maneira l\u00fadica. Ele se lembra com carinho de uma apresenta\u00e7\u00e3o realizada em um s\u00edtio de menores carentes, onde uma das crian\u00e7as ficou grudada nele o tempo inteiro e, ao final, perguntou se o palha\u00e7o iria realmente embora. A menina, ent\u00e3o, convidou-lhe para dormir na sua casa. Naquele simples gesto, Bang diz ter descoberto o significado do amor verdadeiro.<\/p>\n<p>Assim como F\u00e1bio e Bot\u00e3o, Irineu e Bang tamb\u00e9m s\u00e3o diferentes. O int\u00e9rprete faz quest\u00e3o de frisar que gostaria de ter a paci\u00eancia, alegria e disposi\u00e7\u00e3o do palha\u00e7o, que mora num lugar onde os problemas do cotidiano n\u00e3o existem. \u201cAo pintar o rosto e colocar o meu nariz vermelho, entro realmente no personagem e me esque\u00e7o de tudo. Tenho um amigo que me fala que quando estou caracterizado, parece que recebo uma entidade\u201d, confessa, bem-humorado. Mas ele se despede falando s\u00e9rio: n\u00e3o desistam dos seus sonhos. Neste m\u00eas especial, que cada adulto redescubra a crian\u00e7a que tem dentro de si.<\/p>\n<p>Depois de ouvir esses depoimentos, este rep\u00f3rter chega \u00e0 conclus\u00e3o de que os palha\u00e7os dificilmente perder\u00e3o o seu encanto: eles nos transportam de volta a um mundo do faz-de-conta, onde tudo \u00e9 alegre e colorido, que todos n\u00f3s fatalmente abandonamos quando as responsabilidades da vida adulta come\u00e7am a aparecer. Mas \u00e9 poss\u00edvel voltar para este lugar, a qualquer momento. Basta que algu\u00e9m nos lembre que ele sempre existir\u00e1, dentro dos nossos cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E viva a alegria, viva a palha\u00e7ada, viva o bom-humor, viva a gargalhada&#8230;<\/p>\n<p><em>reportagem de Piero Verg\u00edlio<\/em><\/p>\n<p><em>fotos: Arquivos pessoais e Vanessa Marchini (fotos do palha\u00e7o Picol\u00e9)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No m\u00eas das crian\u00e7as, reportagem especial mostra a rotina de palha\u00e7os da nossa regi\u00e3o. Seja no picadeiro, em uma festa ou at\u00e9 mesmo no hospital, eles continuam encantando multid\u00f5es\u00a0 Assim como seres encantados, personagens folcl\u00f3ricos, super-her\u00f3is e vil\u00f5es, eles marcaram a inf\u00e2ncia de muita gente. 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