{"id":3313,"date":"2012-08-27T14:52:23","date_gmt":"2012-08-27T17:52:23","guid":{"rendered":"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/?p=3313"},"modified":"2024-01-26T10:21:00","modified_gmt":"2024-01-26T13:21:00","slug":"o-anjo-de-varsovia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/2012\/08\/27\/o-anjo-de-varsovia\/","title":{"rendered":"O Anjo de Vars\u00f3via"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_3318\" aria-describedby=\"caption-attachment-3318\" style=\"width: 256px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/especial-IRENA-M\u00c3E-DO-GUETO-DE-VARS\u00d3VIA-11.jpg\" rel=\"attachment wp-att-3318\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-3318 \" src=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/especial-IRENA-M\u00c3E-DO-GUETO-DE-VARS\u00d3VIA-11.jpg\" alt=\"\" width=\"256\" height=\"384\" srcset=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/especial-IRENA-M\u00c3E-DO-GUETO-DE-VARS\u00d3VIA-11.jpg 426w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/especial-IRENA-M\u00c3E-DO-GUETO-DE-VARS\u00d3VIA-11-199x300.jpg 199w\" sizes=\"(max-width: 256px) 100vw, 256px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3318\" class=\"wp-caption-text\">\u201cComo &#8211; em um mundo que corre atr\u00e1s de celebridades, que sabe o n\u00famero do sapato desta ou daquela atriz, que esmi\u00fa\u00e7a a intimidade de futebolistas, pol\u00edticos, empres\u00e1rios, que sabe onde e com quem janta uma top model \u2013 pode ter passado despercebida a trajet\u00f3ria de uma mulher que, nas palavras do rabino Michael Schudrich, \u2018n\u00e3o somente salvou as crian\u00e7as judias, mas tamb\u00e9m salvou a alma da Europa\u2019?\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em julho de 1942, h\u00e1 70 anos, tinha in\u00edcio a desocupa\u00e7\u00e3o dos Guetos de Vars\u00f3via, num dos epis\u00f3dios mais marcantes da Segunda Guerra Mundial. Exatamente nesse local figurou um dos monumentos de humanidade e destemor que o mundo j\u00e1 conheceu, a doce Irena Sendler, falecida em 12 de maio de 2009. Em plena juventude, nos anos 40, ela enfrentou a crueldade hedionda das tropas nazistas que haviam invadido sua terra natal, a Pol\u00f4nia. Assistente social na \u00e9poca, Irena resgatou do exterm\u00ednio seguramente 2.500 crian\u00e7as do Gueto de Vars\u00f3via. Em tempos como estes, quando os fantasmas das ideias totalit\u00e1rias parecem ressurgir, e se questiona a inquestion\u00e1vel ignom\u00ednia, a vergonha do holocausto, \u00e9 necess\u00e1rio lembrar para n\u00e3o repetir.<\/p>\n<p>O artigo abaixo, de Lia Diskin, foi publicado originalmente na Revista 18, do Centro da Cultura Judaica de S\u00e3o Paulo, edi\u00e7\u00e3o set\/out\/nov. de 2008, e aqui reproduzido em homenagem \u00e0 singularidade inspiradora de uma assistente social que fez de sua profiss\u00e3o um ato de f\u00e9.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A M\u00e3e do Gueto de Vars\u00f3via \u2013 Irena Sendler<\/strong><\/p>\n<p><em>(texto de Lia Diskin)<\/em><\/p>\n<p>O que leva uma pessoa a p\u00f4r em risco sua pr\u00f3pria vida para salvar outras? Mesmo quando n\u00e3o tem com elas v\u00ednculos nem partilha de sua identidade, ideologia ou religi\u00e3o? Estas s\u00e3o as perguntas que teimam na minha mente ap\u00f3s saber dos feitos de Irena Sendler. Eu a conheci quando j\u00e1 n\u00e3o era poss\u00edvel conhec\u00ea-la. Em 13 de maio de 2008 foi publicada uma breve nota de 11 linhasem O Estadode S\u00e3o Paulo: \u201cMorreu ontem em Vars\u00f3via, aos 98 anos, Irena Sendler, que salvou milhares de crian\u00e7as judias durante a ocupa\u00e7\u00e3o nazista da Pol\u00f4nia. Entre 1940 e 1943 Irena, que era assistente social, tirou 2.500 crian\u00e7as do Gueto de Vars\u00f3via. Ela chegou a ser presa e torturada pela Gestapo em 1943, mas nunca revelou os nomes das crian\u00e7as que salvou\u201d.<\/p>\n<p>No mesmo dia iniciei uma busca desesperada na internet, com o sentimento de haver perdido algo de muito precioso e singular. Perguntei a meus colegas e alunos se sabiam dela, se tinham livros ou documentos, relatos de testemunhas, cr\u00f4nicas de jornal. Ningu\u00e9m lera, ningu\u00e9m ouvira a seu respeito. Mas como &#8211; em um mundo que corre atr\u00e1s de celebridades, que sabe o n\u00famero do sapato desta ou daquela atriz, que esmi\u00fa\u00e7a a intimidade de futebolistas, pol\u00edticos, empres\u00e1rios, que sabe onde e com quem janta uma top model \u2013 pode ter passado despercebida a trajet\u00f3ria de uma mulher que, nas palavras do rabino Michael Schudrich, \u201cn\u00e3o somente salvou as crian\u00e7as\u00a0judias, mas tamb\u00e9m salvou a alma da Europa\u201d?<\/p>\n<p>Em 1965 Irena Sendler foi agraciada com a medalha \u201cJustos entre as Na\u00e7\u00f5es do Mundo\u201d, outorgada pelo Instituto Yod Vashem a n\u00e3o judeus que salvaram e protegeram judeus durante as atrocidades nazistas da II Guerra Mundial. Essa honraria ela n\u00e3o pode receber porque os l\u00edderes comunistas que governavam a Pol\u00f4nia de ent\u00e3o proibiram sua sa\u00edda do pa\u00eds. Rec\u00e9m em 1983, quando reiterada a distin\u00e7\u00e3o pela Suprema Corte de Israel, \u00e9 que foi ao encontro das homenagens oferecidas em Jerusal\u00e9m na Autarquia Nacional para Recorda\u00e7\u00e3o dos M\u00e1rtires e Her\u00f3is do Holocausto.<\/p>\n<p>Contudo, sua vida e inusitada coragem emergiram do sil\u00eancio em setembro de 1999 pela curiosidade e criatividade de quatro jovens americanas que, instigadas pelo professor Norm Conard, come\u00e7aram a pesquisar sua hist\u00f3ria. Na regi\u00e3o rural do Kansas, na escola secund\u00e1ria protestante de Uniontown, o professor Conrad prop\u00f4s a seus alunos que para celebrar o Dia Nacional da Hist\u00f3ria criassem um projeto original, que fosse al\u00e9m das fronteiras e das personagens conhecidas, dos fatos j\u00e1 explorados. Apenas como sugest\u00e3o mostrou um recorte do jornal News and World Report, cujo t\u00edtulo era \u201cOutros Schindlers\u201d, e que mencionava Irena Sendler. Entre os alunos, quatro\u00a0estudantes prontificaram-se a realizar a pesquisa, mas nunca imaginaram que esta as levaria a encontrar a pr\u00f3pria Irena, viva, com 90 anos, morando ainda na Pol\u00f4nia. Estabeleceram contato, enviaram e receberam cartas, fotos, informa\u00e7\u00f5es, documentos. Acabaram por escrever uma pe\u00e7a de teatro intitulada \u201cA Vida num Pote de Vidro\u201d, que apresentaram na pr\u00f3pria escola em fevereiro de2000. Acomunidade toda envolveu-se no sucesso e logo chegaram convites de igrejas, sinagogas, centros culturais. A pe\u00e7a atravessou o pa\u00eds, alcan\u00e7ou o Canad\u00e1, a Europa e, finalmente,\u00a0a pr\u00f3pria Pol\u00f4nia. J\u00e1 foi encenada mais de 300 vezes e hoje est\u00e1 dispon\u00edvel em DVD.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3322\" aria-describedby=\"caption-attachment-3322\" style=\"width: 282px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/especial-IRENA-M\u00c3E-DO-GUETO-DE-VARS\u00d3VIA-2.jpg\" rel=\"attachment wp-att-3322\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-3322 \" src=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/especial-IRENA-M\u00c3E-DO-GUETO-DE-VARS\u00d3VIA-2.jpg\" alt=\"\" width=\"282\" height=\"180\" srcset=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/especial-IRENA-M\u00c3E-DO-GUETO-DE-VARS\u00d3VIA-2.jpg 470w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/especial-IRENA-M\u00c3E-DO-GUETO-DE-VARS\u00d3VIA-2-300x191.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 282px) 100vw, 282px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3322\" class=\"wp-caption-text\">\u201cIrena nos legou a mais alta realiza\u00e7\u00e3o de um ser humano: o amor incondicional\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<p>Para termos uma dimens\u00e3o do valor desse resgate, e do impacto que provocaram as experi\u00eancias vividas por Irena Sendler, basta dizer que at\u00e9 2001, quando aconteceu o primeiro encontro do Comit\u00ea Paulista para a D\u00e9cada da Cultura de Paz \u2013 parceria Unesco\/Associa\u00e7\u00e3o Palas Athena, havia apenas uma p\u00e1gina sobre ela na internet, quando hoje podemos encontrar mais de 90 mil cita\u00e7\u00f5es. Elas revelam a abnega\u00e7\u00e3o e destemor de uma jovem polonesa, crist\u00e3, que sobrepujou as amea\u00e7as ao seu instinto de sobreviv\u00eancia e nos legou a mais alta realiza\u00e7\u00e3o de um ser humano: o amor incondicional.<\/p>\n<p>Irena nasceu em 15 de fevereiro de 1910 nos sub\u00farbios de Vars\u00f3via, onde seu pai, na condi\u00e7\u00e3o de m\u00e9dico, clinicava e atendia comunidades carentes. Dele aprendeu o sentido da solidariedade e o senso de responsabilidade profissional: quando a epidemia de tifo irrompeu em 1917 ele foi o \u00fanico m\u00e9dico a permanecer na \u00e1rea infectada, o que o levou ao cont\u00e1gio e consequente morte. Na d\u00e9cada de 30, Irena ingressou na Universidade de Vars\u00f3via, formou-seem Assist\u00eancia Sociale tomou contato com sentimentos e atitudes anti-semitas por parte dos estudantes, com quem manteve franca oposi\u00e7\u00e3o. J\u00e1 diplomada, ingressou no Departamento de Bem Estar Social,\u00a0atendendo os refeit\u00f3rios populares que acolhiam \u00f3rf\u00e3os, anci\u00e3os e os pobres. Sua voca\u00e7\u00e3o ultrapassou a voca\u00e7\u00e3o de servidora p\u00fablica \u2013 providenciava roupas, medicamentos e dinheiro para os necessitados, e os distribu\u00eda entre cat\u00f3licos e judeus indistintamente.<\/p>\n<p>Em 1939 as tropas nazistas invadiram a Pol\u00f4nia e em outubro de 1940 criou-se em Vars\u00f3via o \u201cbairro judeu\u201d, onde foram confinados todos os judeus da cidade. Em pouco mais de duas semanas a popula\u00e7\u00e3o dessa \u00e1rea passou de 160 mil pessoas para 400 mil. Em 15 de novembro desse mesmo ano, o governador alem\u00e3o de Vars\u00f3via, Hans Frank, criou oficialmente o gueto, que foi logo murado tornando-se o palco de crueldades inomin\u00e1veis, sistem\u00e1ticas e consecutivas, visando um \u00fanico prop\u00f3sito: o exterm\u00ednio dos judeus. Tamb\u00e9m foi palco das a\u00e7\u00f5es her\u00f3icas de Irena, cuja indigna\u00e7\u00e3o encarnou o voto de resistir \u00e0 barb\u00e1rie sabotando uma e outra vez \u2013 2.500\u00a0vezes! \u2013 o plano da \u201csolu\u00e7\u00e3o final\u201d.<\/p>\n<p>Como assistente social dos servi\u00e7os p\u00fablicos ela tinha autoriza\u00e7\u00e3o para entrar no gueto com um passe especial, o que lhe permitia livre tr\u00e2nsito, conhecimento da situa\u00e7\u00e3o e, sobretudo, contrabandear comida, medicamentos e roupas. O racionamento de alimentos chegou a limites insuport\u00e1veis e as pessoas come\u00e7aram a morrer de fome. No arquivo elaborado pelo historiador Emmanuel Ringelblum, resgatado depois da guerra entre as ru\u00ednas do gueto, l\u00ea-se: \u201cViver sem p\u00e3o, sem nenhuma colher de comida quente durante anos atua como choque sobre a psique humana. Muitos, esgotad\u00edssimos, foram acometidos de total apatia. Permaneciam deitados at\u00e9 que perdessem a for\u00e7a de se levantar. (&#8230;) Entre esses havia fam\u00edlias inteiras com dez a 12 pessoas. Permaneciam estendidos, im\u00f3veis, os rostos p\u00e1lidos, olhares ardentes, engolindo saliva. Para eles, tudo se tornava indiferente. Queriam apenas uma coisa, sentiam apenas um desejo: o\u00a0de conseguirem um pedacinho de p\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Irena percebeu que seus esfor\u00e7os para mitigar o sofrimento s\u00f3 conseguiam prolong\u00e1-lo. Decidiu ent\u00e3o iniciar a retirada de crian\u00e7as de dentro do gueto \u2013 ao menos elas precisavam ter uma chance.<\/p>\n<p>Extra-muros trabalhava a resist\u00eancia do Zegota, uma organiza\u00e7\u00e3o clandestina, na qual assumiu a coordena\u00e7\u00e3o da Divis\u00e3o das Crian\u00e7as, cuja miss\u00e3o era, primeiramente, encontrar institui\u00e7\u00f5es de amparo, conventos e casas de fam\u00edlia dispostos a correr o risco de abrigar as crian\u00e7as que fossem resgatadas e, depois, obter documentos falsos para elas.<\/p>\n<p>Antes, por\u00e9m, era necess\u00e1rio convencer as m\u00e3es, pais ou parentes que entregassem seus filhos a uma desconhecida. Muitos perguntavam, em desespero, por que deviam confiar nela. \u201cVoc\u00eas n\u00e3o t\u00eam de confiar em mim\u201d, respondia. \u201cMas n\u00e3o h\u00e1 mais o que fazer\u201d. As informa\u00e7\u00f5es em Vars\u00f3via, fora e dentro do gueto, corriam \u00e0 solta. No segundo semestre de 1941 j\u00e1 estavam em opera\u00e7\u00e3o as deporta\u00e7\u00f5es e traslados de milhares de judeus em vag\u00f5es de gado, que levavam \u00e0s c\u00e2maras de g\u00e1s em Treblinka, aos fuzilamentos em massa, aos cemit\u00e9rios a c\u00e9u aberto repletos de\u00a0moribundos&#8230; O abomin\u00e1vel n\u00e3o deixava alternativa!<\/p>\n<p>Planejamento coordenado, m\u00e9todo e capacidade de descobrir vantagens nos recursos mais improv\u00e1veis foram as vias que Irena encontrou para a escalada de resgates usando:<\/p>\n<p>1) T\u00faneis subterr\u00e2neos que levavam para fora, onde guardas poloneses haviam sido subornados para que \u201cfechassem os olhos\u201d. Pedia-se aos pais que vestissem as crian\u00e7as com suas melhores roupas.<\/p>\n<p>2) Crian\u00e7as pequenas eram sedadas e levadas em malas, caix\u00f5es de defunto, caixotes de\u00a0ferramentas, ba\u00fas ou similares.<\/p>\n<p>3) Devido \u00e0s frequentes epidemias, e ao medo que os alem\u00e3es tinham de se aproximar dos doentes, as crian\u00e7as que conseguissem fingir uma doen\u00e7a, ou que\u00a0estivessem realmente muito doentes, podiam ser retiradas numa ambul\u00e2ncia.<\/p>\n<p>4) Os carros e ambul\u00e2ncias levaram um c\u00e3o treinado para latir quando o ve\u00edculo estivesse parado, assim o eventual choro de uma crian\u00e7a escondida n\u00e3o seria percebido pelo guarda que parasse o carro na sa\u00edda do gueto.<\/p>\n<p>Desse modo, durante um ano e meio de articula\u00e7\u00f5es clandestinas, foram salvas 2.500 vidas. Em 22 de julho de 1942, teve in\u00edcio a expuls\u00e3o em massa dos habitantes do Gueto de Vars\u00f3via para os campos de exterm\u00ednio de Treblinka. Em outubro desse ano o general da SS J\u00fcrgen Stroop informou a seu superior Friedrich Kr\u00fcger que um total de 310.332 judeus do gueto tinham sido \u201ctransferidos\u201d. Sobraram apenas 65 mil habitantes, considerados indispens\u00e1veis como escravos nas f\u00e1bricas e oficinas da Vars\u00f3via ocupada.<\/p>\n<p>Em 20 de outubro de 1943 as atividades de Irena Sendler foram descobertas pela Gestapo, que a levou \u00e0 pris\u00e3o de Pawiak, onde foi brutalmente torturada, tendo pernas e p\u00e9s quebrados a pauladas \u2013 mas ela n\u00e3o revelou nomes, nem de seus companheiros do Zegota, nem das crian\u00e7as que havia salvado. Foi sentenciada \u00e0 morte. Os membros da Zegota agiram r\u00e1pido: subornaram os respons\u00e1veis pela execu\u00e7\u00e3o e no dia seguinte o nome de Irena Sendler integrava a lista dos poloneses executados. Sob a prote\u00e7\u00e3o de um pseud\u00f4nimo, viveu escondida at\u00e9 o final da guerra \u2013 exatamente como as crian\u00e7as que havia salvo.<\/p>\n<p>Acabado o inferno, Irena desenterrou dois frascos de vidro que escondera no jardim de uma vizinha. Eles continham a lista dos verdadeiros nomes das crian\u00e7as junto aos inventados nos documentos falsos. Era seu prop\u00f3sito que um dia as crian\u00e7as pudessem retornar \u00e0s suas fam\u00edlias naturais e recuperar sua identidade judaica. Contudo, quase n\u00e3o havia sobreviventes \u2013 o her\u00f3ico levante do Gueto de Vars\u00f3via consumira seus \u00faltimos habitantes. Constitu\u00eddo ent\u00e3o o comit\u00ea de salvamento dos judeus sobreviventes, entregou os frascos de vidro a seu primeiro presidente, o dr. Adolf Berman.<\/p>\n<p>Em 1991 foi reconhecida como cidad\u00e3 honraria do Estado de Israel; em novembro de 2003 recebeu a mais alta condecora\u00e7\u00e3o polonesa: a Ordem da \u00c1guia Branca e tamb\u00e9m o Pr\u00eamio Jan Karski \u201cPela Coragem e Cora\u00e7\u00e3o\u201d. Foi indicada pelo governo da Pol\u00f4nia, em 2007, como candidata ao Pr\u00eamio Nobel da Paz; tamb\u00e9m nesse ano o Senado da Rep\u00fablica da Pol\u00f4nia, em resolu\u00e7\u00e3o especial, homenageou Irena Sendler e o Conselho de Ajuda aos Judeus. Ainda em 2007 foi condecorada com a Ordem do Sorriso \u2013 a mais importante distin\u00e7\u00e3o concedida por crian\u00e7as de\u00a0todo o mundo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3327\" aria-describedby=\"caption-attachment-3327\" style=\"width: 288px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/especial-irena-32.jpg\" rel=\"attachment wp-att-3327\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-3327 \" src=\"http:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/especial-irena-32.jpg\" alt=\"\" width=\"288\" height=\"216\" srcset=\"https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/especial-irena-32.jpg 480w, https:\/\/revistaregional.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/especial-irena-32-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 288px) 100vw, 288px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3327\" class=\"wp-caption-text\">\u201c(Ela) foi brutalmente torturada, tendo pernas e p\u00e9s quebrados a pauladas \u2013 mas ela n\u00e3o revelou nomes, nem de seus companheiros, nem das crian\u00e7as que havia salvado\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<p>Nunca considerou a si pr\u00f3pria, nem permitiu que a investissem na condi\u00e7\u00e3o de hero\u00edna. Em todas as entrevistas e homenagens ressaltou que trabalhava em equipe, que sem seus companheiros de resist\u00eancia n\u00e3o teria sido poss\u00edvel tamanha ousadia. Em resposta ao convite para uma reuni\u00e3o em sua homenagem, respondeu: \u201cA justifica\u00e7\u00e3o para minha vida n\u00e3o s\u00e3o honrarias, mas sim a vida de cada uma das crian\u00e7as salvas pela minha ajuda e a ajuda de incr\u00edveis mensageiros secretos que n\u00e3o vivem mais\u201d.<\/p>\n<p>Nenhuma honraria seria capaz de enaltec\u00ea-la o suficiente, e sem d\u00favida n\u00e3o precisou de reconhecimentos para validar sua coragem e amor. Somos n\u00f3s que precisamos oferecer admira\u00e7\u00e3o e gratid\u00e3o, pois no espelho de Irena Sendler, a despeito de todos os horrores de seu tempo, fica enaltecida a nossa pr\u00f3pria humanidade.<\/p>\n<div>\n<p>\u00a0Lia Diskin \u00e9 co-fundadora da Associa\u00e7\u00e3o Palas Athena, coordenadora do Comit\u00ea Paulista para a D\u00e9cada da Cultura de Paz \u2013 um programa da Unesco, recebeu da Unesco o Diploma de Reconhecimento por sua contribui\u00e7\u00e3o na \u00e1rea de Direitos Humanos e Cultura de Paz durante as comemora\u00e7\u00f5es dos 60 anos da institui\u00e7\u00e3o. Lia autorizou a reprodu\u00e7\u00e3o de seu texto nesta edi\u00e7\u00e3o de Revista Regional.<\/p>\n<\/div>\n<p>fotos: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em julho de 1942, h\u00e1 70 anos, tinha in\u00edcio a desocupa\u00e7\u00e3o dos Guetos de Vars\u00f3via, num dos epis\u00f3dios mais marcantes da Segunda Guerra Mundial. Exatamente nesse local figurou um dos monumentos de humanidade e destemor que o mundo j\u00e1 conheceu, a doce Irena Sendler, falecida em 12 de maio de 2009. 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